Copa aumenta autoestima dos cuaibanos

Quem argumenta é o arquiteto e urbanista cuiabano José Antônio Lemos dos Santos, que lançou o livro "Cuiabá e a Copa - a Preparação"

Copa aumenta autoestima dos cuaibanos
Copa aumenta autoestima dos cuaibanos

CAROLINA HOLLAND
DA REDAÇÃO, do MIDIANEWS

O arquiteto e urbanista cuiabano José Antônio Lemos dos Santos, de 63 anos, escreve artigos há mais de 30 anos. Desde 2009, no entanto, um tema tem sido recorrente para o articulista: a Copa do Mundo em Cuiabá, desde a expectativa da escolha como cidade-sede até a execução de suas obras. 

Formado em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília, Lemos decidiu, ainda no ano passado, reunir os artigos escritos até junho de 2012, ou seja, a dois anos para o Mundial de 2014, no livro "Cuiabá e a Copa - a Preparação", que foi lançado na semana passada, em Cuiabá. 

Em entrevista ao MidiaNews, Lemos afirma evento que será realizado no próximo ano ajudou a impulsionar o inevitável desenvolvimento da cidade, assim como também fez muito bem ao aspecto psicológico da cidade, aumentando a autoestima da população. 

Confira os principais trechos da entrevista: 

MidiaNews – O Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano foi extinto em Cuiabá em 2011, durante a gestão de Francisco Galindo. Como o senhor avalia essa medida?

José Antonio Lemos – Eu acho muito prejudicial porque criamos esse instituto, ainda na primeira administração do Dante [de Oliveira], depois de observar in loco, em lugares como Curitiba, Goiânia, Campo Grande. Nós observamos que o principal ensinamento dessas cidades não era tanto o resultado, mas a máquina que produzia, a máquina institucional que produzia aquelas cidades. O órgão de planejamento em uma autarquia. Porque em toda Prefeitura as secretarias ficam atordoados todos os dias com a quantidade de problemas do cotidiano. E o futuro vai ficar pro futuro. Então nessas outras cidades a gente descobriu que a área de planejamento urbano, de monitoramento urbano, ficava numa autarquia ligada a uma secretaria, mas não cuidando do dia a dia. Ficava protegida desse cotidiano avassalador. Então, uma autarquia, seria a única solução para o planejamento de cidades do porte de Cuiabá. 

MidiaNews - Hoje, em Cuiabá, está com uma secretaria...

Lemos – Sim, está com uma secretaria, como era antes de ser criado o IPDU.

MidiaNews – Estamos passando, então, por um retrocesso?

Lemos – Nesse caso, sem dúvida. Mas eu tenho certeza que a administração vai entender - como essa nova administração, que eu acredito que já esteja tateando o caminho, na medida em que resolveu criar um grupo de trabalho para elaborar projetos especiais – mas no IPDU existia uma diretoria de projetos especiais. O projeto para a cidade, o mais necessário, é aquele que sai do planejamento da cidade. É evidente que, havendo uma verba em Brasília, ou onde quer que seja, para projetos urbanísticos, é claro que pode trabalhar especificamente naquele projeto, naquela linha. Mas o ideal é que todos os projetos saiam da necessidade da própria cidade.

MidiaNews – Em Cuiabá, há a impressão de que parte da cidade cresceu de forma bagunçada, sem preocupação nenhuma com planejamento.

Lemos – Sim. Na verdade, o nosso plano diretor foi criado em 1992. E realmente nós nos preocupamos muito com o planejamento. O IPDU era um órgão ainda muito incipiente. A questão do planejamento ainda não é muito bem assimilada pelos órgãos setoriais. 

MidiaNews – Por quê?

Lemos – Porque eles entendem que existe uma intromissão nas secretarias específicas. Quando existe um plano que define onde é mais favorável construir uma escola, um posto de saúde, ou alguma coisa desse tipo, as linhas de ônibus, existe um olhar meio desconfiado de que tem um secretário querendo intrometer na vida dos outros. 

MidiaNews – As questões políticas acabam interferindo no processo.

