Assange está fazendo o seu trabalho mais importante até agora

"A luta de Assange contra a extradição para os EUA nos beneficia também devido à sua recusa de se curvar e se submeter às forças do império", diz Caitlin Johnstone

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(Foto: REUTERS/HENRY NICHOLLS)


Por Caitlin Johnstone, originalmente publicado em seu website, caitlinjohnstone.com, em 18.06.22

Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247

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A Secretária do Interior [Home Secretary] do Reino Unido, Priti Patel, autorizou a extradição de Julian Assange, o fundador do Wikileaks, para os EUA – para ser julgado pelo Ato de Espionagem [Espionage Act], num caso que busca estabelecer um precedente legal para o indiciamento de qualquer publisher ou jornalista, em qualquer lugar do mundo, que reporte verdades inconvenientes sobre o império estadunidense.

A equipe jurídica de Assange apresentará um recurso a esta decisão com argumentos que incluirão o fato de que a CIA o espionou e conspirou o seu assassinato.

“Provavelmente isso será feito alguns dias antes da data limite (14 dias) e o recurso incluirá novas informações que não pudemos apresentar ao tribunal antes – informações sobre como os advogados de Assange foram espionados e as tramas urdidas dentro da CIA para sequestrar e assassinar Julian”, declarou na sexta-feira o seu irmão Gabriel Shipton à Agência Reuters.

Graças à bondade. A vontade de Assange de resistir às tentativas de extradição de Washington beneficia a todos nós – desde quando ele aceitou asilo político na embaixada equatoriana em Londres, em 2012, até que a polícia britânica o arrastou à força de lá em 2019, até a sua luta com todos os dentes e unhas contra os promotores estadunidenses no tribunal durante o seu encarceramento na prisão de Belmarsh.

A luta de Assange contra a extradição para os EUA nos beneficia não só porque a guerra do império contra a verdade causa danos a toda a nossa espécie e não só porque ele não pode ter um julgamento justo sob o Ato de Espionagem, mas devido à sua recusa de se curvar e se submeter às forças do império para revelar-se à luz e nos mostrar tudo de que este [império] é feito.

Washington, Londres e Canberra estão conspirando para aprisionar um jornalista por contar a verdade: a primeira, com as suas ativas tentativas de extradição; a segunda com a sua leal facilitação destas tentativas; e a terceira com a sua silenciosa cumplicidade em permitir que um jornalista australiano seja trancafiado e perseguido por se engajar na prática do jornalismo. Ao se recusar a se deitar e forçá-los a ir atrás dele, Assange expôs algumas realidades duras sobre as quais o público na sua maior parte tem sido mantido despercebido.O fato de que Londres e Canberra estão obedecendo tão obsequiosamente as pautas de Washington, mesmo enquanto os seus próprios veículos de mídia corporativa desacreditam da sua extradição e mesmo enquanto os principais grupos de direitos humanos e de vigilância da liberdade de imprensa no mundo ocidental dizem que Assange deve ser libertado, isso mostra que estas não são nações soberanas separadas, mas sim estados-membros de um único império que abrange o mundo, centralizado em torno do governo dos EUA. Mais atenção está sendo dada a esta realidade, porque Assange se manteve firme e lutou contra eles.

Ao manter-se firme e lutar contra eles, Assange também expôs a mentira que as chamadas democracias livres do mundo ocidental apoiam a imprensa livre e defendem os direitos humanos. Os EUA, O Reino Unido e a Austrália estão conspirando para extraditar um jornalista que expôs a verdade, ao mesmo tempo que eles alegam se opor à tirania e à autocracia, mesmo enquanto eles alegam apoiar as liberdades mundiais de imprensa, e mesmo quando eles desacreditam em alta voz os perigos da desinformação patrocinada por governos.

É porque Assange se manteve firme e lutou contra eles que isso sempre federá à hipocrisia quando os presidentes dos EUA, como Joe Biden, dizem coisas do tipo: “A imprensa livre não é a inimiga do povo – longe disso. No seu melhor, vocês são os guardiões da verdade.”É porque Assange se manteve firme e lutou contra eles, que as pessoas sempre saberão que os primeiros-ministros britânicos, como Boris Johnson, estão mentindo quando dizem coisas do tipo: “As organizações de mídia devem se sentir livres para revelar fatos importantes para o domínio público.”É porque Assange se manteve firme e lutou contra eles, que mais pessoas entre nós entenderão que estão sendo enganados e manipulados quando  primeiros-ministros australianos, como Anthony Albanese, dizem coisas do tipo: “Precisamos proteger a liberdade de imprensa com a lei e assegurar que todos os australianos possam ter escutada a sua voz” e “Não processem os jornalistas por apenas fazerem o seu trabalho.”É porque Assange ficou firme e lutou contra eles, que os secretários de estado dos EUA, como Antony Blinken, terão muito mais dificuldades para vender o discurso deles, quando dizem coisas como: “No dia Mundial da Liberdade de Imprensa, os EUA continuam a defender a liberdade de imprensa, a segurança dos jornalistas no mundo todo e o acesso à informação online e offline. Uma imprensa livre e independente assegura que o público tenha acesso à informação. Conhecimento é poder.”É porque Assange se manteve firme e lutou contra eles, que os secretários do interior do Reino Unido, como Priti Patel, serão vistos pelas fraudes que eles são, quando dizem coisas como: “A segurança dos jornalistas é fundamental para a nossa democracia.”

Extraditar um jornalista estrangeiro por expor os seus crimes de guerra é uma pauta tão tirânica quanto se poderia inventar. Os EUA, o Reino Unido e a Austrália em conluio para este fim nos mostra que estes são estados-membros de um único império, cujos valores são a dominação e o controle, e que toda a encenação deles sobre direitos humanos é pura fachada. Assange continua expondo a verdadeira cara do poder.

Na verdade, há um forte argumento a fazer, de que, mesmo depois de todos estes anos após os vazamentos de 2010 pelos quais ele está sendo processado atualmente, Assange está fazendo o seu trabalho mais importante até agora. Tão importante quanto foram e são as suas publicações no Wikileaks, nenhuma delas expôs tanto a depravação do império quanto forçá-los a nos olhar nos olhos e nos dizer que farão a extradição de um jornalista porque ele está contando a verdade.

Assange conseguiu isso ao firmar os seus pés no chão e por dizer “Não”, mesmo que outras opções possíveis tivessem sido mais fáceis e mais prazerosas. Mesmo quando foi difícil. Mesmo quando foi aterrorizante. Mesmo quando significava ser aprisionado, silenciado, manchado, odiado, sendo incapaz de lutar contra os seus detratores, incapaz de viver uma vida normal, incapaz de segurar os seus filhos nos braços, incapaz até de sentir a luz do sol na sua face. 

A sua própria vida joga luz sobre todas as áreas onde a sua falta é mais dolorosamente sentida. Nós temos uma tremenda dívida com este homem. O mínimo que podemos fazer é tentar fazer o melhor que podemos para libertá-lo.

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