Clima de violência invadiu a saúde em Porto Alegre, diz diretora do GHC

O episódio do tiroteio em frente ao Hospital Cristo Redentor, na semana passada, reativou o debate sobre o clima de insegurança vivido em diversas unidades de saúde de Porto Alegre; em um período de três anos, duas pessoas foram executadas a tiros dentro do hospital, na zona norte da capital, e houve ainda uma terceira tentativa que acabou não consumada; “Estamos vivendo um clima de medo nunca vivido antes. Há um quadro de violência que invadiu a prática da saúde”, diz Sandra Fagundes, diretora superintendente do Grupo Hospitalar Conceição, responsável pela administração do Cristo Redentor e de outras unidades de saúde em Porto Alegre; “Estamos vivendo uma situação nunca vivida antes que gera terror, paralisia e medo de trabalhar”

O episódio do tiroteio em frente ao Hospital Cristo Redentor, na semana passada, reativou o debate sobre o clima de insegurança vivido em diversas unidades de saúde de Porto Alegre; em um período de três anos, duas pessoas foram executadas a tiros dentro do hospital, na zona norte da capital, e houve ainda uma terceira tentativa que acabou não consumada; “Estamos vivendo um clima de medo nunca vivido antes. Há um quadro de violência que invadiu a prática da saúde”, diz Sandra Fagundes, diretora superintendente do Grupo Hospitalar Conceição, responsável pela administração do Cristo Redentor e de outras unidades de saúde em Porto Alegre; “Estamos vivendo uma situação nunca vivida antes que gera terror, paralisia e medo de trabalhar”
O episódio do tiroteio em frente ao Hospital Cristo Redentor, na semana passada, reativou o debate sobre o clima de insegurança vivido em diversas unidades de saúde de Porto Alegre; em um período de três anos, duas pessoas foram executadas a tiros dentro do hospital, na zona norte da capital, e houve ainda uma terceira tentativa que acabou não consumada; “Estamos vivendo um clima de medo nunca vivido antes. Há um quadro de violência que invadiu a prática da saúde”, diz Sandra Fagundes, diretora superintendente do Grupo Hospitalar Conceição, responsável pela administração do Cristo Redentor e de outras unidades de saúde em Porto Alegre; “Estamos vivendo uma situação nunca vivida antes que gera terror, paralisia e medo de trabalhar” (Foto: Leonardo Lucena)
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Marco Weissheimer, Sul 21 - O episódio do tiroteio em frente ao Hospital Cristo Redentor, na semana passada, reativou o debate sobre o clima de insegurança vivido em diversas unidades de saúde de Porto Alegre. Em um período de três anos, duas pessoas foram executadas a tiros dentro do hospital, localizado na zona norte da capital, e houve ainda uma terceira tentativa que acabou não consumada. Mas os problemas não se resumem a esse hospital. Há cerca de uma semana, houve uma tentativa de execução dentro do Hospital de Pronto Socorro, no centro de Porto Alegre. Além disso, se tornaram frequentes os casos de unidades de saúde fechadas por conta de ameaças, execuções e tiroteios. “Estamos vivendo um clima de medo nunca vivido antes. Há um quadro de violência que invadiu a prática da saúde”, diz Sandra Fagundes, diretora superintendente do Grupo Hospitalar Conceição, responsável pela administração do Cristo Redentor e de outras unidades de saúde em Porto Alegre.

Quando assumiu a superintendência do GHC, em abril de 2015, Sandra Fagundes começou a conceber um projeto que integrasse os vários planos de segurança relacionados ao trabalho das diferentes unidades da instituição. O GHC+Seguro passou a contemplar medidas e protocolos internos de seguranças para os pacientes e para os 9.700 trabalhadores do grupo, além de procedimentos relacionados à segurança financeira, institucional e física das suas unidades. No entanto, outro tema passou a merecer uma atenção redobrada: a crise da segurança pública entrou para dentro das unidades de saúde. No caso do GHC, são quatro hospitais, doze unidades básicas de saúde, uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), um consultório de rua, três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que trabalham com crianças, adultos e pessoas com dependência de álcool e drogas.