Lemos – Sem dúvida. Isso sempre existe. Mas além dessa questão, da própria dificuldade do planejamento em si, existe a dificuldade do “fazerjamento”, de transferir do plano para a realidade. E que a gente não cuidou muito. Tínhamos diversos problemas sérios para serem resolvidos. Quando a Lei de Ocupação do Solo, por exemplo, começa a funcionar, automaticamente, obriga as grandes incorporadoras, os grandes empreendimentos a se adequarem. Essa questão de verticalização, do tipo de edifício que se constrói em Cuiabá, é tudo planejamento. Muita gente acha que verticalizando vai se criar o calor – mas a verticalização proposta no planejamento é feita por volumes, justamente para evitar isso. Tudo isso é pensado. 

MidiaNews - A Lei de Uso de Ocupação do Solo atual está na Justiça.

Lemos – E isso é lamentável. 

MidiaNews - Existe pressão por parte de construtoras e de outros grandes grupos na elaboração da Lei de Ocupação?

Lemos – A cidade é uma batalha de interesses. É um choque de interesses. Todos legítimos. Quem talvez seja o menos importante é o próprio poder público. Ele tem apenas a obrigação de coordenar esses interesses para que convirjam para o bem comum. Então, os empresários, os cidadãos, todos eles são construtores da cidade. Então, cabe ao poder público concatenar esses interesses. Essa é a grande virtude, a grande função da Lei de Uso e Ocupação do solo, que define onde e o que pode ser construído em cada parte da cidade. Isso tem que ser muito discutido. Uma das grandes virtudes do nosso plano diretor é que tudo que foi feito foi discutido – coisa que não ocorreu com essa lei de uso e ocupação atual que está na Justiça. Nós não criamos só um Plano Diretor, um documento. Nós criamos um sistema municipal de desenvolvimento urbano. Aí é que está a grande diferença – entrou na Lei Orgânica do município de 1989. Tem um capítulo lá da Política Urbana. Nesse capítulo, está estabelecido um sistema que tem órgão superior a um Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano, no qual participavam, na época, 36 entidades – 12 da sociedade civil, 12 do município e 12 do Estado e da União. São os principais órgãos que constróem a cidade. Cada vírgula colocada naquele documento foi discutida exaustivamente, às vezes amistosamente, às vezes a socos e pontapés, entre empresários da maior envergadura, com líderes comunitários da maior capacidade e maior interesse público, discutindo para se chegar a um documento. Essa Lei de Uso e Ocupação do Solo demorou quase 3 anos para sair a regulamentação dela, discutindo. E foi substituída por uma que entrou às 10h da manhã e saiu às 10h10, aprovada por unanimidade.

MidiaNews - E esse é um dos motivos de estar na Justiça...

Lemos – Isso. E justamente nesse momento! Quando começamos a trabalhar nesse plano diretor a gente mirava esse início do século agora que entendíamos que seria o 3º salto de desenvolvimento de Cuiabá. A cidade estaria vivendo o seu melhor momento de desenvolvimento, com muito dinheiro e menos migração. Porque no segundo salto, na década de 70, foi o contrário: muita gente, muita demanda, e pouquíssimo dinheiro. Tanto das pessoas que vinham quanto de apoio federal, estadual e do próprio município. Então, agora, esse momento que vivemos, é o mais rico em desenvolvimento. Nós estamos numa das regiões mais dinâmicas do planeta – e isso é uma coisa que precisamos compreender ainda. Que não é questão de bairrismo. Nós entupimos o Brasil de soja no mês passado, porque a estrutura do Brasil não está à altura do que o Brasil está produzindo. Isso é verdade. A gente pensava que a cidade, uma vez implantado esse processo de planejamento lá atrás, em 1989, com o plano diretor, e com as primeiras diretrizes gerais saindo em 1992, hoje pudéssemos estar mais ou menos bem estruturados, em termos de planejamento, pra que justamente nesse melhor momento pudéssemos oferecer segurança para todo mundo, não só para o investidor que está vindo, mas para o cidadão comum. E todos têm o direito a essa segurança urbanística. E, justamente nesse momento, aconteceu o que a gente previa, em termos de desenvolvimento, e a cidade está absolutamente à mercê, sem nenhuma estrutura de planejamento.

