A banda nômade que vem revolucionando a música popular

O Tinariwen traz na sua música uma mensagem revolucionária não somente para a população tuaregue, mas que também tem muito a nos ensinar

Tuareg
Tuareg (Foto: Luis Pellegrini)
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Leonardo Sobreira, 247 - Através de um som leve que remete à música popular árabe, o Tinariwen vem há anos ganhando espaço no mercado de consumo musical ocidental. Já são incontáveis os shows na Europa e nos Estados Unidos e os reviews positivos de seus álbuns pela mídia internacional.

Isso é notável dado o abismo que existe entre a banda e o que é comumente consumido no Ocidente. Aqui, e, para falar a verdade, lá também, as tendências originárias dos Estados Unidos convergem para a formação de um supergênero global, seja esse o rap ou o pop. 

Mesmo sendo essa uma convergência criativa e próspera, são raros os casos de tendências que preservaram suas mensagens originais. Apesar da inegável influência ocidental no som do Tinariwen (o que é mais perceptível no uso da guitarra distorcida e nas influências do blues e do soul americano), tanto seus característicos cantos emotivos como a mensagem transmitida através deles foram preservados. 

Para entendermos esta mensagem, é necessário que analisemos a história da formação do grupo. 

Originário do norte do Mali, o Tinariwen flutuou entre campos de refugiados na Argélia e na Líbia e os desertos do norte do Mali entre as décadas de 80 e 90. Apesar de inerentemente um povo semi-nômade, a internacionalidade do Tinariwen foi fortemente impactada pela situação política na região.

A primeira rebelião Tuareg no Mali independente ocorreu em 1963, mas foi frustrada rapidamente pelo poderio militar da nova nação. Neste episódio, o pai de um dos líderes da banda, Ibrahim Ag Alhabib, foi brutalmente executado pelo exército por seu envolvimento nas táticas de guerrilha. A canção “Soixante Trois” descreve o episódio em um tom tanto de revanche como apreensivo: 

63 passou, mas retornará 

Estes dias deixaram suas marcas 

Eles assassinaram os velhos e uma criança recém-nascida 

Eles atacaram os pastos e varreram o gado 63 passou, mas retornará

Microconflitos como este destruíram o país economicamente nas décadas seguintes. Duas secas amplificaram o problema, e milhões chegaram a passar fome. Na região do Sahel como um todo, em torno de 100.000 pessoas morreram de fome, numa crise que durou até 1985. 

Relativamente mais estável, a Líbia era a potência da região. Milhares de tuaregues foram para o país a partir do final da década de 80, tendo sido oferecida a possibilidade de integrar o exército de Khadafi. A maioria foi hospedada em campos de treinamento, e foi em um deles que os membros originais do Tinariwen se conheceram. 

Novas rebeliões ocorreram no início da década de 90, e desta vez os próprios membros da banda compuseram as forças guerrilheiras. Abastados de um vasto conhecimento territorial e contando com um apoio maior, os governos do Mali e do Níger se viram forçados a assinar um tratado de paz em 1995, em Ouagadougou, Burkina Faso. A promessa era de integração política e econômica dos tuaregues, o que nunca foi atingido integralmente.

Muitos especialistas descrevem a banda após o conflito como tendo optado pelas guitarras e microfones ao invés das armas. No entanto, como descrito pelo jornalista Rollo Romig, no New Yorker: “na verdade, eles portavam ambos. Quando não estavam lutando, estavam fazendo música revolucionária.”

Em “Tamatant Tillay”, Alhassane Ag Touhami diz: 

Deixe o sangue ferver se ele realmente está nas suas veias 

No começo do dia, pegue seus braços e conquiste o topo das colinas 

Vamos matar nossos inimigos e nos tornaremos águias 

Vamos liberar todos que vivem nas planícies

Uma série de canções do álbum Tassili desenvolve melhor a mensagem da banda. Em canções como Asuf D Alwa, Walla Illa e Imidiwan Win Sahara, a repetitividade entre os refrões é ofuscada pelo sentimento gerado. Os murmúrios fundos unidos ao canto rouco e as guitarras dedilhadas criam no ouvinte uma imagem da leveza inerente ao deserto e ao modo de vida de seus povos. 

A letra das músicas não podia ser diferente. Em Asuf D Alwa, é dito: 

Saudade, solidão e desespero 

Eu sou um prisioneiro do tempo 

Em tempos de dificuldade, compartilhamos nosso sofrimento 

Ao dividirmos um copo de chá 

O amor escondido que tenho por essa face radiante 

Acalma minha melancolia e minha solidão 

Eu visito meus amigos 

A fumaça fala comigo e meus pensamentos me contam histórias

O tema do retorno a uma terra natal, que reflete essa imagem de leveza e sutileza, também é frequente nas letras do grupo. Considerada como um todo, a expressão artística do Tinariwen se mostra extremamente precisa. Esta é lutar quando for necessário, mas sem jamais se esquecer das suas origens, de forma que essas constituem o próprio princípio pelo qual se guerreia. Em outras palavras, a luta do Tinariwen expressada na sua música é por reconhecimento de modos de vida alternativos. 

O espírito verdadeiramente revolucionário do Tinariwen é o que o torna um fenômeno musical único no mundo. Sua mensagem traz ensinamentos importantes sobre o mundo atual, dentre os quais estão o apreço por um modo de vida mais simples e a necessidade de ligar discurso com ação.

Aqui vai uma playlist com canções do Tinariwen, mas que também inclui outros artistas do oeste africano, como Bombino, Habib Koité, Ali Farka Touré e Orchestra Baobab. 

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