Haddad: Repressão policial foi estopim dos protestos

"Se as forças de segurança tivessem agido de maneira sóbria, democrática, o movimento não teria ganhado a força que ganhou", avalia o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, na primeira longa entrevista depois da onda de manifestações iniciada pela capital, concedida ao Brasil Econômico; petista define integrantes do Movimento Passe Livre como "ingênuos, mas espertos" e entende que "os meios de comunicação de massa, a TV aberta, tiveram papel mais fundamental" que a redes sociais na repercussão do movimento

Haddad: Repressão policial foi estopim dos protestos
Haddad: Repressão policial foi estopim dos protestos

SP247 – Prefeito da capital onde foi iniciada a onda de manifestações populares, primeiramente contra o aumento da passagem do transporte público, Fernando Haddad (PT) vê a enorme mobilização como o resultado de "movimentos de placas tectônicas muito diferentes, que de certa maneira não tinham relação entre si". Segundo ele, "foi como camadas se sobrepondo, gerando um tremor, um abalo das estruturas". Na primeira longa entrevista após os protestos, concedida ao jornal Brasil Econômico, o petista diz ainda que a repressão policial foi o estopim. "Se as forças de segurança tivessem agido de maneira sóbria, democrática, o movimento não teria ganhado a força que ganhou", afirma.

Haddad, que resistiu nos primeiros dias a revogar o aumento da tarifa do transporte na cidade, principal reivindicação do Movimento Passe Livre, define seus integrantes, com quem se reuniu, como "ingênuos, mas espertos". Isso porque, segundo o petista, "eles resgataram uma ideia que era do PT nos anos 80, da prefeita Luiza Erundina, que teve a coerência de sugerir a tarifa zero com uma fonte de financiamento específica, no caso o IPTU progressivo", mas "ficam com a parte boa da ideia, sem dizer como os prefeitos vão financiar".

O prefeito de São Paulo acredita que os meios de comunicação de massa "tiveram papel mais fundamental" que as redes sociais na repercussão do movimento, afirma que sua aproximação do governador tucano Geraldo Alckmin "não é ideológica, é institucional", classifica de "complexa" a relação entre o governo federal e a base aliada no Congresso e garante que "não há dúvidas" de que a candidata do partido à presidência da República em 2014 seja a presidente Dilma Rousseff. Para ele, o movimento "Volta, Lula" existente no partido precisaria "encontrar ressonância no personagem".

Leia abaixo os principais trechos da entrevista e a íntegra aqui:

Balanço sobre as manifestações

Acho que ainda estamos no calor dos acontecimentos. Você ainda tem um período de decantação para saber o que vai restar dessa história toda. Eu vejo a mobilização como se fosse o resultado de movimentos de placas tectônicas muito diferentes, que de certa maneira não tinham relação entre si. Foi como camadas se sobrepondo, gerando um tremor, um abalo das estruturas. A América Latina vive ainda um período em que governos mais à esquerda comandam os principais países, com exceção de Chile e Colômbia. Nesses países, os movimentos de protestos são frequentes, basta ver o que acontece em Caracas, Santa Cruz de la Sierra, Buenos Aires...

Estopim foi o reajuste das passagens?

Eu penso que foi a conjugação disso com a repressão policial. Houve um momento que, se as forças de segurança tivessem agido de maneira sóbria, democrática, o movimento não teria ganhado a força que ganhou. Por isso que digo que são placas tectônicas que dialogaram com muitos imaginários. A questão democrática então surgiu com força por causa da repressão.

A força das redes sociais

Eu entendo que os meios de comunicação de massa, a TV aberta, tiveram papel mais fundamental.

Seria o caso de não transmitir ao vivo?

Longe de mim, os canais têm independência. Acredito que havia uma demanda de audiência pela transmissão. Os meios de comunicação de massa repercutiram esse interesse, e ao repercutirem potencializaram muito mais que as redes sociais. Que, na minha opinião, ainda têm um poder menor.

Impressão sobre os integrantes do Movimento Passe Livre

São ingênuos, mas espertos.

Eles resgataram uma ideia que era do PT nos anos 80, da prefeita Luiza Erundina, que teve a coerência de sugerir a tarifa zero com uma fonte de financiamento específica, no caso o IPTU progressivo. Eles ficam com a parte boa da ideia, sem dizer como os prefeitos vão financiar.

Desgaste da imagem no partido

Eu costumo não comentar as declarações anônimas, é difícil pressupor que alguém possa ter dito isso e não ter falado diretamente para mim, tendo a porta aberta aqui. Então, diretamente ninguém me falou. Eles compreenderam que, ao contrário de todos os prefeitos que subiram as tarifas no começo do ano, eu segurei a pedido do governo federal. Eu e o governador seguramos até julho aguardando a medida provisória do PIS e da Cofins para dar um reajuste inferior à inflação acumulada. Todo mundo sabia dessa história.

Reforma política

A verdade nua e crua é que a reforma política já passou da hora. Todo mundo sabia, desde sempre, que se não fizéssemos a reforma no sistema político, teríamos problema. Obviamente que a dependência do Congresso é total para uma reforma política, mas não houve consenso ainda. Ninguém conseguiu resolver a quadratura do círculo. Como é que aqueles que foram eleitos por um sistema eleitoral vão reformá-lo? Essa é a razão de a assembleia constituinte exclusiva ou um plebiscito serem recolocados na ordem do dia. De onde virá o impulso para essa reforma tão necessária?

Relação com a presidente Dilma

Com ela mais ainda, melhor impossível. Eu faço tudo muito combinado. Quando atendemos ao pedido do governo federal para postergar o aumento e colaborar para o combate da inflação, tudo isso foi conversado longamente.

Movimento "Volta, Lula"

O movimento precisa encontrar ressonância no personagem (risos).

Dilma é candidata em 2014?

Não há dúvidas sobre isso, na minha opinião.

Queda nas pesquisas

Eu já vi muita pesquisa. Eu já vi pesquisa em que eu estava com 3% de intenção de voto. No dia 6 de junho, saiu uma pesquisa dizendo que eu era o prefeito com seis meses mais bem avaliado desde o Jânio Quadros, quando as pesquisas começaram a ser feitas. Pesquisas...(risos) você tem que respeitar, entender e fazer uma leitura.

Relação do governo federal com o Congresso

A relação com o Congresso é complexa. O Brasil é grande, são 513 deputados e 81 senadores. Uma diversidade de perspectiva pragmática e ideológica. É difícil você organizar, mas é possível. O Congresso responde à agenda positiva. Como ministro, não tive nada para reclamar do Congresso. Aprovou todos os projetos de lei encaminhados pelo Ministério da Educação na minha época, e foram dezenas. É absolutamente possível ter uma agenda positiva com o Congresso, mas reconheço que, em função da pluralidade, é difícil.

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