‘Já vou adiantar que não farei loteamento de cargos no governo’

Pré-candidata à prefeita de Porto Alegre pelo PSOL nas eleições de outubro, Luciana Genro também prometeu que não fará alianças com partidos envolvidos em corrupção, contudo não fechou as portas ao seu antigo partido, o PT, no futuro; “Eu tenho muita convicção de que eu estarei no segundo turno e não vou recusar apoios de antemão, no segundo turno”, frisou a ex-deputada

27/03/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Entrevista com Luciana Genro. Foto: Guilherme Santos/Sul21
27/03/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Entrevista com Luciana Genro. Foto: Guilherme Santos/Sul21 (Foto: Leonardo Lucena)

Jaqueline Silveira, Sul 21 - Pré-candidata à prefeita de Porto Alegre pelo PSOL nas eleições de outubro, Luciana Genro, que já foi deputada estadual e federal, parte para a segunda disputa pelo comando da capital gaúcha – a primeira foi em 2008, quando ficou em 4º lugar. Comparada à campanha municipal de 2008, Luciana, que ganhou projeção nacional ao disputar a eleição à presidência da República, em 2014, diz que está mais experiente e elaborando um plano de governo mais qualificado. “Eu acho que eu amadureci, eu ganhei mais experiência e mais conhecimento da cidade”, avaliou ela.

Confiante de que apresentará uma candidatura competitiva com chance de garantir lugar no segundo turno, Luciana prometeu que não fará alianças com partidos envolvidos em corrupção, contudo não fechou as portas ao seu antigo partido, o PT, no futuro. “Eu tenho muita convicção de que eu estarei no segundo turno e não vou recusar apoios de antemão, no segundo turno”, frisou a ex-deputada.

Diante da desistência da deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) em concorrer à prefeitura da Capital, Luciana aposta que herdará parte do eleitorado da comunista. “Eu acredito que vou herdar uma parte importante do eleitorado que se identificava com a Manuela, porque via nela uma renovação, via nela uma jovem empenhada em mudar a política tradicional”, explicou Luciana.

A seguir confira os principais trechos da entrevista concedida por Luciana ao Sul21 sobre suas ideias e propostas para governar Porto Alegre em temas como moradia, espaço público, segurança, transporte público  e população LGBT:

Sul21 – Quais são suas principais prioridades caso seja eleita prefeita de Porto Alegre? O plano de governo terá como base os temas tratados no site Compartilhe a Mudança, como gestão democrática, população LGBT, segurança pública, combate à corrupção, moradia digna, mobilidade e espaços públicos?

Luciana Genro – Em primeiro lugar, a gente quer situar a prefeitura num campo de resistência contra os ajustes que o governo (Michel) Temer vem propondo para o país. Ajustes que vão atingir os trabalhadores, de uma forma geral, que vão atingir os municípios também, principalmente através desse acordo que renegociou entre aspas as dívidas dos Estados, vai impor um teto de gastos e vai atingir brutalmente a prestação de serviços públicos para a população, arrochando o funcionalismo e diminuindo os recursos para a saúde, para a educação e para a segurança pública. Isso vai se refletir muito fortemente nos municípios, então o nosso governo vai ser de resistência, de enfrentamento a esse modelo econômico. O segundo ponto importante é a ideia de buscar construir na cidade uma democracia real, através de um engajamento da cidadania nas decisões da cidade. Hoje, nós temos em Porto Alegre o Orçamento Participativo (OP) e Porto Alegre tem uma tradição de busca por participação popular, foi pioneira na construção desse importante instrumento, que é o orçamento participativo, mas nós queremos ir além da participação oferecida pelo OP. Nós queremos engajar a população nas tomadas de decisão das principais questões da cidade.

Sul21 – E como seria essa participação da população?

Luciana – Para isso, a gente está propondo essa ideia do Compartilhe a Mudança, que nasceu na Espanha com a experiência do Podemos. Eu tive a oportunidade de conhecer, há poucas semanas, a prefeita de Madri, Manuela Carmena, que foi eleita nessa confluência de forças políticas e sociais na Espanha junto com o Podemos, e eles construíram esse modelo de programa de governo participativo e levaram esse modelo para o governo, através de uma plataforma de internet, onde as pessoas participam do governo diretamente.

