Agricultor alimenta rebanho com papelão

O agricultor Miguel Ramalho está alimentando o seu rebanho misturando capim com papelão e melaço. Esta foi a forma encontrada por ele para sobreviver a maior estiagem dos últimos 70 anos em Alagoas

O agricultor Miguel Ramalho está alimentando o seu rebanho misturando capim com papelão e melaço. Esta foi a forma encontrada por ele para sobreviver a maior estiagem dos últimos 70 anos em Alagoas
O agricultor Miguel Ramalho está alimentando o seu rebanho misturando capim com papelão e melaço. Esta foi a forma encontrada por ele para sobreviver a maior estiagem dos últimos 70 anos em Alagoas (Foto: Voney Malta)
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Alagoas247 - A pior seca dos últimos 70 anos produz vários sobreviventes em Alagoas, e um deles é o agricultor Miguel Ramalho, mais conhecido como "Miguel do Bigodão". Para não sacrificar as cabeças de gado devido à fome que os animais passavam, "Bigodão" encontrou na mistura do papelão com o capim o caminho para enfrentar o que classifica como maior período de provação de sua vida. Agora, com os animais gordos em sua propriedade, o agricultor, já chamado de louco por alguns colegas, confidencia a inspiração que ele acredita ser divina.

"Isso só poder ser uma coisa de Deus. A vida só a ele pertence, e acredito muito nisso", diz ele.

Numa pequena propriedade localizada às margens da AL-220, em Delmiro Gouveia, bois e vacas se alimentam de uma mistura de 70% papelão e 30% capim. No primeiro momento, os animais, segundo o agricultor, estranharam o alimento produzido, mas, rapidamente, o problema foi superado. Ele conta que o segredo da mistura é colocar melaço de cana, para deixar o produto devidamente molhado ao gosto dos animais.

"Há sete meses, estava numa situação difícil, não tinha mais dinheiro para comprar o alimento para o meu gado. Então, observei meus bichinhos magros, com os ossos batendo na vista. Foi quando percebi que eles comiam pequenos papéis que estavam ao chão. Foi daí que tentei, tentei até que eles conseguissem comer o papelão com a mistura de capim. Foi trabalhoso, mas observá-los hoje com vida não tem preço. Valeu cada momento", conta Ramalho.

As dificuldades para alimentar o gado não pararam por aí. "Bigodão" conta que a seca apertou e, em seguida, não mais era possível encontrar o melaço por doação de amigos ou a um preço que ele pudesse adquirir. Mais uma vez, segundo ele, Deus teria mostrado as suas mãos frente às dificuldades.

"Não aceitava a ideia de sacrificar meus bichos por causa da fome. Por isso, sempre fui atrás de um caminho para reverter esse o cenário. Sem dinheiro, vi então que não mais era necessário colocar tanto melaço para disfarçar o papelão na comida do gado. Bastava um pouco e os animais tranquilamente comiam. Foi quando finalmente fiquei um pouco maistranquilo", colocou.

A cada dois anos, especialmente no período eleitoral, ele diz que se envolve, tradicionalmente, nas campanhas políticas. Ele conta também que já participou de caminhadas ao lado do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso e de eventos ao lado da presidente Dilma Rousseff. No entanto, a proximidade breve com as autoridades não lhe rendeu mais do que belas fotos, lamenta ele.

O agricultor mora a dez quilômetros de uma das comportas do Canal do Sertão e, apesar da localização privilegiada, uma gota d'água da obra que custou mais de R$ 1 bilhão não chegou até o momento a sua propriedade.

"Não tenha dúvida se essa água chegasse até as nossas casas, a realidade seria bem diferente. Hoje, vivemos com a incerteza se o próximo dia vai chegar. Esses políticos passam por aqui e depois não retornam. Tenho excelentes fotos com algumas autoridades, mas ajuda direta nesses momentos de dificuldade não tive nenhuma. Apenas de alguns amigos e, principalmente, de Deus. Caso contrário, minha situação seria outra, bem pior. Mas, o que importa é que meus gados estão vivos", desconversa 'Bigodão', visivelmente chateado com ausência do poder do Estado.

O problema da seca atinge diretamente milhares de famílias no estado e levou o governo de Alagoas a decretar situação de emergência por 180 dias em 37 municípios do Agreste, da Bacia Leiteira, do Sertão e Alto Sertão. A seca, inclusive, já transforma a paisagem em vários trechos do Rio São Francisco, um dos mais importantes do país, que é o responsável pelo abastecimento de várias cidades sertanejas.

Com gazetaweb.com e Gazeta de Alagoas

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