130 anos sem Van Gogh: celebremos seu verdadeiro gênio

'Raízes de árvore’ - a última obra do holandês e recentemente analisada pelo Museu Van Gogh em Amsterdam - ilustra seu espírito brilhante

'Raízes de Árvore',  última obre de Van Gogh
'Raízes de Árvore', última obre de Van Gogh (Foto: Reprodução / Museu Van Gogh, Amsterdã)
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Leonardo Sobreira, 247 - Neste 29 de julho, se completam 130 anos da morte de Vincent Van Gogh, tido por muitos como o maior pintor da história. Ao longo de sua curta carreira, tragicamente terminada aos 37 anos de idade, o holandês produziu mais de 2.000 peças, que inspiraram diversos movimentos artísticos subsequentes, como o fauvismo francês e o expressionismo alemão. A intensidade das cores, a simplificação das formas e os ângulos inusitados das obras de Van Gogh manifestam um elemento de sua personalidade que beira a insanidade, mas que ao mesmo tempo nos reconforta - talvez por expressarem a emoção como ela é: fluída, crua e caótica. 

Personagem perturbado, sua insanidade - refletida na auto-amputação de sua orelha esquerda, alucinações auditivas e alcoolismo - é essencial para a compreensão de sua obra. Para ele, a pintura servia como válvula de escapa. Durante seu período de internamento por instabilidade mental em Saint-Rémy-de-Provence, comuna na França, em torno de 150 pinturas foram produzidas, incluindo a majestosa ‘Amendoeira em Flor.’
Como recentemente reportado pelo veículo francês Le Monde, talvez a última instância deste espírito de Van Gogh esteja ilustrado em sua última obra: ‘Raízes de Árvore.’ 

Durante a quarentena, o pesquisador e autor de diversos livros sobre o mestre holandês Wouter Van der Veen se dedicou a classificar cartões postais datados do início do século XX. Um destes chamou sua atenção. Nele consta uma paisagem de tom um tanto quanto sombrio, onde raízes de árvores protuberam de um solo batido. Para Van der Veen, a topografia do local subitamente evocou ‘Raízes de Árvore.’ Mesmos troncos, mesma folhagem, mesmo morro… 

Van der Veen enviou sua tese aos especialistas do Museu Van Gogh, em Amsterdam. Os curadores do museu submeteram a tese a um rigoroso teste de validação, “calculando as distâncias, os ângulos e proporções.” O chefe da pesquisa, Teio Meeddendorp, fascinado pela hipótese, declara: “Tudo ainda está lá, temos a raíz horizontal, a árvore em frente. Eu me convenci. É difícil contestá-la.”

A paisagem se encontra próxima ao albergue onde Van Gogh se alojava na época. De forma anedótica, uma senhora de 104 anos de idade confirmou a Van der Veen que, ao arrebanhar suas ovelhas em sua juventude, Van Gogh perambulava pela região. 

Juntando as peças do quebra-cabeça, Van der Veen concluiu: “[isso] significou que eu soube de repente onde ele passou o dia 27 de julho, e que um mistério persistente sobre o fim de sua vida foi descoberto.”

No mesmo dia, Van Gogh retorna à sua habitação, escondendo o baleamento de seu estômago. Até hoje, as exatas circunstâncias da ocorrência são debatidas. Uns especulam suicídio, enquanto outros acreditam em morte acidental. De um lado, a piora do quadro mental de Van Gogh corrobora a tese de suicídio. Porém, do outro, como notado pelos biógrafos Steven Naifeh e Gregory White Smith, dois garotos acidentalmente dispararam uma arma defeituosa, cujas balas desastrosamente atingiram Van Gogh. O que de fato aconteceu, provavelmente nunca saberemos. Dois dias depois da ocorrência, Van Gogh sucumbe aos ferimentos.

No entanto, neste aniversário, ao invés de nos atolarmos neste debate exaustante, por que não discutir o significado de sua última obra? Afinal de contas, como revelado em suas cartas ao irmão Theo, Van Gogh pressentia que sua vida seria breve, um sopro de herança perene. Para Meedendorp, as cartas expressam um sentimento de certa forma paradoxal: “o fato de se enraizar apaixonadamente e convulsivamente de qualquer forma sobre a terra ao mesmo tempo que sua outra metade foi arrancada pelas tempestades.”

Talvez seja este o sentimento expressado em ‘Raízes de Árvore.’ Ao mesmo tempo que desalinhadas e anárquicas, a luminosidade e cintilação das Raízes de Van Gogh salientam também um espírito liberto, desamarrado de qualquer convenção artística e social. 

Para Deleuze e Guattari, filósofos do pós-modernismo francês, o esquizóide, como um indivíduo “desterritorializado”, se encontra, naturalmente, afastado das categorizações sociais hierárquicas que “empacotam” e codificam o comportamento humano. Desta forma, ele se torna livre, no sentido mais puro da palavra, atingindo um espaço metafísico onde significados e identidades que são habitualmente adotadas pela maioria social, neste caso, perdem sua suposta naturalidade. 

Van Gogh certamente habitava este plano metafísico. Sua quebra de convenções artísticas e até mesmo sua pobreza podem ser interpretadas como atos de rebelião. 

Rebelião esta que, novamente, se reflete em ‘Raízes de Árvore.’ No aniversário de 130 anos de sua morte, que apreciemos Van Gogh pelos sentimentos expresso nesta obra: insubmissão, fulgor de espírito e, finalmente, vínculo com locais bem-queridos.

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