Amazônia: promessa de uma civilização perdida?

A pesquisa arqueológica na Amazônia vem se mostrando cada vez mais disposta a rever seus princípios, o que abre espaço, segundo muitos, para a discussão sobre a possível existência de uma civilização de grande escala na região

(Foto: Divulgação)
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Leonardo Sobreira, 247 - Na antropologia, quando hipóteses que quebram premissas estabelecidas são introduzidas, a reação é frequentemente circunspecta, se não de completa rejeição. As fantasiosas teorias antigas, elaboradas dispondo apenas de tecnologias simples, são frequentemente abandonadas a favor de teorias mais conservadoras. 

No entanto, de tempos em tempos, as barreiras entre ciência e ficção são quebradas, o que não somente nos permite rever conceitos prévios, mas abre novas possibilidades de conhecimento. Por exemplo, quando, em 1947, seis exploradores nórdicos anunciaram a possibilidade - baseada em observações que constataram a similaridade entre idiomas nativos e produção cultural - de que a população da Polinésia descendia da América pré-Colombiana, a noção foi por muito tempo deixada de lado. Nos anos 90, a análise de DNA sugeriu que os Polinésios descendem na verdade do sudeste asiático. Em 2009, o antropologista Wade Davis reforçou: Thor Heyerdahl (o líder da expedição nórdica) “ignorou o esmagador corpo de evidências linguísticas, etnográficas e etnobotânicas, desenvolvidas hoje através de dados genéticos e arqueológicos, indicando que este estava evidentemente errado.”

No entanto, um estudo publicado no mês passado no jornal acadêmico britânico Nature Research põe em dúvida a teoria estabelecida. Os pesquisadores da Universidade de Stanford, na Califórnia, constataram mais uma vez a similaridade genética entre as populações das duas regiões, mas também apontam para seu possível encontro há cerca de 800 anos no leste da Polinésia. Assim, como apontam os pesquisadores, a ideia defendida por Heyerdahl de que o contato foi de fato da América para a Polinésia, e não o contrário, não deveria ter sido descartada tão facilmente. 

Por trás desta possibilidade existe um vasto corpo literário que explora teorias que vão mais além. Desde Graham Hancock, que através da combinação de relatos históricos com dados arqueológicos em seu livro ‘America Before’, aponta para a existência de uma civilização amazônica “estimada entre 8 e 20 milhões [que] prosperou por incontáveis épocas na Amazônia antes de serem tomadas pelo cataclismo da conquista européia.” Até mesmo pesquisas mais conservadoras, que indicam um número menor, mas não negam a possibilidade de que “grandes populações” habitavam a região.

De qualquer forma, o que é aceito pela maior parte dos pesquisadores é que não é possível que uma sociedade capaz de, como apontado por Hancock, manipular um ambiente tão exigente como o da Amazônia não possua os mínimos “pré-requisitos” exibidos pelas grandes civilizações do passado. 

Por exemplo, no começo do final do século XX pesquisadores brasileiros e finlandeses apontaram para existência de práticas de geometria avançada na Amazônia. Eles descobriram trabalhos com até 200 metros de diâmetro, e formas como quadrados dentro de círculos e desenhos que combinam quadrados com meio círculos, o que evidencia a presença de sistemas Euclidianos na região.

Outro exemplo é a noção de que a Amazônia é uma grande “plantação artificial.” Como apontado por Charles R. Clement, do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), ao menos 83 espécies de plantas foram domesticadas em certo grau na região. Com base nessa pesquisa, Hancock diz: “a floresta foi transformada pelo que só pode ser descrito como um de práticas científicas sob um vasto jardim de árvores úteis e produtivas. Mas somente a cultura de árvores não consegue alimentar grandes populações, então o programa de domesticação pré-histórica foi estendido em grande escala para incluir espécies agrícolas que foram incorporadas com sucesso, através do uso da terra preta, na ecologia da Amazônia.”

Tudo isso leva muitos a levantarem a possibilidade de que uma civilização amazônica de grandes proporções viveu na região antes da colonização europeia. Com o ramo da antropologia cada vez mais disposto a reabrir os mistérios do passado, quem negaria sequer a possibilidade da existência de uma civilização de grande escala na região?

Quaisquer sejam as novas descobertas, a pesquisa arqueológica na Amazônia em si tende a valorizar o reconhecimento dos povos indígenas no cenário nacional. Nos tempos de hoje, onde ataques a este grupo ganharam força através de discursos e atitudes de Bolsonaro, é imprescindível que a pesquisa também tenha consciência desse seu papel. 

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