Aviso aos navegantes: Dilma não é Collor

A cartada da presidente na Cmara e no Senado j desperta fantasmas do passado; todos os presidentes que tentaram governar sem o Congresso terminaram mal, o que dizem; a diferena que Dilma, popular e sem agenda parlamentar, pode ousar mais e no deve temer Renan, Juc e Sarney

Aviso aos navegantes: Dilma não é Collor
Aviso aos navegantes: Dilma não é Collor (Foto: Divulgação)

247 – Quem pode mais? Uma presidente com mais de 70% de aprovação popular e eleita com votação esmagadora ou uma trinca de senadores impopulares formada por José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá? No fundo, é isso que está em discussão no País, desde que a presidente decidiu peitar o Congresso, após ser derrotada numa votação importante, que indicaria um de seus aliados para uma agência reguladora. Como se diz na gíria, Dilma pagou pra ver, ao indicar Eduardo Braga para o lugar de Jucá. Ao fazer isso, a presidente sinalizou que, nas relações com o Congresso, ela também fala grosso.

Essa escolha pelo confronto alarmou os principais colunistas políticos do País. No artigo “O clube na esquina”, publicado nesta quarta-feira no Estado de S. Paulo, Dora Kramer disse que o “clube do ´te pego na esquina´ desde ontem tem nova diretoria: Jucá, Renan e Sarney”. Ela também lembrou o caso de um ex-presidente, Fernando Collor de Mello, que ousou desafiar o Congresso e terminou mal. “Para citar um exemplo recente guardando as proporções, pergunte-se a Fernando Collor se hoje repetiria o exercício de imperialismo na relação com o Congresso se lhe fosse dada uma segunda chance na presidência”.

Na mesma linha, Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, disse que Dilma brinca com os lobos do Congresso movida pela ilusão de que são gatinhos inofensivos. “A tática de Dilma parte de uma premissa falsa. Coisa de política neófita. Onde a presidente enxerga felinos domesticados não há senão feras criadas. Lobos e raposas já farejam os próximos movimentos do porrete. E não se dispõem a oferecer graciosamente nem a cabeça nem o rabo”, diz ele. Ou seja: o Congresso seria hoje um grande covil de traidores esperando a primeira oportunidade para pegar Dilma na esquina, como disse Dora Kramer. Em editorial, o jornal Estado de S. Paulo também destacou o “momento de afirmação” da presidente, mas lembrou que ela talvez não tenha calculado os riscos da manobra.

Por que tanto medo, afinal?

No entanto, de que têm medo os principais editorialistas do País? Será, como afirma nosso colunista Hélio Doyle (leia mais aqui), que Sarney, Renan e Jucá são mesmo tão poderosos quanto acham que são? Será que eles têm mesmo o direito sagrado de emparedar um governo democraticamente eleito? São legítimas as barganhas que fazem em troca de apoio parlamentar? Nenhum dos três resistiria a investigações aprofundadas sobre seus métodos políticos – no caso de Sarney, há até uma operação da PF adormecida, a Boi Barrica, que, a qualquer momento, poderá ser ressuscitada. E talvez fossem eles os que devessem ter medo de Dilma. Não o contrário.

O fato é que a presidente agiu com ousadia porque, efetivamente, pode mais do que seus antecessores. Navega numa popularidade que oscila entre 70% e 80%, conduz uma economia que vai bem, no contexto internacional, e, em Brasília, tem-se a sensação de que ela é uma das únicas pessoas bem-intencionadas, cercada por um oceano de interesses espúrios. Se é verdade ou não, pouco importa. Dilma cultiva uma imagem de xerife.

Portanto, que se faça o aviso aos navegantes: não há o menor paralelo entre Dilma e Collor. Ela ousa porque pode ousar. E não porque acha que pode. Além disso, sua agenda de reformas, é mínima. Se o Congresso decidir trabalhar contra o governo, sairão desmoralizados deputados e senadores – e não a presidente.

Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá não são gatinhos inofensivos. Mas também não são lobos. São tigres de papel.

 

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