“Houve um agravamento da questão da criminalidade no último ano. O Cristo Redentor, que é um dos pronto socorros da cidade, ampliou o atendimento de pessoas com ferimentos provocados por facas e balas, com um índice de tensionamento muito grande em função das guerras entre gangues do tráfico”, relata Sandra Fagundes. Em três anos, houve duas mortes por execução dentro do Cristo Redentor. A primeira ocorreu em 2013. Em 2014, houve uma tentativa de execução que não foi consumada. A pessoa que era o alvo dessa tentativa acabou sendo morta mais tarde, quando saiu do hospital. Agora, no início de 2016, ocorreu uma nova execução a tiros dentro do Cristo Redentor.

“Estamos vivendo uma situação nunca vivida antes”

A superintendente do GHC assinala que esse quadro gera um tensionamento enorme entre os trabalhadores das unidades do grupo. “Rigorosamente, quem deveria enfrentar esse problema de segurança pública são os entes do Estado responsáveis por essa área. Estamos trabalhando para buscar uma articulação maior com essas entidades. Ao mesmo tempo, enquanto responsáveis pela direção da instituição, somos responsáveis também pela segurança dos trabalhadores e dos pacientes. Tomamos, então, a decisão de criar um Grupo de Trabalho específico para a questão da segurança, convidando especialistas da área como Marcos Rolim e o coronel Antonio Carlos Carballo Blanco, que iniciou a implantação das UPPs no Rio de Janeiro, para conversar conosco”, relata Sandra Fagundes.

“Estamos vivendo uma situação nunca vivida antes que gera terror, paralisia e medo de trabalhar”, acrescenta a administradora do grupo hospitalar. “Houve uma semana em que tivemos que fechar três unidades básicas de saúde, na Bom Jesus e na Vila Jardim, em função da ocorrência de tiroteios ou mortes próximos dessas unidades. Uma pessoa foi decapitada e jogaram a cabeça perto da unidade básica de saúde. Então, estamos enfrentando situações de violência direta”. Além disso, conta ainda Sandra Fagundes, há relatos cotidianos dos trabalhadores de saúde sobre exigências e ameaças feitas por pacientes que pertencem a determinadas gangues. “Querem mais banho, mais suco ou alguma outra coisa e, para conseguirem o que querem, fazem ameaças. Isso também alimenta o terror e não podemos deixar que isso prevaleça dentro da instituição. Para tanto, deveremos rever alguns processos de trabalho para proteger nossos trabalhadores”.

“O tecido social foi rompido”

Na avaliação da diretora-superintendente do GCH, esse aumento da violência deve-se também ao fato de que o tecido social está rompido no Brasil. “Eu sou de uma geração em que a gente trabalhava nas vilas fazendo visita domiciliar e éramos respeitados por todos pelo fato de sermos profissionais de saúde. A unidade de saúde e o hospital eram protegidos. Havia certa sacralização do serviço de saúde. Era um território neutro que devia ser respeitado. Isso não é mais assim. Hoje, quem está numa unidade de saúde virou alvo da violência também. Nas nossas unidades básicas de saúde tínhamos salas odontológicas que tinham mais de uma cadeira, para poder atender mais gente em menos tempo, com qualidade. Hoje não podemos mais utilizar duas cadeiras ao mesmo tempo nem colocar mais de um paciente na mesma sala, pois um pode ser adversário do outro e estar jurado de morte”.

O serviço de atenção domiciliar também foi afetado por essa nova realidade. O GHC tem cerca de 150 pacientes que são atendidos em casa por equipes que incluem médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, nutricionistas e fisioterapeutas. “Quando é carro nosso ainda passa mais livre, mas, às vezes, não tem carro ou motorista disponível, e as equipes vão de táxi fazer o atendimento. Em alguns lugares não é permitida a entrada do táxi ou então param o carro para verificar se é de fato gente da saúde que está dentro. E há táxis, cujos motoristas se negam a ir a determinados endereços. Então, esse quadro de violência invadiu a prática da saúde”, afirma Sandra Fagundes.

