Ser pai, ser mãe. Um ofício que se aprende

Os cursos que ensinam a arte de ser pai e de ser mãe se multiplicam na França e em vários outros países da Europa. O objetivo é ajudar os pais que se encontram em dificuldade para educar e se relacionar com seus filhos – um problema cada vez mais sério e generalizado no Velho Continente.

Ser pai, ser mãe. Um ofício que se aprende
Ser pai, ser mãe. Um ofício que se aprende

 

 

Por: Romain David – Le Figaro Santé

 

Ao mesmo tempo em que, na França, a ex-ministra da Família, Dominique Bertinotti, faz campanha para proibir as palmadas como “instrumento de educação”, os cursos que ensinam as pessoas a como ser pai e mãe se multiplicaram na Franca – e em vários outros lugares da Europa – nos últimos dez anos. A tendência acompanha um movimento que começou no Reino Unido nos anos 1980. O público lota as salas de aula. Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos, realizada em 2011, 75% dos franceses estimam que educar uma criança é uma empreitada  difícil e 67% dos pais interrogados afirmam não ter mais autoridades sobre os filhos.

Quanto aos recursos de apoio à parentalidade, a “Disciplina Positiva” é a última palavra em termos de abordagem. Criada na América, ela preconiza “educar com firmeza e solicitude”. Elaborada por duas norte-americanas especializadas no desenvolvimento da criança, esse método refuta as iniciativas “permissivas” e “punitivas”. Partindo do princípio que uma criança que se comporta mal é uma criança desencorajada, ela coloca a motivação no centro das suas preocupações.

Na França, uma associação de Disciplina Positiva foi criada em 2012 por iniciativa de Béatrice Sabaté, uma psicóloga clínica que trabalhou nos Estados Unidos e lá recebeu a sua formação. Ela tem animado seminários sobre a matéria em mais de vinte instituições da França, e também na Suíça, Marrocos, Bélgica, Canadá e Estados Unidos. Trata-se de uma série de atividades de grupo, “lúdicas e interativas”, durante as quais os pais tomam conhecimento e experimentam ferramentas pedagógicas para gerir situações de crise, ou simplesmente do dia-a-dia familiar. “Convidamos os pais a mudar sua visão a respeito da autoridade, a cooperar com seus filhos através de uma relação horizontal muito mais que através de uma relação vertical regida pelas regras da cultura vigente”, explica Béatrice Sabaté.

Palmadas e cintadas

“Nossos pais não refletiam sobre o seu modo de agir. Eu fui educada com palmadas e cintadas. Isso arruína uma criança. Eu procurei arruinar o menos possível os  meus filhos. Não gritar, não dar tapas”, nos dizia Alice, de 42 anos, aluna de um desses seminários.

Para Béatrice Copper-Royer, psicóloga especializada em crianças e adolescentes, autora de várias obras sobre o assunto, as dificuldades encontradas por um pai ou uma mãe na sua relação com os filhos são muitas vezes reveladoras dos problemas que  eles enfrentaram na sua própria infância, e disso surge a importância de “re-situar uma história familiar”. As sessões de grupo corriam o risco de “amordaçar” os percursos individuais, para cair na “receita já pronta”. Béatrice Sabaté proibiu essa possibilidade, insistindo sobre o fato de que a Disciplina Positiva convida cada pai e mãe a desenvolver o seu próprio esquema educativo: “Não somos especialistas fornecedores de regras para tudo e todos. Somos antes de tudo co-construtores e sempre em busca de pontos de referência educativos”.

Parentalidade, desafio político ou novo mercado?

Certos países ocidentais, como os Estados Unidos ou a Dinamarca, fizeram da questão da parentalidade um desafio da saúde pública, estimando que as dificuldades atuais dos pais e mães na criação de seus filhos podem ser a origem de vários problemas sociais, tais como o fracasso escolar, os comportamentos de risco e a criminalidade.

A França ainda não chegou a esse ponto. Em setembro de 2012 a então ministra Dominique Bertinotti recebeu das mãos do diretor geral do Centro de Análises Estratégicas um relatório intitulado “Ajudar os pais a serem pais”. O desafio: promover o bem-estar dos pais e o bom-futuro dos filhos. “É legítimo que todos os pais possam encontrar um apoio no caso de dificuldades sérias”, declarou a então ministra. Mas as aplicações concretas desse projeto ainda não surgiram.