Então, uma das propostas que eu tenho no eixo Democracia é uma plataforma onde a população possa apresentar suas propostas. Se essas propostas tiverem o apoio de 2% dos eleitores da cidade na plataforma, ela se transforma num plebiscito e, ao se transformar num plebiscito, toda a cidade vai ser chamada a decidir e vencendo a proposta, o governo encampa essa ideia e toma os caminhos necessários para tentar tornar essa ideia viável e realizá-la. Essa é uma das ideias que temos para ampliar a participação da cidadania na tomada de decisões na cidade. A gente tem, por exemplo, o Cais do Porto, tem toda uma polêmica sobre querermos ou não a construção de um shopping ali, qual o modelo de relação com o Lago Guaíba que nós queremos para a cidade? Um modelo de shopping? Um modelo mais conectado com a natureza? Esse tipo de coisa que nós podemos decidir numa discussão democrática com a cidade, e não a partir de decisões tomadas em gabinete.

Sul21 – Há a minuta de um decreto em discussão que pode limitar manifestações nos espaços públicos. Na sua visão, como deve ser aproveitado o espaço público de Porto Alegre?

Luciana – Essa discussão faz parte desse eixo de Democracia que a gente quer enfatizar na cidade, que a população se aproprie da cidade, que os espaços públicos sejam espaços realmente democráticos, onde as manifestações artísticas, culturais e esportivas possam se desenvolver livremente em harmonia e, obviamente, com o conjunto da cidade. Claro que isso dialoga com outro problema, que também é um eixo do nosso programa, que é o problema da segurança pública. Hoje, a gente tem um problema gravíssimo de segurança que impede as pessoas de ocuparem os espaços públicos, principalmente de noite, mas também durante o dia. Como a gente pode construir uma cidade sem medo? Isso parte obviamente de um problema global, nacional, que tem a ver com a crise econômica e com a degradação da situação de vida das pessoas, com a sedução ao narcotráfico, que vem sendo feita para a grande parcela da juventude excluída e que não encontra perspectiva. Tem a ver com o problema da Brigada Militar e hoje nós temos uma situação de policiamento extremamente precário.

Então, a primeira exigência que nós temos que fazer de forma muito firme é uma política digna para a Brigada Militar com pagamento de salários decentes, horas extras que possam propiciar um contingente razoável nas ruas da cidade, o chamamento dos concursados, a substituição dos brigadianos que estão no Presídio Central, que são mais de 300, onde deveriam estar os agentes penitenciários, que também estão concursados aguardando para serem nomeados, e esses brigadianos poderiam estar nas ruas. Mas também é o momento da prefeitura ter uma política proativa de segurança.

Sul21 – Embora segurança seja um dever do Estado, a senhora defende que o município pode agir preventivamente e ativamente nesse sentido. Como seria essa política proativa?

Luciana – Primeiro, é preciso ter uma política de segurança municipal e hoje nós não temos. Aliás, apesar de esforços isolados de vários governos, nós nunca tivemos uma política transversal de segurança que dialogasse com todas as áreas, tanto a educação, como a assistência social, a geração de emprego e renda, a saúde, tudo isso tem de dialogar com o problema da segurança. Primeiro, através de programas preventivos, que tem a ver com manter o jovem na escola, por exemplo. Cada ano que o jovem fica na escola após a 5ª série reduz em 10% a possibilidade de ele ir para a criminalidade, isso são dados do Ipea (Instituto de Economia Aplicada), então, impedir a evasão escolar e, portanto, tornar a escola mais atrativa é algo fundamental também numa política de segurança. Mas são também necessárias políticas de curto prazo, porque essas políticas preventivas, elas dão resultados importantes em médio e longo prazo. Que políticas de curto prazo nós podemos ter? Um fortalecimento e um empoderamento da Guarda Municipal. Hoje, a Guarda Municipal está sucateada, desprestigiada e desempoderada, nós precisamos rever esse quadro.

Sul21 – Hoje, a Guarda Municipal atua mais em escolas e postos de saúde.

