Boeing coloca em risco setor aeroespacial nacional, diz analista

A partir de seu escritório no Brasil, a empresa norte-americana está oferecendo salários superiores aos de suas contrapartes brasileiras

www.brasil247.com - KC-390, avião para transporte tático/logístico e reabastecimento em voo desenvolvido pela Embraer, na Base Aérea de Brasília
KC-390, avião para transporte tático/logístico e reabastecimento em voo desenvolvido pela Embraer, na Base Aérea de Brasília (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


Agência Sputnik - Associações brasileiras do setor aeroespacial entraram com ação contra a empresa norte-americana Boeing por esta realizar contratação predatória de engenheiros brasileiros, na 3ª Vara Federal de São José dos Campos.

A partir de seu escritório no Brasil, a Boeing está oferecendo salários superiores aos de suas contrapartes brasileiras, e já contratou 200 engenheiros aeroespaciais sêniores de empresas nacionais do setor, em especial da Embraer.

"Há um questionamento muito forte por parte de algumas entidades, uma vez que vemos um desvio ético significativo por parte da Boeing ao assediar, literalmente, esses engenheiros brasileiros", disse o economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero, à Sputnik Brasil.

O comportamento da empresa norte-americana é ainda mais questionável, se considerarmos que ela teve acesso a informações sensíveis da Embraer, durante o processo de negociação para a formação de uma joint venture entre 2018 e 2020.

"A Boeing teve acesso a um volume de informações extremamente alto sobre a Embraer", disse o Dr. Oswaldo B. Loureda, fundador da Acrux Aerospace e professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), à Sputnik Brasil. "Um volume de informações que, em uma situação natural, nunca seriam dados para uma empresa concorrente."

Segundo ele, a Embraer saiu prejudicada do processo de negociação com a Boeing, uma vez que "praticamente reestruturou a empresa", investiu capital e tempo para concretizar o negócio. Alguns dias antes de fechar o acordo e pagar os US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões) acordados à Embraer, a Boeing se retirou da mesa de negociações. 

Após obter informações privilegiadas sobre a Embraer e se retirar unilateralmente de um acordo praticamente firmado, a Boeing se instalou em São José dos Campos para contratar os engenheiros brasileiros, se utilizando da vantagem de operar em dólar.

"O interesse da Boeing é ter acesso a uma mão de obra altamente qualificada, numa condição de mercado que ela tem muito favorecida, que é fazer os pagamentos em dólar num momento em que o dólar está muito valorizado em relação ao real", explicou Balistiero. "Então, mesmo pagando salários abaixo do recebido pelos engenheiros da Boeing na sua sede, ela consegue atrair engenheiros brasileiros."

Loureda concorda, e nota que a mão de obra brasileira "trará uma economia considerável na folha de pagamentos" da Boeing.

"Nesse sentido, os pesquisadores, profissionais da área aeroespacial no Brasil têm uma formação muito boa. Tão boa ou até melhor do que a americana e [...] são relativamente baratos para uma empresa como a Boeing", disse Loureda.

Um dos objetivos da joint-venture entre Boeing e Embraer era justamente garantir o acesso à mão de obra brasileira, em um contexto no qual a parte norte-americana tem crescente dificuldade para contratar engenheiros aeroespaciais.

"Aparentemente os jovens americanos têm tido interesse cada vez menor pela engenharia e optado pela área de gestão e mercados financeiros. É uma tendência e uma preocupação para os americanos", relatou Loureda.

Neste ano, a Boeing ainda fechou o seu escritório na Rússia, gerando dificuldades ainda maiores para recrutar profissionais.

Ação na Justiça

A ação encabeçada por entidades como a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABINDE) e apoiada pela própria Embraer, solicita que seja estabelecido um teto de contratações para a empresa norte-americana e uma multa de R$ 5 milhões pela contratação de cada profissional que extrapole o limite.

Os advogados ainda alegam que essa mão de obra foi formada sobretudo por instituições públicas, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), UFMG, UFSM, entre outras, financiadas por recursos da sociedade brasileira. Nesse sentido, a ação solicita que a Boeing compense o total investido pela Embraer e pelo ITA em programas de qualificação de engenheiros do setor.

"Eu diria que é perfeitamente possível o questionamento, mas acho muito difícil conseguir barrar o processo", lamentou Balistiero. "Acho que as associações estão denunciando essa contratação predatória, esse verdadeiro assédio pelo qual os engenheiros aeronáuticos têm passado, em especial os da Embraer. Mas acho muito pouco provável que seja possível reverter isso.”

Segundo ele, existem problemas de recrutamento interno, uma vez que "o mercado brasileiro atualmente está desaquecido."

"Isso mostra que o setor aeroespacial no Brasil precisa de mais apoio, precisa de uma gestão governamental mais estratégica", considerou Loureda. "O setor hoje está abandonado no Brasil, tem pouco cuidado, o governo não tem uma visão estratégica."

O especialista nota que o setor aeroespacial é “altamente dependente de pesquisa, desenvolvimento e inovação”, sendo necessária uma coordenação de interesses entre governo, academia, indústria e sociedade.

Balistiero acredita que o próximo governo poderá reverter o processo de "assédio de empresas estrangeiras aqui no Brasil" e retirar da mesa o debate sobre desnacionalização de empresas estratégicas. 

"Isso tem um lado bom, que é evitar a desnacionalização de empresas [...] o lado ruim é que pode afugentar o capital estrangeiro que quer entrar no setor para modernizar", considerou Balistiero.

Loureda lembra que o intercâmbio entre empresas nacionais e estrangeiras é positivo para o país, desde que alinhado a políticas "sérias e constantes para fomentar a base industrial aeroespacial brasileira".

"Desnacionalizar uma empresa como a Embraer não me parece um bom negócio, mesmo considerando que ela é uma empresa privada", considerou Balistiero. "Afinal, não é comum se vender a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo para um país estrangeiro."

Nesta semana, a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABINDE) e a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB) iniciaram uma ação civil pública contra a Boeing, acusando a empresa norte-americana de ameaçar a soberania nacional ao promover contratação massiva de engenheiros aeronáuticos brasileiros. O processo corre na 3ª Vara Federal de São José dos Campos, no estado de São Paulo.

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