No meio tempo, os cursos de parentalidade se multiplicaram em Paris e nas províncias.

 

 

A ERA DOS PAIS EXPERTOS

 

Por: Pascale Senk – Le Figaro Santé

 

Ao mesmo tempo em que se desenvolvem novas metodologias educacionais como é o caso da Disciplina Positiva, estudos em neurociências e em psicologia experimental inspiram aqueles que ambicionam fazer o melhor possível para seus filhos.

 

Qual pai, qual mãe não sonhou com a possibilidade de tudo compreender e de sempre saber como agir em relação ao ser estranho que eles mesmos geraram? Tudo isso, claro, dentro de um objetivo evidentemente benéfico, de modo a ajudá-lo a se construir no seio de um mundo cada vez mais difícil. Agora, esse sonho parental parece estar ao alcance da mão, pois toda uma “ciência da educação” se difunde em meio ao grande público: coleções de livros especializados no “parenting”, seminários e cursos de formação de Disciplina Positiva ou de “maternidade maximal”.

Claro, os “conselhos dos psicólogos aos pais” existem há mais de 50 anos. Mas agora, esses profissionais se apoiam em descobertas científicas (notadamente no setor das neurociências). Assim sendo, nos atuais seminários aprendemos coisas como o papel predominante do cérebro pré-frontal. Não é necessário, para incitar seu filho a obedecer, fazer uso de longas frases que estimularão as zonas cerebrais de interpretação da linguagem. Uma única palavra é suficiente para se atingir o patamar da decisão, o seu cérebro pré-frontal. Diga apenas “ducha”, e o adolescente irá se lavar, ou “sapatos” e ele saberá que é preciso guardá-los no armário adequado.

Armados e treinados a partir desses conhecimentos legitimados pela ciência, os pais até agora desorientados podem adquirir uma certa maestria e, dessa forma, responder mais facilmente às questões que os atormentam: é preciso comprar um Ipad para uma criança com menos de 5 anos? Qual é a hora mais conveniente de um adolescente ir para a cama?, etc.

Produtivistas

Para Guillemette Faure, jornalista que acaba de publicar uma pesquisa sobre eventuais soluções educativas (Le Meilleur pour mon enfant. La méthode des parents qui ne lisent pas les livres d'éducation, éd. Les Arènes), esse entusiasmo pelos estudos científicos entra em ressonância com os intercâmbios e trocas de informações entre pais por intermédio dos fóruns na Internet.

“As escolhas educativas que os pais devem fazer hoje em dia exigem muito mais empenho do que antes: proibir a televisão, nos anos 1960, representava apenas decidir como ocupar uma ou duas horas por semana na vida dos seus filhos. Hoje, a Internet ocupa uma boa parte da jornada diária deles”.

Ansiedade

“As receitas e conselhos só servem para canalizar a ansiedade parental”, estima Gisèle Harrus-Révidi. “Não importa qual seja a época, e sob diversas formas, pais e mães se sentem responsáveis pelo fracasso ou o sucesso de seus filhos. A culpabilidade que disso decorre e os seus diversos temores levam os adultos a prestar duas vezes mais atenção... Mas, acompanhar em excesso a criança, significa de certa forma dizer a ele, insidiosamente, que o fracasso é possível. E isso se torna via de regra uma maneira de torná-lo muito ansioso”, diz essa terapeuta.

Um outro dado inconsciente difícil de ser controlado: o fato de que os pais, tendo inconscientemente medo de serem “superados” pelo seu próprio filho, têm tendência a mantê-lo confinado no contexto do familiar e do já conhecido. “Queremos que ele tenha êxito, é claro, mas sem que se afaste em demasia das suas origens, daquilo que sua família conhece, daquilo que a família viveu”, explica Harrus-Révidi. Assim sendo, de uma maneira ou de outra, os pais não podem – e igualmente não querem – que seu filho veja o mundo a partir de um outro prisma que não seja o deles...

Guillemette Faure também confirma como a maneira pela qual eles mesmos foram educados condiciona os pais, mesmo quando eles se esforçam para se livrar desses padrões através da aquisição de novos conhecimentos.

 

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