Web.br 2017 reflete sobre desigualdades nas tecnologias

Evento reuniu mais de 300 participantes durante dois dias de atividades

Web.br 2017 reflete sobre desigualdades nas tecnologias
Web.br 2017 reflete sobre desigualdades nas tecnologias (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)

Inclusão de acesso, equidade de gênero na tecnologia e desigualdades no universo de machine learning. Os temas foram discutidos por keynotes speakers nesta quarta-feira (25), segundo e último dia da Conferência Web.br 2017. Durante dois dias, o evento reuniu mais de 300 participantes entre estudiosos, profissionais brasileiros e de outros países em debates aprofundados a partir do tema "Imersão e Transcendência". A 9ª edição da Web.br acontece com a realização do Centro de Estudos sobre Tecnologias Web (Ceweb.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e apoio do Escritório Brasileiro do World Wide Web Consortium (W3C Brasil).

"Nenhum dado é completamente imparcial", sentenciou Onome Ofoman, engenheira de software do Google. Na Web.br 2017, a especialista analisou o preconceito presente em ferramentas de machine learning, técnica de inteligência artificial usada em análise de dados. Onome citou um exemplo hipotético do uso de aplicação de machine learning num processo de admissão na universidade para um curso de ciência da computação. "Com o modelo baseado em dados históricos, teremos mais informações sobre homens admitidos do que mulheres. Esse é um problema real. O dado histórico nesse caso não está refletindo o que queremos que aconteça no futuro", afirmou. Ideias morais não estão refletidas em inteligência artificial, assim como a falta de dados que representam cenários diversos e de equipes formadas por profissionais com experiências diversas são questões listadas por Onome para explicar as desigualdades em aplicações de machine learning.

A maioria das soluções tecnológicas que estão revolucionando a vida das pessoas é desenvolvida por homens. Mas por que isso acontece? "Questões culturais, falta de apoio da família, a pressão dos pais para escolher uma área mais tradicional são alguns motivos apresentados pelas meninas para não escolher a área de tecnologia", explica Tanara Lauschner, professora e diretora do Instituto de Computação da UFAM e conselheira do CGI.br. Na palestra "Contribuindo para o equilíbrio de gênero na tecnologia", Tanara detalhou os programas Cunhantã Digital e Meninas Digitais, ambos com foco em aumentar o número de mulheres na área de tecnologia. "As meninas muitas vezes não se acham suficientemente capazes. Por meio de palestras, oficinas e cursos de programação com alunas do ensino fundamental e médio, procuramos incentivar e despertar o interesse delas pelo assunto", afirmou.

Usuários que não enxergam, escutam ou têm mobilidade reduzida, entre outros tipos de deficiência, devem ter uma experiência completa de acesso à Web e novas tecnologias como vídeos 360º e aplicações em realidade virtual. Na palestra "Imersão, Interação e Inclusão", Reinaldo Ferraz, especialista em Desenvolvimento Web do Ceweb.br e W3C Brasil, enfatizou que novas interfaces também precisam ser acessíveis. "Temos que garantir o acesso de todas as pessoas, não só porque é um direito delas, mas também porque em algum momento da vida qualquer pessoa pode precisar de recursos de acessibilidade, seja por baixa acuidade visual ou destreza manual", reforçou.

De acordo com o Censo de 2010, mais de 45 milhões de brasileiros declararam ter algum tipo de deficiência. "Temos que nos colocar no lugar das outras pessoas e identificar necessidades. Nos preocupar, por exemplo, em fornecer alternativas, apresentar o conteúdo em diferentes maneiras, facilitar a audição e visualização, disponibilizar funcionalidades por teclado, não criar conteúdos que cause convulsões", listou Reinaldo, que também convidou os participantes do evento para conhecer e se engajar no Movimento Web para Todos, do qual o Ceweb.br é parceiro.

"A Web.br se preocupa com a diversidade, buscamos promover o equilíbrio de gênero entre palestrantes e, na programação, ressaltar a importância do acesso, uso e desenvolvimento de tecnologias de forma aberta, além de fazer um alerta para o tipo de profissional que o mercado está exigindo", considera Vagner Diniz, gerente do Ceweb.br e do W3C Brasil.

