Bola de cristal?

Racionamento de energia, eleições e políticas monetária e fiscal foram temas debatidos pelo HSBC com autoridades do governo, investidores privados, analistas e cientistas políticos para tentar apontar tendências

Racionamento de energia, eleições e políticas monetária e fiscal foram temas debatidos pelo HSBC com autoridades do governo, investidores privados, analistas e cientistas políticos para tentar apontar tendências
Racionamento de energia, eleições e políticas monetária e fiscal foram temas debatidos pelo HSBC com autoridades do governo, investidores privados, analistas e cientistas políticos para tentar apontar tendências (Foto: Camila Nunes)

Do Infomoney - Em meados de março, o economista-chefe do HSBC, Constantin Jancsó, e o chefe de pesquisa em renda fixa da América Latina, Gordian Kemen, participaram de reuniões com autoridades do governo brasileiro - representantes do Banco Central, o ministro da fazenda, Petrobras (PETR3;PETR4), BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) - , além de cientistas políticos, analistas econômicos e participantes do mercado.

Em pauta, estiveram os grandes temas da agenda político-econômica brasileira em suas passagens por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, como eleições de 2014, risco de racionamento e a perspectiva para a política econômica, em meio aos próximos passos de política monetária e os desafios no campo fiscal.

O HSBC ouviu os dois lados - os investidores privados e o governo - e destacou as diferenças e as semelhanças entre as opiniões das diversas autoridades que fazem parte do mercado. Confira os três principais pontos:

1. Racionamento
Todos os investidores e analistas com os quais Jancsó e Kemen conversaram mostraram-se preocupados sobre o risco de racionamento por conta do baixo nível dos reservatórios em um ano de chuvas abaixo da média. Enquanto isso, autoridades do governo dizem que o risco é mínimo, sendo que a questão importante é de que como será paga a conta mais "salgada" por conta da geração mais cara de energia por termelétricas.

Não há um número consensual, mas as probabilidades variam de 5% segundo o governo até 30%. Entre os analistas do setor privado, também não há uma concordância sobre quais medidas devem ser adotadas caso um racionamento seja necessário mas, por conta de temores políticos, medidas menos radicais devem ser tomadas. Por outro lado, muitos pensam que um aumento de preços ao consumidor será o mais provável, mesmo se isso implicar em uma maior pressão sobre a inflação.

Cabe ressaltar que a expectativa por um racionamento só aumento, em meio ao fim da época de chuvas, que decepcionaram no último verão. O nível de água do sistema Cantareira vem registrando queda a cada dia, enquanto muitas casas de análise veem aumentando cada vez mais a probabilidade de um déficit de energia.

2. Eleições
O consenso vê uma maior chance de Dilma Rousseff se reeleger como presidente em outubro, sendo que muitos avaliam que o atual patamar de aprovação do governo indica uma vitória confortável para a atual presidente da república. Por outro lado, um analista político destaco que, baseado nos dados de eleições dos últimos 20 anos, a aprovação atual de Dilma entre 30% e 40% pelos eleitores sugerem que esta será uma eleição competitiva e só decidida no segundo turno.

Entre os riscos enfrentados por Dilma neste caminho, analistas descrevem a pressão inflacionária, a possibilidade de eclosão de protestos durante o período de Copa do Mundo, além do racionamento de energia.

O HSBC destaca um ponto sobre as eleições: embora alguns analistas achem que a campanha comece de verdade apenas após a Copa do Mundo, em julho, um outro analisou que, historicamente, o segundo trimestre é normalmente o mais volátil para os períodos de eleição presidencial.

Por outro lado, todos os investidores concordaram que a eleição será o fator-chave para o sentimento do mercado nos próximos meses, e que as pesquisas eleitorais (e até mesmo especulações) são um ponto determinante para os preços de mercado em toda a classes de ativos.

Os analistas de petróleo do HSBC destacaram, em outro relatório, até onde iria a ação de uma das principais empresas brasileiras, a Petrobras, no cenário de eleições. Para os analistas Luiz Carvalho e Filipe Gouveia, está ficando cada vez mais claro que a política está pesando cada vez mais na companhia, e não a sua tese de investimentos.

3. Políticas monetária e fiscal
Em encontro com o Banco Central, o discurso foi parecido com os dos recentes documentos relevados pela autoridade monetária - cabendo lembrar que a decisão foi feita antes da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) de elevar a taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 11% ao ano. Autoridades do BC destacaram que a economia brasileira está passando por um período de transição para investir mais e depender menos do consumo e do setor de serviços.

As autoridades destacaram que o pior da inflação já passou, mesmo ressaltando que estão "vigilantes". O Banco Central enfatizou sua opinião de que a política fiscal foi passando de expansionista para neutro e logo estaria em território restrito, e também que acredita que as condições monetárias na economia também são restritivas. Uma vez que também está convencido de que os canais de transmissão da política monetária estão funcionando bem, ele argumentou que os efeitos do aperto da política administrada desde abril de 2013 continuaria se materializar nos próximos meses e trimestres.

Já as autoridades do governo se mostram convictos de que o governo irá entregar a meta fiscal em 2014, mesmo sem contar com as receitas não-recorrentes do ano passado. Por outro lado, o setor privado argumenta que o orçamento que o governo aprovou está baseado em pressupostos bastante otimistas e que a única maneira do governo entregar a meta fiscal de 1,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2014, baseado em receitas não-recorrentes ou pela transferência de desembolsos em um ano fiscal para os próximos períodos, além de outras manobras.

O economista e o estrategista ressaltam que a viagem pelo Brasil terminou poucos dias antes da Standard & Poor's rebaixar a classificação de crédito soberano do Brasil de BBB para BBB-, mas os argumentos para justificar a decisão foram essencialmente os mesmos ouvidos por investidores e especialistas, avaliam.

"Em particular, há um forte consenso entre os analistas do setor privado, que reconstruir a credibilidade da política fiscal é tão importante ou até mais importante do que o próprio equilíbrio fiscal, mas muitos dos analistas que conhecemos pensam que o governo não partilha desta opinião", avaliam. Enquanto o governo ressalta que vem reduzindo a quantidade de financiamento adicional por bancos estatais - e, particularmente, através do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) -, o setor privado argumenta que, ainda que a um ritmo menos expansionista, a política fiscal ainda é expansionista.

Em relação aos catalisadores para o crescimento do País, as autoridades destacaram que há um progresso considerável no programa de concessões, além de ressaltar o sucesso dos leilões de aeroportos e concessões rodoviárias. Já os analistas com quem Jancsó e Kemen conversaram destacam que há um avanço na relação entre o governo e o setor privado mas, no geral, um ajuste fiscal e monetário em 2014 e 2015 significa que o Brasil deve ter dois anos de um crescimento baixo, independentemente de quem ganhe as eleições.

No mercado de renda fixa, Brasil é uma das grandes oportunidades nos mercados emergentes. Isso porque, apesar dos contratempos, os investidores estão reengajados em focar em ativos atrativos, enquanto o rebaixamento de rating para BBB- pela Standard & Poor's no final de março, já estava precificado.

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