Morais: Temer pode entrar para a história pela porta dos fundos

"O áudio vazou ou foi vazado? Meu temor – não é uma acusação, é um temor – é que a hipótese correta seja a de número 2, o que remete a um 'vazamento', assim mesmo, entre aspas. Uma divulgação proposital do áudio", diz o escritor Fernando Morais, que comparou o vice-presidente a Auro de Moura Andrade, que teve a ousadia de declarar vaga a presidência da República, quando João Goulart ainda era presidente

"O áudio vazou ou foi vazado? Meu temor – não é uma acusação, é um temor – é que a hipótese correta seja a de número 2, o que remete a um 'vazamento', assim mesmo, entre aspas. Uma divulgação proposital do áudio", diz o escritor Fernando Morais, que comparou o vice-presidente a Auro de Moura Andrade, que teve a ousadia de declarar vaga a presidência da República, quando João Goulart ainda era presidente
"O áudio vazou ou foi vazado? Meu temor – não é uma acusação, é um temor – é que a hipótese correta seja a de número 2, o que remete a um 'vazamento', assim mesmo, entre aspas. Uma divulgação proposital do áudio", diz o escritor Fernando Morais, que comparou o vice-presidente a Auro de Moura Andrade, que teve a ousadia de declarar vaga a presidência da República, quando João Goulart ainda era presidente (Foto: Leonardo Attuch)

Por Fernando Morais, em seu Facebook

o áudio de michel temer.

logo abaixo vai a transcrição da íntegra do pronunciamento à nação gravado pelo vice-presidente michel temer e contido em áudio vazado hoje à tarde em brasília, em um furo da repórter daniela lima, do uol.

conheço michel temer há cerca de quarenta anos. fomos colegas em dois governos e tenho com ele, como já disse aqui, uma relação reciprocamente respeitosa. nesse episódio de hoje, porém, há, na minha modestíssima opinião, três questões a avaliar:

1 – temer teria sido picado pela mosca da vaidade e do exibicionismo, tal como ocorreu com fernando henrique no “episódio da cadeira da prefeito”. antes fosse. mas não me parece que seja o caso. fhc era um noviço em política e um vaidoso assumido. temer é um profissional. quem quer que tenha conhecido o vice-presidente rapidamente sabe que, nesse quesito, ele é o anti-fhc. discreto, fechado, baixo-perfil.
2 – a segunda hipótese, a mais grave, é que temer tenha recebido o espírito do senador auro de moura andrade, que em 1964 declarou vaga a presidência da república quando jango ainda estava em território nacional, abrindo a portas para o golpe.
3 – o áudio vazou ou foi vazado? meu temor – não é uma acusação, é um temor – é que a hipótese correta seja a de número 2, o que remete a um “vazamento”, assim mesmo, entre aspas. uma divulgação proposital do áudio.

seja o que estiver acontecendo, michel temer está correndo o risco de entrar para a história pela porta dos fundos.

aí vai a transcrição do áudio. na urgência de prestar um serviço aos seguidores do foicebook, não foi possível corrigir maiúsculas e minúsculas, vírgulas e pontuação. mas é fidelíssima.

Eu quero neste momento me dirigir ao povo brasileiro para, dizer algumas matérias que, penso, devam ser por mim, agora, enfrentadas. E o faço, naturalmente, com muita cautela, porque na verdade, sabem todos que há mais de um mês eu me recolhi, exata e precisamente para não aparentar que eu estaria cometendo algum ato, praticando algum gesto com vistas a ocupar o lugar da senhora presidente da República. Recolhi-me o quanto pude, mas evidentemente nesse período fui procurado por muitos que estão aflitos com a situação do nosso país.

Mas agora, quando a Câmara dos Deputados decide por uma votação significativa declarar a autorização para a instauração de processo de impedimento contra a sra. presidente, muitos me procuraram para que eu desse pelo menos uma palavra preliminar à nação brasileira.

O que eu faço com muita modéstia, com muita cautela, com muita moderação, mas também em face da minha condição de vice-presidente e naturalmente de substituto constitucional da Sra. presidente da República. Desde logo eu quero afirmar que temos ainda um longo processo pela frente, passando pelo Senado federal. Então todas as minhas palavras levarão em conta apenas a decisão da Câmara dos Deputados. Portanto também as minhas palavras são provisórias, já que nós temos que aguardar e respeitar a decisão soberana que o Senado Federal proferirá a respeito desse tema. Seja quanto à admissibilidade da autorização, seja quanto ao final do julgamento propriamente dito.