MidiaNews – A cidade acaba crescendo por si, sem planejamento, como se fosse um organismo autossuficiente.

Lemos – Sim. E um órgão que cresce sem controle é um órgão em metástase. Então, isso precisa ser deliberado imediatamente. 

MidiaNews – E o que deveria ser feito agora, de forma urgente, para resolver esse problema?

Lemos – Urgentemente, restaurar esse sistema municipal de planejamento urbano. Esse sistema tem que ter um conselho respeitado. Não é que a Câmara não seja importante. A Câmara é o conselho maior. Mas no momento em que se está elaborando a lei, é importante que se discuta tecnicamente, um processo de planejamento participativo, como o Estatuto da Cidade determina, de forma que se chegue a um plano diretor, que é um projeto da cidade. A cidade tem muitos donos. É um processo técnico e político. Não pode ser só técnico, porque senão cai na tecnocracia, que também já deu muitos maus resultados, mas também não pode ser um processo político, porque senão cai na politicagem, que é o que estamos assistindo. Se discute se vai deixar o camelô na calçada, se não vai deixar o camelô na calçada. A calçada é um equipamento de segurança publica. Discute se vai fazer área verde. Tem zonas de interesse ambiental com pessoas morando. Vivem em áreas de risco. E determinados setores negociam em função de apoio político-partidário. 

MidiaNews – O senhor disse antes que havia essa expectativa, até mesmo uma previsão, de que a cidade daria esse salto de desenvolvimento. Nesse sentido, o senhor considera que a Copa acelerou esse processo? Ou esse desenvolvimento viria agora, de qualquer jeito?

Lemos –Sem dúvida [que viria de qualquer jeito]. Mas nesse terceiro salto, nós nunca pensávamos que Cuiabá pudesse ser uma sede de Copa do Mundo. A Copa do Mundo, eu sempre brinco nos meus artigos, foi um artifício que o Bom Jesus de Cuiabá inventou para sacudir o cidadão de Cuiabá, as autoridades, lideranças, sociedade civil como um todo. Que todos entendam que grande parte do que eles consideram como problema, hoje, na verdade é solução. Acho que precisam entender o que está acontecendo agora para cobrar as soluções que a cidade exige para esse novo momento. Mas isso não vai acontecer com uma pessoa sentada numa mesa e tendo estalos de inteligência, adotando soluções isoladas. Tem que ser empreendido na cidade como um todo. Fazer um processo de planejamento da cidade que tenha um horizonte de 20, 30 anos. Hoje, nossa cidade está num processo de horizonte de dois anos. É a próxima eleição. “Vamos fazer isso porque dá voto”. O que não dá voto não interessa. Ferrovia interessa? Não, porque vai ficar pronta lá na frente. Certamente é um assunto fundamental para a cidade, porque é a alimentação da cidade. A cidade atingiu um patamar que precisa dessa ferrovia não para levar soja, mas para aproveitar o fato de que passar uma ferrovia por aqui para levar e trazer outras mercadorias. 

MidiaNews – O senhor, então, é completamente favorável à ferrovia chegar a Cuiabá.

Lemos – Eu acho um crime que não chegue até aqui! Acho um absurdo! Nessa situação em que nós estamos, com centenas de pessoas morrendo todos os anos nas nossas rodovias, não investirmos tanto em ferrovias. Há também a perda de produção, quase 20%, que cai dos caminhões ao longo das estradas. Degradação ambiental. Vamos pegar Lucas do Rio Verde, por exemplo, que é o centro de cargas da produção do agronegócio, que está a 560 km de Rondonópolis, com uma ferrovia que só não funciona ainda porque precisa de uma licença ambiental – o que também é outro absurdo. Mas enfim. Está a 560 km de Lucas do Rio Verde. Por que trocar para uma de 1200 km, que vai chegar numa Norte-Sul, que vai chegar numa rodovia que não funciona? Vai ligar a uma que tem o dobro de distancia, deixando de fazer uma que passa por Nova Mutum, Nobres, por Cuiabá. Toda essa produção vai puxar o trilho que vai irrigar a economia de Mato Grosso. E integrar Mato Grosso. Esse assunto da rodovia, do aeroporto, são absurdos que ninguém briga.

