Bactérias resistentes. Em breve elas poderão matar 10 milhões de pessoas por ano

Um relatório britânico, publicado em 19 de maio, anunciou a morte de milhões de pessoas, se não forem tomadas medidas para lutar contra o desenvolvimento das bactérias multirresistentes aos antibióticos.

Bactérias resistentes. Em breve elas poderão matar 10 milhões de pessoas por ano
Bactérias resistentes. Em breve elas poderão matar 10 milhões de pessoas por ano

 


Por Cécile Thibert – Le Figaro

  

Quando Ernest Duchesne em 1897, e Alexander Fleming em 1928, isolaram pela primeira vez antibióticos produzidos por fungos, teriam eles imaginado que alguns séculos mais tarde, essa incrível descoberta se tornaria uma séria ameaça para a humanidade e para um certo número de espécies animais?

Um relatório do governo britânico, publicado em 19 de maio, avalia de fato que, até 2050, 10 milhões de pessoas irão morrer todo ano de infecções por bactérias resistentes, isto é, mais que o câncer hoje. A menos que uma ação seja iniciada em escala mundial, a fim de conter esse flagelo.

O problema é que os antibióticos que têm salvado milhões de vidas no decorrer do século 20, são cada vez menos eficazes à medida que são usados de forma excessiva. Eles até poderiam se tornar totalmente impotentes contra as bactérias patogênicas que nos afligem. Por conseguinte, pequenas infecções, como uma infecção urinária, poderiam se transformar em sepses (infecções bacterianas graves e generalizadas), e procedimentos médicos que requerem antibióticos tal como um transplante, uma quimioterapia ou uma cirurgia cardíaca, poderiam se tornar demasiados arriscados para serem realizados.

12.500 mortes por ano na França

«Estamos em um período de ruptura cuja gravidade ainda nos escapa, explica Antoine Andremont, diretor do laboratório de bacteriologia do Hospital Bichat em Paris. No momento, temos quase sempre, pelo menos um antibiótico que funciona. Mas agora, se aparece um paciente que tenha uma infecção resistente a todos os antibióticos que temos será  muito difícil tratá-lo ». Em 2012, o Instituto Nacional de Vigilância Sanitária informou que  158 mil pessoas foram infectadas por bactérias multirresistentes, ou seja, resistentes a várias famílias de antibióticos - na França, naquele ano. Dentre elas, 12.500 faleceram.

Mas qual a origem destas bactérias resistentes aos antibióticos? «A resistência aos antibióticos existia na natureza muito antes do homem descobrir antibióticos », explica Yves Millemann, um docente-pesquisador da Escola Nacional de Veterinária de Alfort, especializado nas questões de resistência bacteriana. De fato, os antibióticos - substâncias químicas que atuam sobre o funcionamento das bactérias e que desse modo, inibem seu crescimento ou as matam - são produzidos na natureza por micro-organismos tais como fungos ou pelas próprias bactérias! «Uma bactéria que produz um antibiótico contra outras bactérias pode, portanto, ter um gene de resistência contra esse antibiótico, de modo que ela não se intoxique com seu próprio veneno », diz Yves Millemann. E as bactérias, invisíveis, mas bastante evolutivas, cooperam entre si para trocar genes que as protegem.

Sem fronteiras

Com o uso indevido de antibióticos, tanto na criação de animais como na medicina humana, uma pressão na sua seleção se estabeleceu. Em contato com antibióticos, as bactérias possuindo um ou mais genes de resistência, foram selecionadas e bem sucedidas em detrimento daquelas que não possuiam o gene precioso. «É nos países emergentes como Índia e a China que há mais bactérias resistentes, explica Antoine Andremont. Os antibióticos genéricos são de fato produzidos e vendidos a custos muito baixos, e são portanto amplamente utilizados na criação de animais».

As bactérias multirresistentes não conhecem fronteiras. Da criação de animais, elas viajam alegremente na água, nos lodos de esgoto, no estrume e, portanto, elas se encontram logicamente em nossos pratos. «Os alimentos como o leite, o queijo, os ovos e a carne não são estéreis. Se as condições de higiene nas fábricas não são ideais, pode haver uma contaminação por uma bactéria resistente », explica Yves Millemann. No entanto, isso não significa que devemos parar de engolir tudo que não foi passado por um esterilizador: na verdade, mesmo que essas bactérias tenham adquirido o gene de resistência, isso não significa que elas são patogênicas (perigosas) para nós. Além disso, nosso próprio consumo de antibióticos (143 milhões de caixas por ano!) não nos protege contra o desenvolvimento de uma resistência dentro dos nossos hospitais.

Porém, os cientistas perceberam que a resistência aos antibióticos é frequentemente reversível nas populações bacterianas. «Um gene de resistência a um antibiótico é um pouco como uma mochila cheia de seixos, explica maliciosamente Yves Millemann. Quando a bactéria é portadora desse gene, ela fica geralmente mais lenta e se multiplica menos rapidamente. Portanto, quando ela não está mais em contato com o antibiótico, ela está em desvantagem e procura se livrar do gene ».

Também é necessário que o consumo de antibióticos diminua. Para isso, o relatório britânico publicado esta semana, recomenda várias medidas: campanhas de informação sobre a resistência aos antibióticos para o público em geral, o desenvolvimento de novos antibióticos (nenhum antibiótico apresentando um novo mecanismo de ação foi desenvolvido em 20 anos), e sobretudo, um uso controlado de antibióticos em humanos e animais, o que poderia nos ajudar no desenvolvimento de testes de diagnósticos.

 

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