Porquanto eu quero nesse momento prestar uma homenagem ao poder legislativo, tanto à Câmara dos Deputados que já debateu amplamente este assunto, como ao Senado Federal que irá debater. E desde logo eu quero comunicar aos amigos e colegas, ehh... homens públicos, senadores, da melhor cepa ehh.. da melhor sabedoria, que aguardarei naturalmente a decisão, aguardarei respeitosamente a decisão do Senado Federal. Não quero avançar o sinal, ehhh... até imaginaria que eu poderia falar depois da decisão do Senado, mas evidentemente sabem todos os que me ouvem que quando houver a decisão definitiva, a decisão do Senado, eu preciso estar preparado para enfrentar os graves problemas que hoje afligem o nosso país.

E desde logo quero dizer aos que me ouvem que, repetir na verdade, o que tenho pregado ao longo do tempo. Os srs. sabem, os brasileiros sabem que há mais de oito ou dez meses tenho feito pronunciamentos eh, referentes ‘a pacificação do país. À unificação do país, porque é chocante, para não dizer tristíssimo, verificar os brasileiros controvertendo-se entre si, disputando ideias e espaços, até aí tudo bem, mas quando parte para uma coisa quase física, isso não pode acontecer no nosso país. Portanto ao dizer agora que a grande missão ‘a partir desse momento é a pacificação do país, a reunificação do país, eu quero repetir o que venho pregando há muito tempo, como responsável por uma parcela da vida pública nacional.

Quero dizer também, isso fica para o aconteça o que acontecer no futuro, que é preciso um governo de salvação nacional, e portanto de união nacional. É preciso que se reúnam todos os partidos políticos e todos os partidos políticos estejam dispostos a dar sua colaboração para tirar o país da crise. Sem essa unidade nacional penso que será difícil tirar o país da crise em que nos encontramos. Para tanto é preciso diálogo, o fundamental agora é o diálogo. Em segundo lugar a compreensão, e em terceiro lugar, para não enganar ninguém, a ideia de que nós vamos ter muitos sacrifícios pela frente. Sem sacrifícios nós não conseguiremos também avançar para retomar o crescimento e o desenvolvimento que pautaram a atividade do nosso país nos últimos, nos últimos tempos, antes eee... desta última gestão. Então é preciso retomar o crescimento e eu não quero que isso fique em palavras vazias, pois tenho absoluta convicção, como muitos me dizem, que a mudança pode gerar esperança. E que gerando esperança isso gerará investimentos, não só investimentos nacionais, mas investimentos estrangeiros. Porque precisamos fazer, restabelecer a crença no Estado brasileiro, nas potencialidades do Estado brasileiro.

Devo dizer aos que me ouvem que eu fiz muitas viagens internacionais no primeiro mandato. E verifiquei o quanto os outros países que tem muito dinheiro em suas mãos, querem fazer, aplicando no Brasil. Ou seja, querem acreditar no Brasil. O que aconteceu nos últimos tempos foi um descrédito no nosso país. E o descrédito é o que leva à ausência do crescimento, à ausência do desenvolvimento e faz retomar a inflação. Por um lado, portanto, nós temos a absoluta convicção de que é preciso prestigiar a iniciativa privada, é preciso que os empresários do setor industrial, do setor de serviços, do setor agrícola, do setor do agronegócio portanto, dos vários setores da nacionalidade, se entusiasmem novamente com esses investimentos. Mas ao dizer isso eu estou pensando apenas naqueles que possam investir? Não.

Diferentemente eu estou pensando em manter as conquistas sociais obtidas nos últimos tempos. Por exemplo, o emprego é uma coisa fundamental para todos os brasileiros. Para que haja emprego é preciso uma conjugação dos empregadores com os trabalhadores. Você só tem empregos se a indústria, o comércio, as atividades de serviços todas estiverem caminhando bem. É a partir daí que você tem o emprego, e com isso você pode retomar o emprego. De outro lado eu devo dizer também que de fora a parte de projeto de empregabilidade plena, é preciso manter certas matérias sociais, porque nós todos sabemos que o Brasil ainda é um país pobre, e portanto, e eu sei que dizem de vez em quando que, se outrem assumir, que nós vamos acabar com o Bolsa Familia, vamos acabar com o Pronatec, vamos acabar com o FIES, isso é falso.

É mentiroso, e é fruto dessa política mais rasteira que tomou conta do país. Portanto, nesse particular eu devo dizer que nós manteremos esses programas e até se possível revalorizá-los e ampliá-los. Até que, e isso eu quero deixar claro, o Bolsa Família, por exemplo, há de ser um estágio do Estado brasileiro. Daqui a alguns anos é possível que a empregabilidade tenha atingido um tal nível que não haja mais necessidade do Bolsa Família. Mas isso, enquanto persistir a necessidade, nós manteremos. ...Pronatec, Fies, Prouni, todos esses projetos que acabaram dando certo no país. Portanto eu lanço uma mensagem àqueles que tem o capital, e lanço àqueles que querem uma mensagem do trabalho e lanço uma mensagem para aqueles que sequer trabalho ainda conseguiram.