Luciana – Em algumas escolas e postos de saúde, ela está presente e faz rondas aleatórias pela cidade, principalmente em torno de prédios públicos e praças, mas ela não tem uma vinculação com a comunidade. Nós queremos transformar a guarda em uma guarda comunitária que se vincule com a comunidade, conheça aquela comunidade, até porque em política de segurança informação é o elemento mais importante para que se possa ter políticas que evitem o crime, porque nós não queremos que apenas os criminosos sejam presos, nós queremos, de preferência, que eles não tenham oportunidade de agir, primeiro que eles não cheguem a se transformar em criminosos, depois que eles não possam agir. Então, evitar as situações que propiciem a ação do crime, isso significa ter uma presença da guarda vinculada com a comunidade. Temos experiências, inclusive aqui em Porto Alegre, iniciativas da própria população de instalação de alarmes comunitários onde as pessoas mesmas se cotizaram no bairro, instalaram alarmes nas ruas e o cidadão fica com o controle remoto daquele alarme, quando tem alguma situação de perigo, ele aciona aquele alarme e toda a comunidade se mobiliza.

Então, se a prefeitura apoiasse esse tipo de iniciativa e conectasse essa comunidade com a Guarda Municipal e buscando que a Brigada Militar também entrasse nesse sistema, porque hoje com o whatsapp, a gente tem uma facilidade enorme de comunicação, poderia gerar mecanismos baratos e criativos de prevenção da violência e de participação da comunidade nesse esforço. Nós não queremos uma cidade militarizada, uma cidade policialesca, então a própria comunidade também tem de se envolver nesse esforço e a guarda tem de ser parte desse sistema de segurança, onde eu quero integrar também a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação).

Os azuizinhos, que hoje se ocupam fundamentalmente de multar o carro particular, inclusive é uma queixa que eles têm, porque eles gostariam de estar mais na fiscalização do transporte coletivo e menos na multa ao carro particular. Eu quero que eles também façam parte desse esforço, que eles também sejam olhos voltados para a segurança da cidade. Isso através de uma rede de comunicação é muito importante e factível que eles também se integrem nesse sistema sem descuidar da sua função principal, que é garantir a mobilidade urbana, que é outro ponto muito importante para se discutir na cidade.

A Carris hoje tem uma situação ruim do ponto de vista financeiro e essa situação ruim é inaceitável, porque ela tem linhas razoáveis, ela não está com as piores linhas da cidade, portanto ela tem linhas lucrativas. Os trabalhadores não têm nenhuma vantagem financeira em relação aos trabalhadores das empresas privadas, mas a Carris dá prejuízo. Então, há ali um excesso de cargos de confiança, há um excesso de contratos de prestação de serviços que precisam ser analisados, porque grande parte dos gastos da Carris vem de contratos com terceiros, precisa haver uma racionalização desses contratos para que a Carris se recupere financeiramente. Nós não queremos uma empresa lucrativa, não é o objetivo dar lucro, mas também não queremos uma empresa que dê prejuízo, que ela possa se sustentar e que possa ser ampliada, porque a qualidade do serviço prestado pela Carris é superior ao serviço prestado pelas empresas privadas, a começar pelo ar-condicionado. A frota da Carris mais da metade já tem ar-condicionado, enquanto que a das empresas particulares menos de um terço tem ar-condicionado. Então, esse fortalecimento da Carris é fundamental, inclusive dialogando com os trabalhadores. Ali tem um quadro funcional muito qualificado, que é desprestigiado em benefício de cargos de confiança que vêm de fora, que não conhecem a empresa e estão ali, simplesmente, por favores políticos.

Sul21 – Mas sempre que se fala em melhorias no transporte público, os empresários pressionam por aumento da passagem.

Luciana – Há uma chantagem e a prefeitura não respondeu à altura essa chantagem. A minha proposta é enfrentar os interesses desses empresários que pensam, em primeiro lugar, no seu lucro em detrimento do oferecimento de um transporte de qualidade para a população. Infelizmente, essa licitação que foi feita é para 20 anos, nós questionamos ela na Justiça e vamos seguir questionando dentro dos limites legais que nos forem colocados, mas nós vamos, dentro da lei, enfrentar essa situação de domínio de grupos econômicos dentro de um serviço tão essencial como é o transporte.

Sul21 – O município de Porto Alegre tem um déficit elevado em moradia, cerca de 75 mil moradias, causa de muitas ocupações. Como solucionar esse problema?

