Caitlin Johnstone: nada é mais importante do que evitar uma guerra nuclear

As pessoas que pensam que temeridades nucleares valem o risco deveriam ser repudiadas com extrema agressão, diz a jornalista

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Artigo de Caitlin Johnstone originalmente publicado no site da autora em 03/10/22. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247

Evitar a guerra nuclear é a singular e mais importante pauta no mundo. A singular e mais importante pauta na história. Ela é mais importante que a nossa facção política. Ela é mais importante do que como Vladimir Putin faz você sentir. Ela é mais importante que qualquer outra coisa.

Sempre que eu digo isto, sempre há algum liberal que diz “vale a pena morrer por algumas coisas”, ou outra merda qualquer. Na verdade, não. Nada, literalmente nada, vale a obliteração da vida na Terra. Não vale a pena apostar toda a vida terrestre para agradar as suas fixações egocêntricas idiotas.

As pessoas que pensam que temeridades nucleares valem o risco, ou não pensaram bem o suficiente sobre o que a guerra nuclear é e o que ela significaria, ou elas simplesmente odeiam a vida e têm um desejo doentio de ver o fim de tudo. Seja como for, elas deveriam ser repudiadas com extrema agressão.

Se há uma coisa que todos deveriam ser capazes de concordar, é que se deve tomar todas as medidas para evitar o fim de tudo. É só porque a nossa civilização está inundada de propagandas de guerra que isto não é gritantemente óbvio para todos.

Isto necessariamente significa desescalada e détente. Isto significa acordo. Isto significa mudança. Isto significa reconhecer que o seu lado errou por nos conduzir à beira da catástrofe e por tomar medidas drásticas para mudar aquilo e assegurar que isso jamais ocorra de novo. Isto não é egoicamente agradável, mas é necessário. Mais ainda que qualquer coisa que tenha ocorrido antes. Arriscar a aniquilação de toda a vida terrestre não vale a gratificação egóica que nós derivamos das nossas narrativas sobre “vencer” e “perder” e “os caras bons” e “os caras maus”. Isto é infinitamente mais importante que aquilo.

A nossa civilização é tão atrasada e insana que as pessoas agirão como se você fosse a pior pessoa no mundo, por dizer que nós devemos tentar evitar o armagedon nuclear. Eu e muitos outros vimos gritando por anos a fio que a política dos EUA com relação à Rússia está nos trazendo cada vez mais perto da guerra nuclear; agora nós estamos à beira da catástrofe e as pessoas contra quem nós gritamos seguem agindo como se nós fossemos os idiotas.

Dois governos atrás, os EUA tinham um presidente que fez troça da ideia de que a Rússia fosse um rival primário e disse que a Ucrânia era um interesse central da Rússia, mas não dos EUA, e os liberais pensaram que ele era incrível. Após quatro anos de narrativas conduzidas pela agência de inteligência que casava a Rússia à Trump, agora os liberais estão zurrando pela Terceira Guerra Mundial.

Antes de 2016, os Democratas viam aqueles que gastavam energia pirando sobre a Rússia como sendo esquisitos e arcaicos guerreiros da guerra fria. Agora eles veem qualquer um que não queira a guerra contra a Rússia como um agente secreto do Kremlin. Tudo isso porque eles foram treinados que Rússia = Trump e, portanto, lutar contra a Rússia = lutar contra Trump.

Todos são contra a guerra até que a propaganda de guerra comece.

Os monstros reais não se parecem com o que fomos treinados a esperar. Aqueles que nos estuprarão e nos machucarão geralmente são pessoas que nós conhecemos e nas quais confiamos. Os tiranos mais assassinos não se parecem com os vilões de Hollywood; eles fazem piadas e elogiam a liberdade e a democracia e apertam a sua mão na campanha eleitoral.

Aqueles que estão causando a maior parte das mortes, opressão e miséria no nosso mundo não parecem ser os monstros tipo-Hitler que nós fomos treinados a antecipar. Eles parecem amigáveis. Eles dizem coisas com as quais você concorda. Dependendo do seu partido, eles podem até perguntar pelos seus prenomes. Neste ínterim, os supervilões da Marvel têm mais profundidade e complexidade do que os tipos unidimensionais que a máquina imperial de histórias inventa para representar os seus inimigos oficiais. Thanos é um personagem mais crível e com motivações mais compreensíveis e matizadas que a representação fictícia de Putin fabricada pela máquina de propaganda.

Os predadores sabem que, se eles se destacarem e parecerem abertamente predatórios, eles provavelmente não conseguiram capturar presa alguma; é por isso que os ursos polares são brancos. O mesmo é verdade sobre os predadores humanos. Os inábeis são abertamente predatórios. Aqueles que capturam a foca são os que se escondem na neve.

Os monstros de verdade não parecem como fomos treinados para esperar. Porque os verdadeiros monstros são aqueles que têm treinado nossas expectativas.

O império estadunidense não ficou menos assassino e tirânico do que era durante o governo Bush, ele só se tornou melhor em esconder o seu caráter homicida e tirânico através do gerenciamento da narrativa, de formas alternativas de fazer guerra – como as sanções que causam a fome e a terceirização da violência militar a outras nações e outras forças militares.

