Aniversário de 75 anos da ONU é marcado por demandas de expansão do Conselho de Segurança

O tom das comemorações não foi tão festivo, com líderes enfatizando a gravidade dos problemas que a humanidade terá de enfrentar e a lentidão de reformas necessárias na Organização

Plenário da Assembleia-Geral da ONU durante discurso gravado do presidente dos EUA, Donald Trump 22/09/2020
Plenário da Assembleia-Geral da ONU durante discurso gravado do presidente dos EUA, Donald Trump 22/09/2020 (Foto: Nações Unidas/Divulgação via REUTERS)
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Leonardo Sobreira, 247 - Neste aniversário de 75 anos da fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), muitos vêm avaliando seu papel ao longo dos anos e os desafios que terá de enfrentar no futuro. 

Durante sua história, a organização sempre prezou por servir como o principal veículo para a diplomacia em nível mundial, mas seus membros raramente se mostraram comprometidos com isso. Seja por parte das grandes potências mundiais, como os Estados Unidos, ou dos membros com menor expressão, que não têm poder de decisão. 

Um dos grandes problemas que leva à inefetividade da ONU é a falta de representação da maior parte da população mundial na instituição mais importante da organização, o Conselho de Segurança. Sem a capacidade de vetar decisões que vão contra os aliados do mundo em desenvolvimento, estes se encontram à mercê dos interesses das grandes potências mundiais. 

Recentemente, o presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan declarou: “a estrutura do Conselho de Segurança que deixa o destino de mais de 7 bilhões de pessoas nas mãos de cinco países não é nem justa nem sustentável.” Na Assembleia Geral na última terça-feira (22), o presidente da África do Sul Cyril Ramaphosa notou: “Enquanto a ONU celebra seu aniversário de 75 anos, nós reiteramos a demanda por uma representação dos países africanos no Conselho de Segurança e para que isso seja considerado urgentemente nas relações intergovernamentais.”

O Brasil, cuja política na ONU na última década sempre defendeu a expansão do Conselho de Segurança, não pode contar mais com isso. A política multilateral que o país favorecia agora se tornou secundária diante da atitude negacionista de Bolsonaro, como deixado claro em seu discurso na Assembleia Geral. 

Nem a própria publicação oficial da ocasião possui um tom tão comemorativo: “A ONU marca seu 75º aniversário em um tempo de grande ruptura no mundo, agravado por uma crise sanitária global sem precedentes com severo impacto econômico e social. Vamos emergir mais fortes e melhor equipados para trabalharmos juntos? Ou vão a desconfiança e o isolamento crescer mais? 2020 deve ser um ano de diálogo, que nos unamos para discutir nossas prioridades como uma família humana, e como podemos construir um futuro melhor para todos.”

Na publicação, o secretário-geral da ONU António Guterres declarou: “Neste aniversário de 75 anos, enfrentamos o nosso próprio momento 1945. Devemos receber o momento. Devemos demonstrar união como nunca antes para superar a atual emergência, fazer o mundo andar e funcionar e prosperar novamente, assim apoiando os objetivos da Carta.”

No entanto, as declarações da Organização falham em não mencionar a incapacidade que ela teve de se reformar durante os anos, o que constitui a principal trava no seu desenvolvimento. 

Essa lentidão na reforma das instituições faz com que a Organização se encontre incapaz de agir diantes dos principais desafios de hoje: o combate à pandemia e ao aquecimento global. 

Ao invés de apoiar um espírito de união no combate à pandemia, nações se fecharam, buscando soluções internas para um problema que é verdadeiramente global e requer cooperação em diversos níveis governamentais e sociais. Até agora, a ação da ONU não vai além de pedidos de mais financiamento, cooperação com algumas agências governamentais nos países mais pobres e declarações pedindo união 

No que diz respeito à crise ambiental, a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e o aumento do desmatamento no Brasil e no sudeste asiático poderiam ser evitados caso houvesse mais pressão política vinda do Conselho de Segurança. 

Infelizmente, as reformas necessárias são improváveis. Não devemos nos esquecer que a principal função do Conselho de Segurança, na sua criação, foi justamente a de apaziguar as grandes potências da época em fazer parte da Organização. No entanto, diante dos desafios enfrentados pela humanidade no século 21, o Conselho de Segurança precisa ser mais, ou seja, precisa ser o veículo da verdadeira expressão dos anseios das populações dos países em desenvolvimento neste século.

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