Luciana – Primeiro, eu acho que a prefeitura tem que fazer um esforço, sempre, pra garantir que as pessoas que estão em luta por uma moradia, possam ficar onde elas estão. Hoje, não funciona assim. Então o projeto das AEIs (Áreas Especiais de Interesse Social), que foi iniciativa do PSOL, construído inclusive com o IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), com movimentos de luta pela moradia, foi vetado pelo governo. Derrubado o veto, acabou na Justiça. Então, a primeira ação nesse quesito moradia é tirar essa ação da Justiça e transformar a lei das AEIs em lei. Garantir que essas áreas, que hoje foram ocupadas, sejam, preferencialmente, destinadas à moradia popular. E aí fazer um esforço de ajudar as pessoas a melhorarem sua moradia e o seu ambiente de convivência, a partir da urbanização, um esforço de regularização fundiária, colocação de serviços públicos nessas áreas, porque, muitas vezes, a pessoa consegue construir a sua casinha, mesmo humilde, mesmo uma casinha pobre, ela consegue construir por conta própria, mas ela precisa, no entorno dessa casa, as mínimas condições dignas de saneamento, de urbanização, de posto de saúde, de creche, então é buscar colaborar com quem luta pela moradia e não se contrapor a quem luta pela moradia.

E, ao mesmo tempo, lutar junto ao governo federal pelo Minha Casa, Minha Vida na faixa do zero até três salários mínimos, que foi a faixa menos contemplada do programa. Hoje, a moradia se transformou num objeto de especulação financeira, a terra se transformou num ativo financeiro  e os governos precisam apoiar contra esse movimento dos capitais financeiros de se apropriar da terra pra transformar ela em ativo financeiro, em lucro, que simplesmente alimenta mais esse lucro dentro dessa ciranda financeira. Isso significa iniciativas como essa das AEIs, transformar vazios urbanos, que, muitas vezes, nem imposto paga, em áreas destinadas para construções populares.

Sul21 – Mas em virtude dessa especulação financeira, pode haver dificuldade para viabilizar iniciativas como as AEIs, pois contrariam interesses.

Luciana – Há muitos interesses contrários aos interesses do povo em todas as áreas, se nós vamos analisar na área do transporte, que a gente acabou de falar, na área da moradia, na área da educação. Há também um movimento de privatização muito forte na educação, a saúde pública está sucateada e há que se enfrentar interesses nesse setor. Eu não tenho medo de enfrentar interesses, aliás a minha história política tem sido essa: enfrentar interesses que eu considero contrários aos interesses da população e ao interesse público. Foi por isso que eu acabei sendo expulsa pelo PT no final de 2003, justamente por enfrentar os interesses das grandes corporações financeiras que queriam a reforma da previdência patrocinada pelo governo Lula. Eu e outros companheiros, como a Heloísa Helena e o Babá, nos rebelamos. Então, enfrentamento é uma marca da minha trajetória política e eu acho que quem faz política defendendo os interesses do povo tem de estar sempre preparado para esses enfrentamentos.

Sul21 – Por falar em enfrentamento, a senhora pretende rever algumas isenções fiscais concedidas pelo município?

Luciana – Eu acho que esse é um ponto importante porque nós temos que fazer um processo de discussão democrática sobre as isenções. Por exemplo, eu soube há pouco, através de um auditor fiscal da prefeitura, que as empresas de telemarketing que têm mais funcionários, portanto são maiores, pagam menos ISS (Imposto sobre Serviços) do que as empresas de telemarketing que têm menos funcionários e, portanto são menores. Esse é um critério justo de benefício fiscal, as maiores pagarem menos e as menores pagarem mais? Há que se discutir com a cidadania. As isenções que recebem as empresas de ônibus, são R$ 18 milhões ao ano de ISS, é justo? Isso se reflete no preço da passagem? Sim, mas se reflete no lucro das empresas também. Qual é o lucro real que elas estão tendo em cima desse ganho do ISS, que não entra nos cofres da prefeitura. Esse debate tem de ser feito de forma democrática. Então, quando eu falo de democracia real, eu estou falando de discussões como a do Cais do Porto, mas eu também estou falando de discussões como essa, que são fundamentais para debater o tipo de cidade que nós queremos e como se arrecada e de quem se arrecada mais. É um elemento fundamental desse debate.

Sul21 – Qual sua posição sobre o aplicativo Uber?