Essa situação está obrigando mudanças no próprio modo de funcionamento e atendimento dos serviços de saúde, sem que os profissionais e as instituições da área estejam preparadas para essa nova realidade, assinala ainda Sandra Fagundes. “Não dá para esperar que tenhamos um novo pacto social. Precisamos tomar algumas medidas imediatas que passam por questões como acesso aos prédios, restrição de visitas, atender em conjunto e não entrar mais no quarto individualmente, ampliação de câmeras de vídeo e implantação de sistemas de monitoramento.

As medidas do GHC para reforçar a segurança

A direção do GHC já tomou uma série de medidas nesta direção como a instalação de portas de acesso interno com codins de acesso (aparelhos que bloqueiam a entrada), ampliação e reposicionamento das câmeras de segurança, revisão e adequação dos horários de visitas em todos os andares, entre outras. Além disso, está adquirindo catracas para acesso de visitantes através de crachá e contratando vigias para reforço de segurança. “Não há mais como evitar esse aparato de segurança. O coronel da PM do Rio nos falou inclusive de preocupações com o tipo de material usado nas paredes para que não entre bala. Tomara que não cheguemos a isso, mas estamos muito próximos dessa realidade”.

Criado na metade de março deste ano, o GT de Segurança reúne representantes dos trabalhadores, dos gerentes, da segurança no trabalho, da área de recursos humanos e da direção da instituição. A ideia agora é ampliá-lo, recebendo como convidados representantes do Ministério Público, da Secretaria Estadual de Segurança, do Judiciário e da Secretaria Municipal de Saúde. A direção do GHC tem feito ainda articulações com a Polícia Civil e com a Brigada Militar para ampliar a ronda policial. Os trabalhadores do grupo reivindicam a instalação de um posto policial no local, mas não há efetivo para isso hoje, alega a Secretaria de Segurança.

A situação mais crítica é no Cristo Redentor, mas a insegurança está presente em vários outros lugares também, diz Sandra Fagundes. Só pelo Conceição circulam cerca de 12 mil pessoas por dia, entre pacientes, familiares e trabalhadores. “Há muitos assaltos ao redor do hospital, o que não existia antes. Já há residentes questionando se ficam aqui ou não em função dessa situação”, assinala ainda a diretora do GHC. O Cristo Redentor é o mais exposto, acrescenta, porque é o hospital que atende essas ocorrências envolvendo conflitos relacionados ao tráfico.

Porto Alegre tem dois hospitais com essa característica: o Cristo Redentor e o Hospital de Pronto Socorro (HPS). A direção do GHC foi ao HPS para ver qual era a situação lá. Em tese, havia uma tese de que ocorriam menos casos de violência lá porque havia menos rotas de fuga para cometer algum crime lá dentro. Além disso, a Prefeitura contratou seguranças armadas para reforçar a vigilância e adotou um sistema de visitas mais restrito. Apesar dessas medidas, há cerca de duas semanas, uma pessoa entrou no HPS, identificando-se como paciente para ser atendido e, enquanto estava supostamente aguardando atendimento, deu sete tiros em um paciente. O GHC está planejando a contratação de seguranças externos para o lado de fora do hospital, especialmente nas áreas de entrada e saída dos funcionários.

“Há uma alimentação do pânico e medo muito grande e vamos ter que aprender a lidar com isso. O hospital atende todo mundo. Se está vivo e chega lá ferido vai ser socorrido. Não cabe ao profissional de saúde julgar se alguém é bandido ou não quando chega ao hospital ferido. Ele precisa ser atendido. Mas os trabalhadores ficam com medo, afetando a sua própria perícia no trabalho. É uma situação bem difícil, que não tem resposta definitiva no curto prazo, mas que precisa ser enfrentada”.


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