Economia ortodoxa não oferece saídas para a crise aberta pela pandemia

A superficialidade das teorias econômicas ortodoxas evidencia a necessidade de se criar uma nova teoria econômica, focada não apenas no uso eficiente dos recursos, mas também na capacidade de suportar desastres externos

Agentes de saúde fazem caminhada durante pausa no expediente em hospital de Nova York
Agentes de saúde fazem caminhada durante pausa no expediente em hospital de Nova York (Foto: REUTERS/Caitlin Ochs)
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Leonardo Sobreira, 247 - É inegável que a pandemia de COVID-19 gerou uma ruptura profunda na economia mundial. De acordo com o Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a atividade econômica global cairá 6% em 2020, e a taxa de desemprego no mesmo nível subirá de 5.4% em 2019 para 9.2%. No entanto, o que não parece tão evidente é a maneira como a crise atual nos força a questionar os pressupostos da teoria econômica ortodoxa.  

Tradicionalmente, crises como a presente são entendidas por economistas como choques puramente externos. Isto é, um desastre natural, como algo amplamente inevitável, é visto como um evento que não diz respeito ao sistema econômico. Como apontado por Naomi Klein em seu livro seminal ‘A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre’, isso faz com que a teoria por eles pregada seja preservada, e que caminhos progressistas sejam evitados. 

Por exemplo, nos Estados Unidos, Donald Trump anunciou pacotes de auxílio emergencial multibilionários para as indústrias da aviação e petroleira. Tais medidas ignoram o fato de que, como apontado por diversos analistas, o mundo pós-coronavírus será reorientado para uma direção mais sustentável, onde ditas indústrias perderão espaço.

Em um nível mais profundo, a incapacidade de se redirecionar a economia nessa direção reflete a superficialidade da própria teoria econômica ortodoxa. 

Como apontado pelo economista indiano e ex-economista chefe do Banco Mundial, Kaushik Basu, “uma ruptura como a causada pelo COVID-19 nos alerta sobre o quanto tratamos como garantido.” Através de Adam Smith, “aprendemos que o mercado funciona normalmente sem uma autoridade central, já que as ações das pessoas ordinárias tentando ganhar mais e comprando os bens de consumo geram ‘puxões’ de oferta e procura, fazendo com que os preços subam ou desçam.”

Ele continua: “Conforme essa ideia foi se formalizando, as normas sociais e os costumes nos quais os mercados também dependem se tornaram suposições implícitas que ignoramos, e porque elas não variam em tempos normais, esquecemos da sua existência.”

Crises como a que vivemos nos fazem questionar essas suposições. De repente, nos encontramos diante de uma situação onde as suposições básicas da economia ortodoxa estão sendo questionadas. 

Um editorial do The Guardian, por exemplo, argumenta que a própria norma da eficiência econômica deve ser questionada. “Eficiência significa obter o maior valor com o dinheiro, o maior benefício para cada unidade gasta. Qualquer outro curso é um desperdício, certo? Porém, eliminar o desperdício significa também eliminar o excesso de capacidade, e agora estamos presenciando as consequências disso nos sistemas de saúde ao redor do mundo. Nossa obsessão por eficiência, se significa falhar no planejamento contra pandemias ou emergências climáticas, custará vidas.”

A principal lição a ser tirada da crise é de que “nossa prioridade deve ser resiliência, e não eficiência. Precisamos construir sistemas resilientes e economias explicitamente projetadas para resistir aos piores cenários - e que também tenham uma chance de lidar com desastres imprevisíveis.”

Diante do aquecimento global e do potencial da crise ambiental de destruir a economia global, é necessária uma teoria econômica que tenha como pressuposições básicas um conjunto de teses inteiramente diferente da economia ortodoxa. 

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