É justificável equiparar Bolsonaro ao nazismo?

Mesmo que seja indevido equipará-lo à figuras como Hitler, ele certamente pertence à sua mesma família ideológica

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Leonardo Sobreira, 247 - Uma das principais questões levantadas no debate político atual é a da aplicação do termo “fascista” ou “nazista” aos regimes de extrema direita que se espalham ao redor do mundo. 

É justificável equiparar Bolsonaro à Mussolini e Hitler? É possível preservar o peso histórico deste termo ao mesmo tempo que designamos o governo Bolsonaro como fascista? 

Para o filósofo italiano Umberto Eco, em seu texto Ur-Fascismo, é somente quando entendemos por fascismo um sistema atípico - que não possui uma ideologia única e estruturada ao redor de uma visão específica da sociedade - que podemos dizer com certeza que ele ainda está presente.

Eco diz: “Só ocorreu um Nazismo. Não podemos designar o Falangismo hiper-Católico de Franco como Nazismo, já que o Nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anti-Cristianismo.” No entanto, “o jogo fascista pode ser jogado de diversas formas, e o nome do jogo não muda.”

Para ele, “a noção de fascismo não é dissimilar à noção de jogo de Wittgenstein. Um jogo pode ou não ser competitivo, pode ou não requerer algum tipo de habilidade técnica, pode ou não envolver dinheiro. Jogos são atividades diferentes que demonstram apenas uma ‘semelhança familiar’, como colocado por Wittgenstein.”

“Considere a seguinte sequencia:

1 2 3 4 

abc bcd cde def

Suponha que exista uma série de grupos políticos na qual o grupo um possui os traços abc, o grupo dois bcd, e por aí vai. O grupo dois é semelhante ao grupo um já que os dois compartilham dois traços; pelo mesmo motivo três é semelhante à dois e quatro semelhante  à três. Perceba que três também é semelhante à um (ambos possuem c). O caso mais curioso é o do quatro, obviamente semelhante à três e dois, mas sem nada em comum com o um. No entanto, graças à série ininterrupta de semelhanças decrescentes entre um e quatro, permanece, por conta de uma certa transitividade ilusória, uma semelhança familiar entre quatro e um.”

O “jogo fascista” exibe esta mesma característica. “Remova o imperialismo do fascismo e ainda teremos Franco e Salazar. Retire o colonialismo e ainda teremos o fascismo dos Balcãs dos Ustashes. Adicione ao fascismo italiano um anti-capitalismo radical… e teremos Ezra Pound. Adicione um culto à mitologia Celta e um misticismo do Graal (completamente áliens ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola.”

Assim, Eco aborda o fascismo de forma “morfológica”, como descrito pelo acadêmico inglês Michael Freeden. A morfologia das ideologias não é nada além das suas capacidades de incorporar certos elementos e ideias políticas como centrais ou periféricas. No caso do fascismo, Eco estabelece 14 características que podem servir como centrais no fascismo. 

Estas são: 

  1. “O culto à tradição.”
  2. “A rejeição ao modernismo. A rejeição ao mundo moderno foi disfarçada como uma  rejeição ao modo de vida capitalista, mas na realidade é uma rejeição ao espírito de 1789. O Iluminismo, a Era da Razão, é visto como o começo da depravação da modernidade.”
  3. “Esse irracionalismo depende no culto à ação pelo bem de agir. A ação sendo perfeita em si, assim deve ser tomada antes, ou sem alguma, reflexão prévia. Pensar é uma forma de emasculação. Portanto, a cultura é suspeita na medida em que ela é associada ao pensamento crítico.”
  4. “Qualquer discordância é traição.”
  5. Racismo. “O primeiro recurso de um movimento fascista ou movimento fascista prematuro é uma apelação contra intrusos.”
  6. “O apelo à uma classe-média frustrada, uma classe que está passando por uma crise financeira ou sentimentos de humilhação política, e assustada pela pressão gerada por grupos sociais mais abaixo.”
  7. Nacionalismo. Nesta “psicologia” “existe uma obsessão por conspirações, potencialmente um internacional.”
  8. “Os seguidores devem se sentir humilhados pela grandiosa riqueza e força de seus inimigos. Mas eles devem também estar convencidos de que podem superá-los.”
  9. Para seus aderentes, “a vida é um estado de guerra permanente.” 
  10. “Elitismo popular.” Ou seja, a ideia de que “cada cidadão pertence ao melhor grupo de pessoas do mundo, que os membros do partido são os melhores entre todos os cidadãos, cada cidadão pode (ou deve) se tornar membro do partido.”
  11. “Nessa perspectiva todos são incentivados a se tornarem heróis… O heroísmo é a norma.”
  12. Machismo, já que o “desejo de poder é transferido para questões sexuais.”
  13. Um “populismo seletivo” no qual “a resposta emocional de um grupo seleto de cidadãos é apresentado e aceito como a Voz do Povo.”
  14. O discurso se dá em novilíngua orwelliana. “Todos os livros didáticos Nazistas ou Fascistas utilizavam um vocabulário empobrecido e uma sintaxe elementar, tendo em vista limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Mas devemos estar alerta para identificar outras formas de novilíngua, mesmo se elas tomassem a forma aparentemente inocente de um programa de TV.”

Estas características, para Eco, podem estar presentes em diverso grau de intensidade em diversos regimes. No entanto, é necessário ênfase em apenas uma delas para que o fascismo “se coagule em torno desta.” Ele define esse fenômeno político com Ur-Fascismo, ou “Fascismo Eterno.”

O fascismo eterno é aquele que não é nítido o suficiente para se materializar em novos movimentos como o Nazismo. Ele está, porém, sempre presente em potencial ou em atividade, “disfarçado em roupas comuns.”

Mesmo que não seja explicitamente nazista, Bolsonaro se encaixa nas categorias de Eco em diversas instâncias. Assim, mesmo que seja indevido equipará-lo à figuras como Hitler, ele certamente pertence à sua mesma família ideológica. 

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