MidiaNews – O senhor acha que, se não fosse pela Copa, obras como a do aeroporto não sairiam do papel?

Lemos – Se não fosse a Copa, não ia sair. 

MidiaNews – Cuiabá está passando por um momento único de sua história, em termos de infraestrutura. O senhor acha que essas obras de mobilidade urbana em andamento vão resolver nossos problemas?

Lemos – Acho que são obras importantes. Inclusive essas interseções na avenida Miguel Sutil e até mesmo na Fernando Corrêa são projetos que já vinham sendo estudados há muitos anos. Já existiam os da Perimetral, por exemplo, no final da gestão do Roberto França. Esses projetos são de dez anos atrás. A avenida Parque do Barbado, por exemplo, é ainda mais antiga.

MidiaNews – E será feita apenas uma parte. 

Lemos – Nesse momento, sim, mas acho que ela vai ser retomada mais pra frente. O projeto dessa avenida é ainda da primeira administração do Dante de Oliveira. A ideia era que, aliás, hoje acontece no mundo inteiro e no Brasil, fazer uma avenida-parque. Ao invés de canalizar o córrego, libera o córrego no seu leito natural, mantendo a sua área de proteção, evitando as áreas de risco, desocupando e transferindo essa população pra áreas seguras, e ter parques lineares ao longo da cidade, com as vias uma ao lado da outra. Protegendo as áreas de margem, de várzea. O da avenida Parque do Barbado é um dos projetos pioneiros nesse sentido do Brasil. As pessoas reclamam do esgoto, mas oras, o córrego não é esgoto! Vamos tirar o esgoto dele. 

MidiaNews – Como o senhor avalia esse crescimento “esparramado” que Cuiabá teve ao longo dos anos?

Lemos – A Lei de Uso e Ocupação do solo pregava que a cidade deveria crescer pra dentro. Porque a cidade tem muitos espaços ociosos. A cidade é muito rala. Faz com que ela seja operacionalmente muito cara. O transporte sai muito mais caro porque o ônibus tem que andar muito mais, o caminhão de lixo tem que andar muito mais, tem muito mais rede de água, muito mais rede de energia, de iluminação pública, justamente por ser muito espalhada. Até certo tempo atrás, o dado que eu tinha era que havia mais de 40 mil lotes ociosos em Cuiabá. E essa quantidade de lotes daria para absorver a população prevista nos próximos 10 anos. Claro que isso seria só em tese. A cidade vai indo. Mas existe, sim, um planejamento, mas ele não pode ser um planejamento parado. Não existe um plano diretor de pacote que fica pendurado na estante do prefeito. O Plano Diretor tem que ser um documento vivo, porque a cidade é viva. Por isso tem que ter um órgão de planejamento que acompanhe constantemente o que está sendo feito. Não é só chegar e dizer que vai ter uma festa, vamos planejar. A cidade não vive de degraus. A cidade é um processo, é um organismo vivo. 

MidiaNews – O senhor acha, então que essas obras vão melhorar nossa mobilidade?

Lemos – Eu acho que vão melhorar, sim, mas só elas não bastam. Se o processo de planejamento tivesse sido continuado, do tempo do Roberto França pra cá, certamente outras obras já estariam sendo alocadas ou projetadas para complementar essas que foram projetadas há 10 anos. A visão macro ficou um pouco deixada de lado, até que houve, uma mudança, ao meu ver, significativa, que foi uma mudança de sistema municipal de planejamento urbano para desenvolvimento estragéfico. Essa mudança não é apenas uma mudança de palavra. É uma mudança de conduta e de conceito. Afinal, a cidade é urbana. O planejamento estratégico é importante para todos os setores. 

MidiaNews – O senhor defendeu, durante muito tempo, a implantação em Cuiabá do BRT (Bus Rapid Transit), modal que acabou sendo deixado de lado em detrimento do VLT. Ainda acha que o BRT seria a melhor opção para a cidade?