Luciana – Eu acho que o Uber é uma realidade irreversível. E ele foi muito bem aceito pela população de Porto Alegre. Não há como ser contra o Uber. Há que se buscar uma regulamentação que, primeiro, garanta a viabilidade do sistema de táxi que já existe em Porto Alegre, que não vilipendie o taxista e também que garanta os direitos do trabalhador do Uber, que têm sido super explorados e ganham cada vez menos, porque a relação que a empresa tem com esses trabalhadores é uma relação extremamente precária, extremamente informal e de total desrespeito com qualquer garantia trabalhista. Então, eu acho que a regulamentação tem que proteger os dois lados, inclusive o taxista, que precisa melhorar a qualidade do serviço. O Uber foi bem aceito porque há deficiências nesse serviço, muito embora eu tenha certeza que a grande maioria dos taxistas quer prestar um bom serviço e proteger o trabalhador do Uber e pensar no que é melhor para o passageiro.

Eu acho que nós temos que ir cada vez mais para um sistema de compartilhamento desse transporte, onde nós não tenhamos só um carro circulando na cidade carregando apenas uma pessoa, mas que se possa pensar um sistema onde esse carro que carrega uma pessoa possa também nesse trajeto pegar outras pessoas e fazer a corrida mais barata para o passageiro, mais lucrativa para o motorista e que propicie o menor número de carros circulando na cidade. Eu acho que a prefeitura pode ajudar a pensar num sistema como esse, inclusive buscando estimular novos aplicativos que não sejam necessariamente vinculados a empresas como o Uber, que possam ser iniciativas locais ou de empreendedores individuais do próprio poder público.

Sul21 – A senhora talvez seja uma das poucas candidatas que tem uma plataforma específica para a comunidade LGBT. Que tipo de política pretende implantar para essa população?

Luciana – Eu acho que a primeira questão é termos uma cidade que seja acolhedora para a comunidade LGBT, não apenas do ponto de vista turístico, mas do ponto de vista do morador da cidade. Para isso, eu credito que, em primeiro lugar, é preciso ter uma  política de educação para a diversidade, nós temos 50 mil crianças que estão sob relação direta com a prefeitura nas escolas municipais e que precisam receber uma educação direta para a diversidade. Então desenvolver programas  de combate ao preconceito e à discriminação contra LGBTs, contra o machismo, contra o racismo, é fundamental dentro da escola. Eu creio também que a verba publicitária da prefeitura, que é bastante razoável, seja gasta em campanhas educativas desse tipo tanto na questão do machismo, quanto na questão da LGBTfobia.

E acho que nós precisamos construir em Porto Alegre um Centro de Acolhimento de LGBTs com políticas públicas tanto de recebimento de denúncias, quanto de apoio e acompanhamento das denúncias que são feitas e de orientação para garantia de direitos. Quando eu fui coordenadora da Bancada do PSOL na Assembleia, eu coordenei a elaboração de uma cartilha LGBT compilando ali todos os direitos que o cidadão LGBT tem, porque, muitas vezes, ele não conhece seu direito e, portanto não consegue fazer valer esse direito.

A homofobia e a transfobia ainda é uma causa de violência extremamente forte no Brasil, então, a gente precisa ter políticas de segurança pública que também dialoguem com esse problema da LGBTfobia. Termos uma Guarda Municipal treinada para garantir direitos LGBTs, treinada para garantir o direito das mulheres, inclusive com a presença de mulheres e de LGBTs na própria guarda, é muito importante para que agente possa fazer garantir esses direitos. Eu acho que é uma questão também como a prefeita, o governo como um todo se posicionar diante dessa realidade: com indiferença ou com vontade de fazer com que esses direitos sejam de fato respeitados.

Acho que eu não preciso provar de que lado eu estou nessa luta, eu fui a primeira candidata a presidente que levou esse tema para o debate presidencial, que falou em homofobia e transfobia num debate eleitoral, portanto tenho uma credencial para garantir que eu vou levar adiante essa luta como prefeita.

Sul21 – O PSOL pretende fazer alianças para a disputa da prefeitura? A Rede é o partido com mais possibilidade de se unir ao PSOL?

