Aos 60 anos, OPEP abandona resistência e cede a interesses dos EUA

Neste aniversário da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, as celebrações são manchadas pelo histórico recente de aproximação com os Estados Unidos

Opep
Opep (Foto: Sputinik)
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Leonardo Sobreira, 247 - Há 60 anos, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP, era fundada. Oficiais da Venezuela, Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Irã adotaram unanimemente o estatuto da organização em Bagdá, que prevê o controle da oferta global de petróleo pelo mundo de maneira que este beneficie a economia dos países membros. Atualmente, a organização conta com 13 membros e um grupo de 10 países aliados.

Ao longo de sua conturbada história, diversas decisões da organização serviram de contraponto à hegemonia ocidental neste mercado. Talvez as mais marcantes tenham sido os eventos que levaram às crises mundiais do petróleo, na década de 1970. 

Como retribuição ao apoio ocidental a Israel na Guerra do Yom Kippur, “as torneiras fecharam” em 1973 e um verdadeiro embargo foi imposto contra estas nações. Em março de 1974, o preço do petróleo já tinha subido 300%.

Em 1979, a Revolução Iraniana gerou instabilidade na produção, e o medo de que o restante da região seguisse o mesmo caminho levou compradores a investirem ainda mais. O preço do barril, como era de se esperar, disparou. A guerra Irã-Iraque, um anos depois, fez com que a produção fosse cortada ainda mais. A recuperação dos preços veio somente na metade da década de 1980. 

Outro evento marcante na história da organização foi quando ela resistiu à pressão internacional pela diminuição dos preços na época da crise da Líbia, em 2011. Muamar Kadafi fora por muito tempo um defensor da política de preços altos, que beneficia os termos de troca dos países vendedores. É nítido que este foi um dos fatores principais que motivaram a campanha estadunidense contra seu regime. 

No entanto, esse tipo de pressão estadunidense, constante ao longo da história da organização, é a principal força geopolítica por trás dos preços do petróleo nos dias de hoje. Apesar de ter se tornado o maior produtor do recurso do mundo, os Estados Unidos favorecem uma política de preços reduzidos, que aumenta os lucros de suas empresas. 

Como estratégia para conter essa dinâmica, a OPEP+ foi formada em 2016, contando com a Rússia como seu principal integrante. Mas nem mesmo o músculo geopolítico dos russos foi capaz de conter a influência estadunidense na organização. 

Como apontado pela agência Reuters, a ostracização da Venezuela e do Irã através de sanções internacionais, que são as principais forças ideológicas contrárias ao neoimperialismo, fez com que estes países perdessem força. Isso acabou favorecendo, entre outros, a Arábia Saudita.

Dada a proximidade entre Donald Trump e o príncipe herdeiro do trono saudita, Mohammad bin-Salman, interesses americanos estão garantidos a influenciar o rumo da organização no futuro.

A carta na manga de Trump é justamente o apoio militar aos sauditas, sendo estes os maiores compradores de equipamentos militares estadunidenses. 

Segundo Chakib Khelil, ex-presidente da OPEP, “Trump ordena a Arábia Saudita sobre o que ele precisa em relação ao preço do óleo - e ele é servido. Então, sim, a OPEP mudou.”

Isso se reflete nas taxas de contribuição da oferta dos países. A mesma Reuters aponta que, enquanto a produção do Irã diminuiu pela metade em 10 anos, caindo para 7.5%, e a da Venezuela caiu de 10% para 2.3%, a da Arábia Saudita subiu 7%, chegando a 35%.

O que torna ainda mais clara a interferência de Trump em uma organização que se prezava por servir de contraponto aos Estados Unidos são suas declarações no Twitter.

Em março do ano passado, ele disse em sua conta: “”Muito importante que a OPEP aumente o fluxo do óleo. Os mercados mundiais estão frágeis, o preço do óleo está se tornando muito alto. Obrigado!”

No dia seguinte à declaração, a OPEP aumentou sua produção em um milhão de barris por dia.

Infelizmente, a OPEP, organização que se mostrou tão importante ao longo de sua história por combater a hegemonia estadunidense no que diz respeito ao preço do petróleo mundial, vem se tornando cada vez mais um veículo para os Estados Unidos. Seria somente através de seu fortalecimento interno que voltaríamos a poder celebrar sua existência. 

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