‘Políticas de Trump podem beneficiar o Brasil’, diz Amorim

Durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal, presidida pelo senador Fernando Collor de Mello (PTC/AL), o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a figura pouco carismática ou agregadora de Trump pode impelir aos países sul-americanos a se unirem entre si; ele também disse que ‘o fim da parceria Transpacífico é positivo, pois esse tratado faria o Brasil renunciar a muitas autonomias econômicas para se adequar ao novo mercado local'

Durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal, presidida pelo senador Fernando Collor de Mello (PTC/AL), o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a figura pouco carismática ou agregadora de Trump pode impelir aos países sul-americanos a se unirem entre si; ele também disse que ‘o fim da parceria Transpacífico é positivo, pois esse tratado faria o Brasil renunciar a muitas autonomias econômicas para se adequar ao novo mercado local'
Durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal, presidida pelo senador Fernando Collor de Mello (PTC/AL), o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a figura pouco carismática ou agregadora de Trump pode impelir aos países sul-americanos a se unirem entre si; ele também disse que ‘o fim da parceria Transpacífico é positivo, pois esse tratado faria o Brasil renunciar a muitas autonomias econômicas para se adequar ao novo mercado local' (Foto: Voney Malta)

Alagoas 247 - Fenômenos como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a saída do Reino Unido da União Europeia (processo conhecido como "Brexit") sinalizam um "fim de ciclo" na geopolítica internacional e a inauguração de uma nova ordem. Essa é a conclusão dos convidados da audiência pública realizada nesta segunda-feira (19) pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal, presidida pelo senador Fernando Collor de Mello (PTC/AL). 

Durante a discussão na sessão, os convidados ressaltaram que ainda não é possível prever que tipo de configuração geopolítica emergirá desses novos fatos. Eles apontaram, no entanto, que já é possível observar que a balança de poder que vinha sendo hegemônica nas últimas décadas está em xeque.

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim afirmou que o enfraquecimento do bloco europeu, com a defecção britânica, pode ter consequências que extrapolem as relações econômicas entre os países - e que extrapolem, inclusive, o continente europeu.

"Projetos de integração são instrumentos econômicos, mas são predominantemente políticos. São projetos de afastamento da possibilidade de conflito. Vamos ter que analisar, para além das perdas comerciais, até que ponto a saída do Reino Unido representa ou não o enfraquecimento de uma estrutura de paz mundial", considerou ele.

Em relação ao governo de Donald Trump, Amorim avalia que as movimentações iniciais do novo presidente sugerem uma desestabilização da atual ordem mundial, que tem nos Estados Unidos o seu principal patrocinador, mas sem deixar para trás a política America first ("Estados Unidos em primeiro lugar").

O ex-ministro também observou que as políticas de Trump podem beneficiar o Brasil. Para ele, o fim da parceria Transpacífico é positivo, pois esse tratado faria o Brasil (mesmo não fazendo parte dele) renunciar a muitas autonomias econômicas para se adequar ao novo mercado local. Além disso, explicou Amorim, a figura pouco carismática ou agregadora de Trump pode impelir aos países sul-americanos a se unirem entre si.

Interrogações

O professor Klaus Dalgaard, que ensina Política Internacional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), analisou o Brexit como um movimento que deve ser considerado um "caso à parte", uma vez que o Reino Unido sempre teve uma postura isolacionista perante o resto da Europa. Além disso, explicou ele, as posições pró e contra o abandono da União Europeia se inverteram entre as forças políticas britânicas ao longo dos anos.

Por causa dessas particularidades, ele considera a questão do Brexit como um "cenário de interrogações". O acordo de separação, desenhando as novas relações entre o Reino Unido e a União Europeia, precisa estar concluído até o fim de março de 2019. Segundo explicou o professor, o panorama de negociação não é simples e a volatilidade política é alta - caso qualquer um dos outros 27 membros rejeite as condições estabelecidas, a saída britânica será total, o que significa um grande abalo no continente.

"A melhor solução possível para o Reino Unido é um acordo interino, pelo qual o país participaria do mercado comum sem representação nas decisões supranacionais, enquanto se ganha tempo para negociar um acordo mais detalhado que não seja tão nocivo quanto a saída total", afirmou.

Dalgaard explicou que o atual governo do Partido Conservador está em posição de fragilidade após perder, nas eleições do último dia 8, a maioria absoluta que detinha no parlamento. A primeira-ministra Theresa May precisou montar um governo de coalizão e, assim, perdeu a liberdade de conduzir a negociação do Brexit nos seus próprios termos.

Novos polos

O professor Guilherme Sandoval Góes, coordenador da pós-graduação em Direito Público da Universidade Estácio de Sá, disse que o quadro geopolítico global firmado após o fim da Guerra Fria está em "desconstrução", e o principal resultado disso pode ser a dissolução dos polos de poder que se observavam nas últimas três décadas.

Esses polos eram três: o americano, encabeçado pelos Estados Unidos; o europeu, consolidado na União Europeia, e o asiático, que tinha o Japão como principal potência. Além da mudança da orientação dos Estados Unidos com Trump, sinalizando maior isolamento econômico, e do Brexit, que desestabiliza a Europa, a ascensão da China como potência global pode reposicionar os polos de poder.

O ex-ministro Celso Amorim disse que, no cenário antigo, os Estados Unidos figuravam como potência hegemônica mundial mas exerciam a sua influência de forma multilateral, integrando outros países em suas decisões - assim, mantinha-se certo equilíbrio. Isso pode vir a mudar, segundo ele, com as atitudes mais autonomistas de Donald Trump.

Essa postura, chamada de multilateralismo afirmativo, era, na concepção de Amorim, um dos pilares do sistema pós-Guerra Fria, junto com o capitalismo liberal e a democracia ocidental. Esse sistema, segundo ele, é o que está posto em dúvida diante dos novos fenômenos políticos e econômicos internacionais.

Com gazetaweb.com e Agência Senado

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