Anastasia ao 247: "eleição não se ganha de véspera"

Em entrevista exclusiva ao 247, o governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, cita o caso recente da Venezuela para prever uma disputa presidencial acirrada em 2014. "O que aconteceu lá é a prova de que tudo pode acontecer aqui também", afirma. Segundo ele, o PSDB não teve temer a comparação com os indicadores econômicos e sociais do PT. "Até porque os de agora já se deterioraram". Ele afirma ainda que o eleitor olhará para a frente e diz que o senador Aécio Neves representa o futuro; confira

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247 - Na esquina da rua Minas Gerais com a Avenida Paulista, em São Paulo, o governador Antonio Anastasia, do PSDB, circula entre salas que homenageiam grandes nomes da cultura mineira, como os escritores Guimarães Rosa e Fernando Sabino. A quem o visita na "Casa de Minas", num ponto nobre da capital paulista, ele próprio oferece e serve duas marcas registradas do estado que governa: o café e o pão de queijo. 

Feitas as honras da casa, com o gravador já ligado, ele começa a discorrer, aceleradamente, sobre os mais diversos temas. Na economia, defende uma antiga bandeira de Minas: a descentralização dos recursos tributários e o federalismo. Na política, aponta o senador Aécio Neves (PSDB-MG), a quem sucedeu, como representante do "futuro". E diz que o PSDB não deve temer a comparação com os indicadores econômicos e sociais do ciclo petista. "Até porque os números de agora já são bem piores".

Em relação à candidatura Aécio, ele se mostra extremamente otimista. "O que ocorreu na Venezuela é a prova de que tudo pode acontecer aqui também", afirma, lembrando que "eleição não se ganha de véspera". Embora o governista Nicolás Maduro tenha vencido, a margem foi bem mais estreita do que se previa. Segundo Anastasia, os movimentos de Aécio têm sido mais "precisos" do que os dos adversários. Confira, abaixo, sua entrevista ao 247.

247 - Há alguns anos, Minas vende o conceito de choque de gestão, mas a oposição denuncia um certo descalabro fiscal. Qual é a situação real do estado?

Anastasia - A melhor resposta quem dá são as agências internacionais de risco, que deram a Minas Gerais o grau de investimento. Desde 2004, o estado é superavitário. Ou seja, gastamos menos do que arrecadamos. E muitos se lembram que, no governo Itamar Franco, Minas estava em moratória. Alguns dos nossos críticos, até com maldade, fazem confusão entre déficit zero e dívida do estado. Embora sejamos superavitários, o estado de Minas, como todos os outros, tem uma dívida, que vem sendo honrada pontualmente, no nosso caso. O custo é alto, defendemos a renegociação, mas pagamos em dia. Outra bandeira nossa é o federalismo. Hoje há uma concentração excessiva dos recursos tributários no poder central, o que é até antidemocrático.

247 - A cidade administrativa foi também muito criticada pela oposição. Já benefícios reais, na sua visão?

Anastasia - Vários. A começar pelos ganhos urbanos. No entorno da cidade administrativa, que foi construída numa região desvalorizada de Belo Horizonte, os imóveis se valorizaram exponencialmente. Ou seja, a decisão do governo transferiu riqueza para a população. Afora isso, houve ganhos gerenciais e no processo decisório. Hoje, quando recebo um investidor, no mesmo momento, tudo se resolve em todas as secretarias. O mais importante é a funcionalidade da administração. O que aconteceu nos últimos dez anos em Minas foi muito importante. Uma revolução, a meu ver.

247 - Quais são os números?

Anastasia - Minas foi, por exemplo, o estado que mais ganhou participação no PIB. Entre 2002 e 2010, nossa participação cresceu 0,7 no bolo nacional. Nossa diferença para o Rio de Janeiro, que era de três pontos, caiu para 1,5. E isso no melhor momento econômico do Rio. São Paulo também caiu. Minas foi quem mais cresceu e depois veio o Espírito Santo. Nosso esforço, agora, é diversificar, para não ficarmos apenas reféns da cadeia mineral, siderúrgica e agropecuária.

247 - O que está sendo feito nessa área?

Anastasia - Estamos criando três parques tecnológicos para reter os talentos de Minas. Temos capital humano. Somos os primeiros do país no Ideb, que faz a avaliação do ensino básico, e temos as melhores universidades. Minas já foi um estado que exportou minérios e mineiros. Isso está mudando.

247 - Como o sr. avalia a gestão da economia brasileira?

Anastasia - É um quadro de preocupação. Vivemos, sim, uma crise internacional, mas o Brasil está se saindo bem pior do que os seus vizinhos. Ou seja, do ponto de vista relativo, estamos mal. Temos que reagir a isso, com mudanças estruturais, que o governo não incorporou ainda. Por exemplo, na redução do Custo Brasil.

247 - O sr. não reconhece o esforço da presidente Dilma em questões como a redução das tarifas de energia, por exemplo? Minas foi muito criticada por não aderir ao plano.

Anastasia - Isso não é verdade. A Cemig, por exemplo, renovou as concessões na área de transmissão. Não renovou na geração, porque as condições não eram vantajosas e a empresa, além de ter acionistas, precisa preservar sua capacidade de investimento. Na infraestrutura, a energia é um aspecto apenas. O Brasil precisa abrir estradas, portos, ferrovias… e tudo caminha muito lentamente.