Luciana – A gente está pensando mais num termo como confluências políticas e sociais do que uma tradicional Frente de Esquerda. Essa confluência é o encontro de forças políticas que têm programas para a cidade que se combinam. Hoje, nós temos, na política nacional, uma absoluta degradação. O que apareceu com a Lava Jato não foi surpresa pra nós, embora o tamanho da corrupção tenha, sim, nos surpreendido e o seu caráter endêmico, como o próprio representante da Transparência Internacional afirmou aqui no Brasil, em sua visita recente. E estar livre desse sistema de corrupção é um pressuposto para estar juntos num governo, portanto eu não estou em busca de uma aliança com partidos que estejam envolvidos na corrupção. Na Lava Jato ou em qualquer outra investigação que tenha demonstrado envolvimento partidário.

Sul21 – Isso descartaria o seu antigo partido, o PT?

Luciana – Eu não estou em busca de alianças com o PT. O PT tem os seus projetos políticos. A busca de um programa comum para se apresentar de forma conjunta no primeiro turno, pressupõe essa relação limpa com a política. Obviamente que não se pode criminalizar os partidos políticos por inteiro, a ação de seus integrantes. Mas se pode sim, analisar como esse partido se comporta em relação aos integrantes envolvidos com corrupção e esse comportamento leniente com a corrupção dentro dos seus quadros, informa o comportamento de todo o partido. O PP, por exemplo, é uma noiva cobiçada aqui em Porto Alegre e é o partido com o maior número de envolvidos na Lava Jato. Então, obviamente eu não quero governar com o PP, eu jamais buscaria aliança com o PP. A Rede é um partido com o qual nós temos pontos de contato importantes.

Sul21- Por exemplo?

Luciana – Eu defendi eleições gerais pra responder ao problema do impeachment, fui contra o impeachment, ao mesmo tempo não considerei que a simples manutenção da Dilma (Rousseff, presidenta afastada), traindo os compromissos de campanha, era a melhor alternativa para o Brasil e, por isso, eu defendi eleições gerais e sigo defendendo, diante desse horror que a gente tem com o Temer.

Lamentavelmente, nenhum dos partidos tem interesse em fazer eleições gerais, porque eles não querem dizer qual é a proposta que eles têm para a crise, porque a proposta deles é o arrocho, são cortes em cima do povo e isso vale tanto pro PT como pro PSDB, embora em graus diferentes. A Rede foi parceira nessa proposta que eu defendi. Também não há envolvimento da Rede na Lava Jato e, dentro de Porto Alegre, a gente tem dialogado em cima de propostas bem concretas, que nós temos muito acordo. Todo o meu programa de segurança, por exemplo, tem sido construído com o Marcos Rolim e o Luiz Eduardo Soares, que são filiados da Rede. O Luiz Eduardo, inclusive, é o porta-voz da Rede no Rio de Janeiro. Então, nós temos muitos pontos de contato programáticos e estamos dialogando para ver se vamos caminhar juntos nesse primeiro turno.

O segundo turno é outra discussão, porque eu pretendo estar no segundo turno. Aliás, eu tenho muita convicção de que eu estarei no segundo turno e não vou recusar apoios de antemão, no segundo turno. Mas já vou adiantar que não farei loteamento de cargos no governo, porque eu não vou transformar o governo em feudos de partido. Eu quero governar com a inteligência da cidade. Eu quero governar com quem realmente conhece os problemas da cidade, eu quero governar com os movimentos sociais, com organizações como o IAB, o Sindicato dos Engenheiros, o movimento da moradia. Eu quero que essas lideranças, que estão no dia a dia da cidade e conhecem sua realidade, é que venham a compor o governo. Então, se alguém vier me apoiar em busca de acordos para loteamentos de governo, não terá sucesso. 

Sul21 – Mas talvez a senhora tenha que fazer alianças para construir uma base para aprovar projetos na Câmara.

Luciana – Eu acredito que a Câmara é muito sensível às necessidades do povo, porque os vereadores têm uma vinculação direta com a sociedade. Então, um governo só precisa de negociata na construção de uma base de apoio quando ele tem propostas ruins e que não tem apoio popular, porque daí, sim, precisa oferecer cargos, oferecer espaços de governo, pra conseguir apoio dos vereadores. Se eles votarem algo que não é popular, eles querem algo em troca. Assim é a lógica que funciona na política tradicional. Quando um governo tem propostas que são populares, mesmo aqueles que não fazem parte da base, vão apoiar. O próprio PSOL na Câmara de Vereadores, quando o Fortunati (prefeito José Fortunati) manda propostas que são boas, nós apoiamos. Nunca pedimos nada em troca. E eu acredito que assim que deve funcionar. Quando a proposta é boa, quando tem respaldo junto à população, não é preciso fazer negociatas nem toma lá da cá pra se conseguir apoio na Câmara de Vereadores.