É claro que nós vamos incentivar enormemente as parcerias público-privadas na medida que isto pode trazer emprego ao país. Nós temos absoluta convicção de que hoje mais do que nunca o Estado não pode tudo fazer, o Estado depende da atuação dos setores produtivos do país, empregadores de um lado, trabalhadores de outro lado. Esses setores produtivos é que, aliançados, vão fazer a prosperidade do estado brasileiro. O estado brasileiro tem que cuidar da segurança, da saúde, da educação, enfim, de alguns temas fundamentais que não podem sair da órbita pública, mas o mais tem que ser entregue à iniciativa privada. Da iniciativa privada no sentido da conjugação entre trabalhadores e empregadores.

E neste particular nós pretendemos fazer várias reformas que incentivem a harmonia entre estes dois setores da produção brasileira.

Tudo isso que estou a dizer, significará, devo registrar, sacrifícios iniciais para o povo brasileiro. Em primeiro lugar. Em segundo lugar, não quero gerar nenhuma expectativa falsa. Não pensemos que se houver uma mudança no governo, em 3, 4 meses estará tudo resolvido. Em 3, 4 meses pode começar a ser encaminhado, para resolvermos a matéria ao longo do tempo. Se houver esse governo de transição, ou se não houver, fique essa sugestão que eu estou fazendo para o governo que vier a manter-se,  ficam estas sugestões, que reitero, não são sugestões por mim formuladas ou formatadas neste momento, mas que foram feitas ao longo do tempo.

Há reformas que são fundamentais para o país, nós todos sabemos, não é possível, agora, toda e qualquer reforma não alterará os direitos já formatados, já adquiridos pelos cidadãos.

Nós temos que preparar o país do futuro.

Algumas matérias até estão em tramitação no Congresso Nacional e nós queremos ter uma base parlamentar muito sólida que nos permita conversar com a classe política, mas conversar também com a sociedade. Os srs. sabem, os que assistiram as minhas palestras nos últimos tempos, que eu faço uma distinção e uma conjugação entre governo, governança e governabilidade. Para dizer que o governo são os órgãos constituídos, não há dúvida, legislativo, executivo, judiciário. A governança vem exatamente pelo apoio político que o governo consegue dos partidos políticos e do congresso nacional. Mas é preciso mais do que isso, é preciso a governabilidade, e a governabilidade exige que haja uma aprovação popular do próprio governo. Tanto a classe política unida com o povo levará ao crescimento do país e portanto ao apoio ao governo. São esses três fatores que nós vamos lidar.

É claro que não vou falar aqui de reformas que são fundamentais, porque isso será fruto de um desdobramento  ao longo do tempo. Mas como não pensar numa reforma política? Como não pensar numa reforma tributaria? Evidentemente que a reforma tributaria envolve um outro tema, que é a revisão do pacto federativo. Porque toda vez que você pensa numa reforma tributária você está pensando na distribuição de competências e de recursos para as entidades federativas. É preciso mais do que nunca que as entidades federativas tenham uma autonomia verdadeira, ou seja, que nós tenhamos uma federação real, e não uma federação artificial como tem acontecido nos últimos tempos. Sei por exemplo, no tópico da federação, da grande dificuldade dos estados e municípios nos dias atuais. E há estudos referentes à eventual anistia, ao perdão de uma parte das dívidas e até uma revisão dos juros que são pagos pelas unidades federadas. Nós vamos levar isso adiante, nós vamos estudar isso com muita detença, e vamos levar isso adiante, porque a força da União também deriva da força dos estados e da força dos municípios. E a força dessas entidades federativas depende da boa vontade e do apoio da classe politica e do povo brasileiro. Há matérias controvertidas como a matéria referente à legislação trabalhista e à legislação previdenciária, que nós vamos fazer com grande diálogo nacional onde nenhum setor será esquecido. Nem dos trabalhadores, nem dos empresários, nem do povo brasileiro. Mas toda e qualquer modificação que vier a ser feita será para garantir o futuro mesmo daqueles que já recebem salário, daqueles que recebem aposentadoria.

É nesses termos que nós vamos trabalhar, ou seja, o diálogo de um lado e a conjugação de esforços do outro lado é que serão os alicerces, digamos assim, do nosso trabalho.

Esta é a manifestação que eu queria deixar ao povo brasileiro.

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