247 - No caso da energia, não houve uma reação tucana a uma iniciativa popular do governo Dilma?

Anastasia - Por uma coincidência, as empresas que não renovaram parte de suas concessões estão em Minas, São Paulo e Paraná, estados governados pelo PSDB. Mas  deve-se lembrar sempre da frase de Juscelino Kubitschek. A energia mais cara é aquela que não existe.

247 - Não foi uma decisão política?

Anastasia - Não, se fosse assim, não renovaríamos na transmissão.

247 - Passando para a política, como o sr. avalia as perspectivas da candidatura Aécio?

Anastasia - Eu já defendo sua candidatura desde 2010. Hoje, o processo está bem adiantado e ele tem excepcionais condições de vitória. Primeiro, é um candidato leve, que transborda otimismo. Além disso, é preparado, tem experiência, forma equipes, delega atribuições e não tem nenhuma obsessão com a presidência. É também bem-humorado, pode vender esperança e é natural que as pessoas queiram permanentemente algum tipo de mudança.

247 - Mas as pesquisas sobre a popularidade da presidente Dilma indicam um claro favoritismo.

Anastasia - Pode até ser, mas nenhuma eleição se ganha de véspera. Se fosse assim, eu não seria governador de Minas, porque comecei lá atrás e ganhei no primeiro turno com 60%. A eleição na Venezuela também demonstrou que tudo é possível. 

247 - Nas últimas eleições, o PT sempre teve sucesso ao comparar os seus indicadores com os da era FHC. Como escapar dessa armadilha?

Anastasia - Muito simples. Os indicadores atuais, da presidente Dilma, já são piores do que os do Lula e também do Fernando Henrique. Mas o eleitor não irá olhar para o passado. Ele quer olhar para a frente. E quem representa o futuro? A meu ver é o senador Aécio Neves. O povo vota pensando no futuro e na esperança. E o Aécio deverá ter uma campanha semelhante à do Juscelino Kubitschek, vendendo otimismo.

247 - Que marcas poderão ser exploradas na campanha, em contraposição à presidente Dilma?

Anastasia - O excesso de centralização administrativa não funciona. Tenho respeito pela presidente Dilma, que sempre me distinguiu muito, e eu também a ela. Em relação ao senador Aécio, eu sou testemunha. Sua administração foi ousada, corajosa e criativa. Ele sempre me pediu os melhores, valorizou o talento e descentralizou o processo de decisão. É uma pessoa aberta, que cobrou resultados e os obteve. O mundo hoje é aberto e horizontal. O tempo do Luís XIV, o rei sol, chegou ao fim. O perfil do Aécio é exatamente aquilo de que o Brasil hoje precisa.

247 - Na semana passada, o sr. concedeu ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, o Grande Colar da Inconfidência. Ele foi convidado para ser vice?

Anastasia - A medalha da Inconfidência tem uma caráter histórico, de valorização dos mineiros que se destacam nos planos nacional e internacional. O presidente Joaquim Barbosa, que é mineiro de Paracatu, hoje é um nome de grande respaldo no Brasil e no mundo. Lá em Ouro Preto, não falamos de política. E não vejo consistência nesses rumores. Primeiro, porque ele é jovem e ainda tem muitos anos pela frente no STF. Segundo, porque assim como o senador Aécio, é mineiro. Uma chapa presidencial sempre busca agregar mais, numa composição nacional, partidária e regional. Além disso, o presidente Joaquim Barbosa nunca demonstrou interesse na atividade política.

247 - E do que se falou no encontro com ele e com o senador Aécio Neves?

Anastasia - Um dos pontos que nós defendemos é a criação do Tribunal Regional em Minas Gerais. Na primeira região, que tem sede em Brasília, mais de 60% das causas, são originadas em Minas. Portanto, é legítima essa aspiração mineira. Entendemos a posição do presidente Joaquim Barbosa, que demonstra preocupação em relação aos custos dos novos tribunais, mas é necessário desafogar o Poder Judiciário. Mais dia, menos dia, esse tribunal será criado.

247 - Na sua visão, por que até hoje não foi julgado o chamado mensalão mineiro ou mensalão tucano, diferentemente do que ocorreu na Ação Penal 470?

Anastasia - Como você bem sabe, sou uma pessoa oriunda do meio jurídico, embora não seja penalista. Minha área é o direito administrativo. De todo modo, a matéria processual depende muito da estratégia dos advogados. No caso do chamado mensalão, houve uma estratégia, lá atrás, dos réus, de pedir o julgamento no Supremo Tribunal Federal. E aí o STF concordou, o que fez com que esse caso tivesse uma instância única. No caso do outro processo, houve a descentralização, porque foi essa a estratégia dos réus.

247 - Em 1998, o sr. estava no governo de Eduardo Azeredo?

Anastasia - Eu morava em Brasília, atuando no governo FHC, em vários ministérios.

247 - Pode dar um testemunho do que ocorreu em Minas?

Anastasia - Não vivi essa situação e, realmente, não tenho o que acrescentar nesse debate.

247 - Como o sr. não poderá concorrer à reeleição, qual é o seu projeto político?

Anastasia - Comenta-se, em Minas, de uma candidatura ao Senado, mas nada disso está definido. Minha prioridade é trabalhar de corpo e alma pela eleição do senador Aécio Neves, porque, a meu ver, é o que representa o melhor para o Brasil. Meu desdobramento vai depender desse projeto.

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