Sul21 – Ainda em relação a alianças, o PCB e o PSTU podem integrar essa confluência de forças, como a senhora prefere dizer?

Luciana – Também estamos conversando com eles. Pode haver uma confluência com eles também.

Sul21 – E a definição sobre o vice? Ele pode ser da Rede?

Luciana – Vai depender das alianças. Se nós tivermos uma chapa pura do PSOL, eu gostaria de ter o nome do Pedro Ruas na vice, mas isso também vai depender de uma decisão partidária. Se nós tivermos aliança, aí nós vamos abrir essa discussão com os aliados.

Sul21 – Pesquisas realizadas antes de a deputada Manuela D’Ávila confirmar que não será candidata lhe colocavam em segundo lugar na disputa, com cerca de 20% dos votos. A senhora acredita que vá herdar uma parte considerável desses eleitores da esquerda ou de eleitores que gostariam de ver uma mulher à frente da prefeitura? 

Luciana – Eu acredito que sim, eu acredito que vou herdar uma parte importante do eleitorado que se identificava com a Manuela, porque via nela uma renovação, via nela uma jovem empenhada em mudar a política tradicional, independente do juízo de valor que eu possa ter do partido ao qual ela pertence, mas ela carregou esse símbolo. Eu acredito que é natural, diante da desistência dela, que uma parte do eleitorado observe a minha candidatura, e o que eu quero mostrar é que é possível governar de outra forma, eu quero essa oportunidade, quero essa chance de fazer com que o meu discurso e a minha história de luta, de uma política que não seja vinculada à corrupção, que não seja vinculada aos interesses das grandes empresas, que não seja vinculada ao loteamento partidário possa ter a possibilidade de se realizar na prática.

Acho que essa eleição municipal é a grande oportunidade que o povo tem para testar essa possibilidade que eu tenho defendido há tantos anos e que agora as pesquisas mostram que eu tenho chance de tornar real. Eu entro na eleição com muita humildade, até porque eu sei das dificuldades que eu vou enfrentar, das máquinas partidárias, das máquinas governamentais, das diferenças no tempo de televisão, então eu tenho muita convicção que vai ser uma batalha dura, e que eu só vou vencer se eu conseguir criar um movimento real da cidadania de Porto Alegre, que lute pela minha candidatura, que não seja uma candidatura do PSOL, mas que seja de fato essa confluência de forças políticas e sociais que vocalize as demandas dos movimentos, das pessoas  que querem construir uma Porto Alegre mais participativa, mais democrática e principalmente mais justa.

Sul21- A senhora disse que enfrentará máquinas partidárias e máquinas governamentais na disputa eleitoral, mas a senhora não acha que a decisão do STF de proibir a doação de empresas possa tornar um pouco mais igual a campanha, do ponto de vista econômico?

Luciana – A melhor notícia dessa campanha foi essa, ao meu ver, do financiamento privado e pra nós, do PSOL, isso foi um ganho gigantesco, porque nós nunca tivemos grandes recursos privados, sempre trabalhamos muito com esforços de doações individuais ou do próprio fundo partidário. Então, nós somos especialistas em fazer campanhas sem dinheiro. A dificuldade que eu vejo, vai ser dos outros, que estavam acostumados a fazer campanhas milionárias, a ter marqueteiros pagos a peso de ouro, a ter cabos eleitorais pagos, a comprar lideranças. E eu acredito que a cidadania de Porto Alegre vai ficar muito atenta ao risco de que isso continue acontecendo, mesmo com a proibição, de que esse dinheiro entre de caixa 2 e continue irrigando campanhas milionárias. Nós vamos ficar de olho e vamos denunciar qualquer indício de abuso do poder econômico que apareça na campanha.

Sul21 – Em 2008, a senhora acabou em 4° lugar na disputa pela prefeitura. O que mudou na sua trajetória de lá pra cá e que pode impulsionar a candidatura? 

