Discurso de Bolsonaro representa um momento de ruptura na tradição diplomática brasileira

O discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas foi contra a tradição defendida pelo Brasil ao longo das últimas décadas de apoio ao multilateralismo e de defesa do interesse nacional

Jair Bolsonaro, Pantanal em chamas e óleo no Nordeste
Jair Bolsonaro, Pantanal em chamas e óleo no Nordeste (Foto: Reprodução | Reuters)
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Leonardo Sobreira, 247 - O discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas significou um momento importante na história da política externa brasileira. No palanque mais alto da diplomacia mundial, Bolsonaro optou por culpar os povos indígenas pelos incêndios recentes no Pantanal, divulgar teorias da conspiração sobre uma suposta “campanha de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, defender e “cristofobia”, e omitir a gravidade das crises da pandemia e da violação dos direitos humanos no Brasil. 

Num documento oficial redigido pelos parlamentares Sâmia Bomfim, David Miranda, Fernanda Melchionna e Talíria Petrone, entre outros, e direcionado oficialmente à ONU, Bolsonaro é acusado de violar “sistematicamente suas obrigações ambientais e de direitos humanos internacionais, ignorando várias disposições da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e violando o Acordo de Paris, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática e a Convenção sobre Diversidade Biológica. Os incêndios no Pantanal são ainda um novo capítulo grave de um conto severo e contínuo de destruição e desmatamento.”

O documento também pede que a Assembleia Geral “desconsidere as falsas informações de Bolsonaro e que aprove uma resolução sobre a crise ambiental urgente no Brasil, em especial em relação aos incêndios em andamento no Pantanal.”

Ao longo da sua história na ONU, o Brasil nos discursos de seus presidentes na Assembleia Geral tratou de questões como a defesa dos direitos humanos, seu crescente protagonismo em assuntos internacionais e a importância das políticas sociais e do combate ao imperialismo estadunidense. Em suma, a política externa brasileira, pelo menos na forma discursiva, sempre foi caracterizada pela defesa dos interesses dos brasileiros e do seu papel protagonista no âmbito internacional. 

O ex-presidente Lula resumiu em 2003 o espírito da política externa brasileira: “No Brasil, estamos instaurando um novo modelo capaz de conjugar estabilidade econômica e inclusão social. As negociações comerciais não são um fim em si mesmo. Devem servir à promoção do desenvolvimento e à superação da pobreza. O comércio internacional deve ser um instrumento não só de criação, mas de distribuição de riqueza.”

Além disso, desde o seu ingresso na Organização, o Brasil sempre defendeu a expansão do Conselho de Segurança, como cobrado por todos os ex-presidentes da história recente em seus discursos na Assembleia Geral. 

O discurso de Bolsonaro quebra essa tradição. Ele erra em todos os quesitos base de qualquer política internacional minimamente decente, que visa tanto o bem comum da humanidade como o de seu povo sem enxergar os dois em contradição. Bolsonaro opera em uma câmara de eco, onde seu campo e apoiadores se alimentam de discursos conspiratórios, que acabam por desfazer anos de uma tradição honrosa da política externa brasileira. O projeto de ingressar no Conselho de Segurança e de defesa do multilateralismo e dos interesses dos brasileiros, assim, passam para segundo plano.

Antes um pilar sólido e imutável até mesmo diante das mais diversas pressões políticas internas, a política externa brasileira hoje se deixou influenciar pela situação sem precedentes que o Brasil enfrenta. Somente uma mudança interna é capaz de redirecionar a postura do Brasil em relação a ONU.

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