Lemos – Eu nunca achei que a questão mais decisiva fosse a da tecnologia. Não importa se é ônibus, VLT ou qualquer outro meio de transporte. A nossa questão continua sendo de como vai ser a gestão disso. Porque eu penso que, com uma boa gestão, mesmo os ônibus – e não retrógrado e nem contra o VLT – funcionariam. Eu era, no começo a favor do BRT porque já estava previsto pra cidade, era uma tecnologia nacional, conhecida, testada e aprovada no mundo inteiro e que já tínhamos fonte de recursos para fazer. Além do mais, poderíamos fazer esse veículo rodar com 100% de biodiesel, já que Cuiabá foi uma das pioneiras na produção desse combustível. E até mesmo fazer uma propaganda mundial desse produto mais ecologicamente correto que os outros. E gerar emprego e renda na fábrica daqui. Geralmente nesses grandes eventos, são “vendidos” produtos locais e esse seria um ótimo produto. Cheguei até a sugerir um nome, meio gozado, que era o CuiaBus. Que fizesse um design bacana. Mas, de qualquer forma, venceu o VLT. E, a partir daí, comecei a torcer para o VLT com unhas e dentes. Espero que funcione. 

MidiaNews – Mas, essa proposta previa a implantação de ônibus articulados com pista exclusiva em Cuiabá e Várzea Grande?

Lemos – Não. Os ônibus articulados, inclusive, já chegaram a rodar em Cuiabá, no final do século passado. Chegou com a política dos terminais - do CPA, Jardim Universitário e outros. A ideia era ter terminais estratégicos, onde teríamos os ônibus que viriam dos bairros e alimentariam os terminais, e desses terminais sairiam os articulados. Reduzindo o número de veículos nos eixos principais. Sem vias específicas, mas poderia ter. Seria uma tendência natural. O que aconteceu? Esse sistema foi bombardeado, porque Cuiabá manda em Cuiabá, Várzea Grande manda em Várzea Grande, e o Estado mando no sistema que liga Cuiabá a Várzea Grande. Naquele tempo, o município cortou uma linha, por exemplo, 3 Barras – Centro e ligou 3 Barras ao Terminal e do terminal viria um ônibus pro centro. Articulado. Acontece que o dono da empresa foi ao Estado, que geria o intermunicipal. Aí esse empresário geria uma linha, por exemplo, Asa Bela, mas passando pelo centro do mesmo jeito. Então, terminou que o articulado morreu. Ficaram os terminais abandonados. 

MidiaNews – O senhor reuniu os artigos feitos sobre a Copa do Mundo nesse livro. Quando surgiu a ideia de lançar o livro?

Lemos - O primeiro artigo daqui foi no dia da primeira visita de comissão de escolha da Fifa. Isso em 2 de fevereiro de 2009. Eu fui escrevendo, até que chegou um ponto que achei que seria importante ter um livro sobre isso. Com a Copa, vi que se juntasse os artigos, poderia servir ate mesmo como uma ajuda nessa continuidade da obra. Por isso o lançamento agora. Poderíamos esperar a copa, mas queria deixar registrados agora os 40 primeiros meses dessa relação Cuiabá x Copa. Foi ate 12 de junho do ano passado, ou seja, a dois anos pra copa. Mas a ideia é ainda dar continuidade nos artigos ao longo dos meses. E, mesmo já tendo sido publicados na mídia eletrônica, eu penso que ler esses artigos, em sequencia, num livro, eles dão uma continuidade, um sentido a tudo isso. E coisas que foi discutida, o que aconteceu, o que foi debatido. 

MidiaNews – O senhor fala também do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra. Qual a relação o senhor faz entre ele e a Copa do Mundo em Cuiabá? Qual a importância dele nesse contexto?