Blockchain e games
Workshops, apresentações e mesas redondas sobre temas diversos também marcaram o segundo dia da Conferência Web.br 2017. Em workshop com a equipe da IBM Brasil, os participantes da Conferência foram além da teoria e tiveram a oportunidade de aprender na prática os conceitos básicos de blockchain, além de desenvolver uma aplicação utilizando a tecnologia. As experiências de imersão por meio dos games também foram destaque a partir do workshop do pesquisador Luiz Carneiro, do CSGAMES - Computação, Semiótica e Games, grupo de pesquisa da PUC-SP. "Os games são as arenas de interação mais eficientes que existem", enfatizou. Carneiro também explicou os conceitos e forneceu dicas para a produção de experiências imersivas utilizando gamificação.

Publicações digitais
O panorama das publicações digitais no Brasil entrou em pauta a partir da apresentação de Clécio Bachini e Gabriela Dias, ambos da AED (Amigos dos Editores Digitais). Formato de publicação mais avançado, o EPUB3 possui recursos como conteúdo multimídia, formato aberto, acessibilidade, linearidade e flexibilidade, possibilidade de visualização on-line e off-line, entre outros. "As tecnologias do livro digital estão maduras. O EPUB, principalmente com o respaldo do W3C, é um modelo absolutamente maduro, suporta a construção de um livro com todas as características de aplicativo. É um excelente modelo para a migração dos paradigmas do impresso para o digital", avaliou Clécio Bachini. A popularização das publicações digitais também foi comentada no evento. "A indústria editorial não está negando o potencial dos livros digitais, só está tentando fazer com que o modelo de negócio envolvendo os impressos dure o maior tempo possível", complementou Gabriela Dias.

Segurança e privacidade
"Segurança tem que ser nativa, não é opcional", alertou Lucimara Desiderá, do CERT.br, durante a palestra "Segurança em IoT: o pecado está no básico". Desiderá listou as principais vulnerabilidades – entre elas, projetos que não levam a segurança em conta –, os riscos para usuários e empresas, além das motivações dos criminosos, que envolve desde ganho financeiro a vandalismo. Casos de dispositivos IoT comprometidos como babás eletrônicas, brinquedos, carros e até marcapassos foram listados pela especialista, que também apresentou recomendações para os usuários. "Melhorar o cenário depende de diversos atores, desde desenvolvedores, administradores, fabricantes, acadêmicos até os usuários. Devemos ser criteriosos ao escolher os fabricantes de produtos, verificar o histórico de tratamento de vulnerabilidades pelas empresas, assim como assumir que os dispositivos virão com problema e, portanto, mantê-los atualizados e alterar as senhas padrão", recomendou.

Em discussão complementar, Bruno Bioni, advogado do NIC.br, e Jamila Venturini, assessora técnica das atividades do CGI.br, analisaram os desafios e oportunidades de tecnologias como realidade virtual e realidade aumentada no contexto da proteção aos dados pessoais. Jamila lembrou que os metadados são processáveis, combináveis e fáceis de manipular - o uso de novas tecnologias pode permitir, portanto, a coleta de dados sobre o movimento dos olhos, a temperatura do corpo e os batimentos cardíacos dos indivíduos, entre outros exemplos.

"As implicações dessa coleta massiva vão além da privacidade e envolvem a liberdade e autonomia dos usuários, a concentração de informações em poucas empresas, a vigilância do Estado, o marketing e publicidade direcionada, e pode ainda impactar em questões como o acesso ao crédito, por exemplo. Temos ainda implicações sociais que não conseguimos prever", considera. Em concordância, Bioni aponta que as tecnologias de realidade virtual e realidade aumentada reconfiguram espaços de interação social e nos deixam suscetíveis a maior manipulação. "Por outro lado, também podemos aplicar essas tecnologias para visibilizar a coleta (ainda opaca) das nossas informações, utilizando-as como ferramental em processos de conscientização sobre a importância da proteção dos nossos dados pessoais", sugere Bioni.

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