Luis Felipe Miguel: Doria abraça o fundamentalismo

Cientista político Luis Felipe Miguel avalia, em texto publicado em seu Facebook, que "ao obter o apoio militante do pastor" Silas Malafaia, que até pouco tempo apoiava Jair Bolsonaro, "o dito prefeito de São Paulo dá mais um passo para se credenciar como nome da extrema-direita para 2018. O preço a pagar, claro, é ampliar o compromisso com o discurso fundamentalista e o ataque aos direitos das mulheres e da população LGBT"

Cientista político Luis Felipe Miguel avalia, em texto publicado em seu Facebook, que "ao obter o apoio militante do pastor" Silas Malafaia, que até pouco tempo apoiava Jair Bolsonaro, "o dito prefeito de São Paulo dá mais um passo para se credenciar como nome da extrema-direita para 2018. O preço a pagar, claro, é ampliar o compromisso com o discurso fundamentalista e o ataque aos direitos das mulheres e da população LGBT"
Cientista político Luis Felipe Miguel avalia, em texto publicado em seu Facebook, que "ao obter o apoio militante do pastor" Silas Malafaia, que até pouco tempo apoiava Jair Bolsonaro, "o dito prefeito de São Paulo dá mais um passo para se credenciar como nome da extrema-direita para 2018. O preço a pagar, claro, é ampliar o compromisso com o discurso fundamentalista e o ataque aos direitos das mulheres e da população LGBT" (Foto: Gisele Federicce)

Por Luis Felipe Miguel, em seu Facebook

Reportagem na Folha de hoje mostra que Silas Malafaia tomou partido - por João Doria, contra seu até agora amigão Jair Bolsonaro. Ao obter o apoio militante do pastor, o dito prefeito de São Paulo dá mais um passo para se credenciar como nome da extrema-direita para 2018. O preço a pagar, claro, é ampliar o compromisso com o discurso fundamentalista e o ataque aos direitos das mulheres e da população LGBT. (Outros preços podem ter sido cobrados, mas daí é uma questão de foro íntimo entre Doria e Malafaia...).

Muita gente não gosta de Malafaia porque ele é pilantra e aproveitador. Eu acho isso o de menos. Eu não gosto de Malafaia porque ele é um assassino. Pode nunca ter matado alguém com as próprias mãos ou apertado o gatilho, mas tem parte da culpa por cada gestante que morre num aborto inseguro, por cada mulher que é assassinada por um companheiro ou ex-companheiro que a tratava como propriedade sua, por cada lésbica, gay ou travesti que compôs as estatísticas que fazem do Brasil o campeão mundial de homicídios homofóbicos.

Por ignorância, acredito, mais do que por má fé, a reportagem da Folha fala de "ideologia de gênero" sem aspas e deixa transparecer que a questão da construção cultural dos papéis masculinos e femininos é uma problema em aberto, não um ponto há muito estabelecido nas ciências humanas. A "ideologia de gênero" é, na verdade, um termo inventado pelos setores mais reacionários da Igreja Católica e que se tornou a bandeira da frente ecumênica em defesa do sexismo e da homofobia, hoje emblematizada, no Brasil, pelo projeto obscurantista da "Escola sem Partido" (sic). Se há, de fato, uma ideologia de gênero, ela é a ideologia que atribui compulsoriamente comportamentos estereotipados de acordo com o sexo biológico, nega autonomia às mulheres e proíbe relações afetivas que não se enquadrem em um único padrão.

Ao impedir que a desigualdade de gênero e a homofobia sejam tematizadas nas escolas e na mídia e combatidas por políticas de governo, esses grupos promovem ativamente a perpetuação de formas de violência e opressão. As motivações de Malafaia e de seus parceiros incluem doses variáveis de oportunismo político e de fanatismo. Mas são todos cúmplices de milhares de mortes anuais e do sofrimento e insegurança constantes de milhões e milhões de pessoas pelo Brasil afora.

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