Luciana – Primeiro, eu acho que amadureci, eu ganhei mais experiência e mais conhecimento da cidade. Segundo, eu acho que a situação política também mudou. Em 2008, nós tínhamos uma situação onde o PT era a grande expressão da esquerda brasileira. Hoje, nós temos o PT bastante desmoralizado e nós temos uma busca por uma nova alternativa e por um terceiro campo na política nacional e essa busca ganhou muita força com os casos de corrupção e tudo que foi descortinado pela Operação Lava Jato, envolvendo todos os grandes partidos e mostrando que o PSOL foi um dos poucos que não entrou no esquema da política nacional, então eu acho que isso fortalece bastante a possibilidade de vitória.

O terceiro ponto é que nós estamos construindo um programa ainda mais qualificado que aquele que nós construímos em 2008, porque nós criamos a plataforma do Compartilhe a Mudança, fizemos um diagnóstico da cidade, estamos dialogando com especialistas de várias áreas e com a própria comunidade e buscando propostas criativas que possam ser factíveis de fato, como essa que eu falei da segurança. Na saúde, propostas novas que podem ser realizadas e que podem trazer melhorias reais para a saúde pública da população de Porto Alegre, que é outro problema gravíssimo. Temos muito boas propostas também, então eu acho que a combinação desses três elementos nos dá uma chance muito grande de vitória.

Sul21– A senhora disse que é contra o impeachment e a favor de eleições gerais. Por que a senhora não participou dos atos contra o golpe, ao contrário de outros integrantes do PSOL?

Luciana – Eu não poderia subir no mesmo palanque que a Dilma. Eu considero que a Dilma traiu o seu eleitorado de segundo turno, quando ela nomeou o Joaquim Levy (ministro da Fazenda) e anunciou um ajuste fiscal absolutamente contrário a tudo o que ela disse na campanha. Inclusive, ela atribuiu ao Aécio (Neves, candidato do PSDB que disputou o segundo turno à Presidência em 2014) o que ela estava fazendo depois na política econômica e no dito ajuste das contas públicas, que nunca atinge os de cima, os milionários, os banqueiros, o pagamento de juros. Nunca tem ajuste lá em cima, só tem ajuste embaixo, então eu não poderia estar no mesmo palanque que o da Dilma, por isso que eu não participei desses atos que, embora defendessem o Fora, Temer, estavam defendendo o Volta, Dilma.

Houve atos em Porto Alegre que não tiveram esse caráter de Volta, Dilma, mas simplesmente o caráter Fora, Temer, que todo o PSOL participou. Eu não estive porque eu não estava em Porto Alegre naquele dia, mas houve participação da juventude do PSOL, do Juntos, que é um movimento da juventude que também tem vários filiados ao PSOL, desde que fossem movimentos pelo Fora, Temer e não pela volta da Dilma, porque não nos aliamos com essa ideia de que a Dilma tem legitimidade pra voltar, simplesmente porque ela foi eleita por quatro anos o povo tem que aguentar, independente do que ela faça.

Isso é contrário a toda a lógica de uma democracia real, do que junho de 2013 expressou nas ruas do Brasil naquela ocasião, de que as pessoas querem ser protagonistas da política. Eles não querem ter que esperar quatro anos pra mudar o rumo das coisas, quando esse rumo não condiz com as necessidades do povo. E foi isso que aconteceu. E foi por isso que ela caiu também, porque ela perdeu essa legitimidade desse apoio popular ao abandonar o seu programa e aderir ao programa do Aécio.

Sul21 – Mas integrantes do PSOL participaram e, inclusive, discursaram no ato que teve a presença de Dilma em Porto Alegre?

Luciana – Teve. Cada um escolhe suas companhias.

Sul21 – A senhora falou muito de implantar experiências do Podemos da Espanha. Isso quer dizer que sua plataforma de governo e a campanha do PSOL em Porto Alegre serão muito inspiradas nessa força política de esquerda da Espanha?

Luciana – Sem dúvida, a própria plataforma Compartilhe a Mudança é inspirada no Podemos da Espanha, o Bernie Sanders também, nos Estados Unidos, fez algo semelhante. A gente quer levar essa experiência de construção programática de forma democrática para a administração, para o governo. Então, essa ideia de se fazer uma democracia real no processo de construção da campanha se projeta para a forma como nós queremos governar.

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