Caso George Floyd revela racismo estrutural nos EUA

O assassinato de George Floyd serviu de estopim para protestos que visam mudanças radicais nos EUA

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Por Leonardo Sobreira, 247 - Na última semana (22/05-30/05), o assassinato de George Floyd - homem negro de 46 anos - por parte do ex-policial Derek Chauvin em Minneapolis, e os consequentes protestos violentos, dominaram o noticiário americano. O caso serviu de estopim para o saqueamento de lojas, invasão de delegacias e incendiamento de prédios e carros na cidade, o que levou o presidente Donald Trump a declarar em seu Twitter: “...Esses BANDIDOS estão desonrando a memória de George Floyd, e eu não deixarei isso acontecer. Acabei de falar com o governador Tim Walz e lhe disse que o Exército está do seu lado. Qualquer dificuldade e assumiremos o controle, porém, assim que o saqueamento começar, o tiroteio começará. Obrigado!”

A ameaça de Trump ilustra perfeitamente a conjuntura racial dos Estados Unidos. Como apontado pelo autor William C. Anderson, “[A]s pessoas lamentam a destruição da propriedade porque elas se convenceram de que esta constitui um outro erro no topo de qualquer violência supremacista que causou tal destruição.” Ele completa: “Mas roubar porque você está sendo explorado por um sistema que te tornou descartável não é comparável aos assassinatos racistas das pessoas negras por parte dos supremacistas brancos.”

Assim, Anderson aponta para o problema do racismo estrutural nos EUA. Por séculos, desde o período colonial, o sistema econômico americano se baseia na segregação racial. Esta é a tese defendida por Eric Williams, historiador e ex-presidente de Trinidad e Tobago, em seu livro “Capitalismo e Escravidão”, onde ele delineia o processo histórico no qual as plantações do sul dos EUA alimentaram a indústria no norte e nos centros industriais mundiais da época, como Manchester. Como apontado pelo historiador Walter Johnson, “[N]ão existe capitalismo sem escravidão: a história de Manchester nunca aconteceria sem a história do Mississippi.”

No sistema contemporâneo, muitos questionam se a relação entre capitalismo e racismo ainda permanece. No entanto, como apontado pela jornalista Nikole Hannah-Jones, “[O]s lucros roubados do trabalho da população negra auxiliaram a jovem nação (os EUA) a financiar suas dívidas de guerra e financiou algumas das nossas mais prestigiosas universidades. Foi a implacável venda, compra, garantia e financiamento de seus corpos e produtos do seu trabalho que transformaram Wall Street em um um próspero setor bancário, de seguros e comercial e a cidade de Nova Iorque na capital financeira do mundo.”

Dado o entrelaçamento entre o sistema capitalista, é de se esperar que, em momentos de tensão como o atual, ataques à instituições que representam esse sistema se propaguem. Afinal de contas, o que os protestos raciais nos EUA, historicamente, evidenciam é a tentativa de justamente alterar o sistema. Como dito por Martin Luther King, em seu discurso de 1967 na Universidade de Stanford, “na análise final, a manifestação é a linguagem daqueles que não são ouvidos. E, exatamente, o que é que os EUA falharam em ouvir? Ela falhou em ouvir que a condição do negro pobre piorou nos últimos anos. Ela falhou em ouvir que as promessas de liberdade e justiça não foram cumpridas. E ela falhou em ouvir que grandes segmentos da população branca estão mais preocupados com sua tranquilidade e o status quo do que com justiça, igualdade e humanidade. Então, as manifestações no verão pelos invernos de atraso. Por tão longo quanto os EUA postergarem a justiça, estaremos suscetíveis à reincidência de violência e manifestações cada vez mais. Somente justiça social e progresso funcionam como prevenção à violência.” 

Assim, é necessário observar a revolta não simplesmente como uma certa forma de “bandidagem”, como Trump faz. Na realidade, representantes como ele, e o sistema no geral, são os verdadeiros alvos dos protestos. 

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