Lemos – Primeiro que o Dutra é um cuiabano que vendia coisas na rua, que não foi ajudado por ninguém e conseguiu sair daqui lavando prato. Era filho de um militar da guerra do Paraguai. Era órfão. E ele foi atrás das oportunidades, até se tornar presidente da República. E foi ele que trouxe a Copa do Mundo de 1950 pro Brasil. Ele que construiu o Maracanã e foi ele, ao meu modo de ver, o responsável por fazer o futebol o esporte mais querido do Brasil. Porque foi a Copa, sem dúvida, que ajudou a fazer isso. E ele queria mostrar pro mundo que o Brasil tinha deixado de ser um país rural, e que passava por um processo de industrialização, e tinha outras cidades grandes, como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. A Secopa chegou a cogitar fazer um monumento em homenagem a ele, no Centro de Reabilitação Dom Aquino Corrêa, e revitalizar o Dutrinha [que se chama estádio Presidente Dutra], que fica na frente, e juntando ali com o Sesc Arsenal. Ia ficar uma área bem bacana, mas o projeto não vai sair do papel, acho.

MidiaNews – O senhor acha que essa vinda da Copa do Mundo aumentou a auto-estima da população?

Lemos – Sem dúvida. Na minha opinião, foi o maior ganho até agora. O cuiabano sempre foi muito simplório, de boa fé. E falo isso como cuiabano, de família cuiabana mesmo. É uma característica nossa, de sermos mais humildes. Talvez por termos ficado muito tempo isolados aqui. Então, quem vinha de fora que sempre trazia novidade, a modernidade. Então, o cuiabano sempre duvidou de ganhar qualquer coisa, ainda mais ganhar de Campo Grande. Então eu acho que essa questão da autoestima foi muito importante. E o cuiabano precisa saber, sem achar que é o maior do mundo, que estamos centralizando hoje um das regiões mais produtivas do mundo. E produtiva de alimentos! Não estamos produzindo bomba atômica, nem tanques de guerra, estamos produzindo alimento para o mundo. Então precisamos entender essa importância e preparar a cidade para esse novo momento. E a outra coisa é que virou a nossa cabeça pro futuro. Porque nós tínhamos e continuamos a ter esse infeliz costume de ficar olhando pra trás e pro agora. O presente é um passado que acabou passar. Ficamos debruçados contando os buracos que temos na rua, quantos coliformes fecais temos no esgoto e esquecemos do futuro que a cidade tem. Temos que olhar pra frente. E temos agora tem a questão da Cuiabá 300. Porque a Copa já passou – o que tinha que fazer está sendo feito e temos que pegar outra coisa pro futuro. Um outro impulso, que vai ser o tricentenário, daqui a 6 anos. Essa vai se a maior efeméride da cidade no século. 

MidiaNews – O senhor acha que essas obras em andamento hoje vão ficar prontas para a Copa?

Lemos – Eu espero que sim e, se não ficarem prontas, que fique a maioria. Mas acho que elas têm que ficar numa situação de irreversibilidade. Tem que atingir um patamar de irreversível para que elas tenham que continuar. 


MidiaNews – E como o senhor imagina a cidade pós-Copa?

Lemos – A cidade continuando a desenvolver bastante, com muito dinamismo. Porque esse dinamismo não depende da Copa. A Copa veio para turbinar. E a cidade vai continuar desenvolvendo e construindo. As pessoas questionam a quantidade de hotéis, shoppings e outras coisas, no sentido de que “o que será deles após a Copa?” Eu já acho que vai ser pouco. Na avenida do CPA, por exemplo, diziam que nem no ano 2000 ela teria movimento. Nos chamavam de loucos. 

MidiaNews – Qual o senhor acha que vai ser o maior legado da Copa para Cuiabá e Várzea Grande?

Lemos – Eu também acho que a autoestima vai ser o maior legado. Economicamente já estamos inseridos no mercado global, através do que é produzido por aqui na região. Agora, temos que nos inserir como sociedade, de forma geral, e entender que, de fato isso pode acontecer. A questão de olhar pro futuro também. E também, isso vale para o país todo, uma revisão na parte administrativa, de gestão do país e das cidades. Porque o primeiro resultado que a Copa mostrou para o mundo foi que o país não estava preparado para nada com data marcada. Quando tem corrupção na obra, ao invés de prender o corrupto, para a obra. Pune o povo duas vezes. Isso precisa ser revisto. E ainda bem que a Copa tem uma data fixa. Porque se não tivesse, ia ser jogada para 2036 e não ia ficar pronta.

Conheça a TV 247

Mais de Geral

Ao vivo na TV 247 Youtube 247