Algumas vezes eu ouço pessoas que têm objeções à minha descrição dos EUA como os chefes de um império, mas isto é bobagem; eles são um império em tudo, menos no nome. Eles são um império não-oficial e não reconhecido que deixa a maioria dos seus estados membros manterem as suas próprias bandeiras e lidarem com a maior parte das suas políticas internas; mas eles agem como um todo unificado com relação à política externa. Se eles não o fizerem, os seus governos são substituídos.

Você pode ter uma perspectiva sobre esta dinâmica da Austrália, onde cada vez que nós tentamos decidir sobre uma política externa mais alinhada com os nossos próprios interesses, houve um golpe de Estado promovido pelos EUA. É por isso que agora, funcionalmente, nós somos apenas um ativo militar e de inteligência dos EUA; apenas uma base militar do tamanho de um continente, com uma boa localização em relação à China – no que concerne ao império.

Virtualmente todos os principais conflitos internacionais podem ser compreendidos através das lentes da estrutura de poder centralizada nos EUA – que trabalha para converter cada vez mais nações para se tornarem estados-membros do império e há nações que resistem a esta pauta com vários graus de sucesso. Este não é só um império, este é o império mais poderoso que jamais existiu. Nem sequer os britânicos foram capazes de projetar tanto poder e influência em todo o mundo. Nenhuma outra potência chegou tão perto da hegemonia planetária unipolar – que é a meta última dos EUA.

Os entendimentos e epifanias realmente transformadoras não são aquelas sobre como você deve ser, ou o que você deveria mudar, mas aquelas que conduzem à consciência sobre algo dentro de você sobre o que você não estava consciente antes. Aquelas são as revelações que deixam você mudado para o resto da vida.

As pessoas não cumprem as suas resoluções de ano novo. Isto é porque nós somos muito menos livres do que nós pensamos ser. A coisa mais próxima que temos ao verdadeiro livre-arbítrio é a capacidade de levar consciência às forças dentro de nós que movem o nosso comportamento, que podem ser curadas e libertadas.

A sua maneira de viver não muda porque você fez alguns barulhos mentais na sua cabeça, dizendo que você vai mudar, mas porque tem consciência de onde vem a sua maneira de viver.

O comportamento viciante não muda quando você decide mudá-lo, mas sim quando você toma consciência da dinâmica dentro de você que estava impelindo-o. 

O altruísmo verdadeiro não vem da escolha de ser altruísta, mas vem de ver que o 'eu' é uma ilusão.

A verdadeira presença não deriva de escolher estar mais presente, mas sim de reconhecer profundamente a novidade de cada instante que já é sempre o caso.

A paz interior não vem da escolha de ser mais pacífico, mas sim de dar-se conta que o nosso campo de consciência inteiro é pintado sobre um abismo de paz pura.

A felicidade não deriva da escolha de ser mais feliz, mas sim de reconhecer o exultante regozijo que já existe em tudo.

Aquilo que se pode obter, pode ser perdido. Aquilo que você escolher mudar tenderá a mudar de volta. Mas um reconhecimento dos presentes nos quais já estamos nadando a cada instante das nossas vidas traz uma saúde e uma harmonia que permanece conosco, porque eles jamais estiveram conosco.

Isto é tão verdadeiro para a humanidade enquanto um coletivo, quanto o é para um indivíduo. As mudanças no comportamento coletivo humano sempre surgem da difusão da consciência – seja sobre as injustiças sociais ou as realidades científicas. 

Em última instância, esta é a resposta para qualquer problema nascido do comportamento humano em qualquer escala: expandir a consciência. Focalize o olhar e o reconhecimento a tudo que não é visto e não é reconhecido. Você não pode sempre escolher as coisas a mudar, mas você sempre pode escolher expandir a consciência.

E existem forças que resistirão a isso, tanto internas quanto externas. Há construções identitárias dentro de nós cuja existência depende de não vê-las conscientemente; e elas fazem tudo que podem para nos distrair de olhá-las. Também há forças no mundo que fazem isso. Assim como as estruturas egóicas tentam evitar de serem vistas, porque a existência delas depende disso, também assim trabalham as estruturas de poder para evitar serem vistas, pela mesma razão. Esta é a razão para os segredos de governo, a propaganda, a censura, a manipulação dos algoritmos de Silicon Valley e a guerra contra o jornalismo. Esta também é a razão pela qual as substâncias psicodélicas foram tornadas ilegais. Obstruir a visão é a meta destas forças – cuja existência depende de permanecerem ocultas, seja na visão interna ou na visão externa.

Do meu ponto de vista, é disso que tudo na vida trata: levar a visão àquilo que não é visto. A aparição da vida neste planeta possibilitou que o universo se veja e que ele se veja com cada vez mais profundidade e complexidade, à medida que a vida se torna mais avançada.

O caminho para a harmonia em nós mesmos é o mesmo caminho para a harmonia na sociedade, o mesmo caminho para a harmonia no universo: levar a clara visão ao que existe, de qualquer maneira que consigamos. É assim que trazemos a harmonia a tudo que existe, em todos os níveis.

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