Futebol e identidade: uma mistura fértil

O futebol, ao criar um senso de comunidade na população, vem trazendo oportunidades para nações aspirantes adquirirem reconhecimento internacional

(Foto: Reprodução)
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Leonardo Sobreira, 247 -  Identidade e esporte sempre estiveram entrelaçados. No caso do futebol, o reconhecimento do fanático é feito, em grande parte, através de seu time de coração, seja este o do bairro ou a seleção nacional.

A divulgação da imagem internacional de um país se dá de diversas formas. Atos simbólicos de grande escala, como por exemplo uma parada militar, criam uma força invisível que liga os membros de uma comunidade. Narrativas históricas que exaltam o passado de um povo exercem uma função parecida. 

Essa ligação é fundamental para a criação de uma coletividade nacional. Assim, como apontado pelo acadêmico americano Benedict Anderson, a nação não passa de uma comunidade “imaginada”, que não é “real” no sentido de que seus membros não possuem ligações mais tangíveis. 

Justamente por serem imaginadas, as nações, fundamentalmente, não se enquadram em um padrão específico. É claro que para se tornarem reconhecidas internacionalmente elas têm de passar por um processo extensivo de aprovação - e, na maior parte dos casos, repressão - pelos países hegemônicos no sistema internacional. Mesmo assim, no que diz respeito ao conceito em si, o único pré-requisito para que uma nação seja imaginada é uma simples ideia de coletividade. 

A desesperadora situação de povos sem-Estado ao redor do mundo os faz buscar meios simples e baratos de atingir os “corações e mentes” de suas populações. O futebol se torna algo além de uma mera válvula de escape, se tornando um campo de batalha política e identitária - no melhor sentido possível. 

A CONIFA (Confederação de Futebol de Associações Independentes) é a principal organização internacional responsável por representar essas populações. Fundada somente em 2013, ela conta com membros dos mais diversos, desde a Palestina e Somalilândia até o povo Mapuche do Chile. Sua copa do mundo ocorre de dois em dois anos desde 2014, e tem como campeão mais recente a seleção de Transcarpátia, região disputada do Leste Europeu.

A FIFA, por sua vez, sempre se mostrou extremamente conservadora no que diz respeito a manifestações de nacionalismo. Quando Xherdan Shaqiri e Granit Xhaka comemoraram a vitória da Suíça contra a Sérvia pela fase de grupos da Copa do Mundo de 2018 cruzando as mãos e entrelaçando os polegares - representando a bandeira da Albânia -, estes foram multados pela organização. Até hoje, Kosovo e Gibraltar foram os únicos entre os países disputados a obter seu reconhecimento como federações de futebol.

Assim, a CONIFA funciona como o único fórum internacional onde seus membros têm a oportunidade de se apresentar ao mundo e ser motivo de orgulho para a população. E mesmo com pouca visibilidade, o cumprimento de seu papel não necessariamente requer escalas monstruosas. Basta ela servir apenas como o primeiro degrau na escalada para o reconhecimento internacional. 

A seleção do Curdistão, região disputada entre Turquia, Síria, Iraque e Irã, é uma das melhores equipes segundo o ranking da CONIFA. Tendo ciência de que representa uma população de 40 milhões de pessoas, o capitão Khaled Musher declarou ao Guardian em 2016: “Por conta de estarmos em uma situação muito ruim e termos sido oprimidos durante todas nossas vidas, nosso sonho hoje é muito grande. Nosso sonho é nos tornarmos uma nação independente.”

Vários dos seus irmãos lutaram na linha de frente como peshmergas, o exército curdo, contra o Estado Islâmico. E Musher não descarta: “se precisarem de nós, vamos nos juntar a eles.”

Outro caso interessante é o da Somalilândia. Este Estado no Chifre da África possui um grau de eficiência pública e desenvolvimento relativamente alto, mas isso ainda não levou ao seu reconhecimento pela comunidade internacional. 

“O governo está fazendo seu melhor através de canais políticos e diplomáticos para impulsionar nosso reconhecimento internacional, mas também queremos que o mundo nos reconheça como um Estado através dos esportes”, diz Mohammed Nu, o ministro dos esportes do país. 

O movimento na Somalilândia já conta inclusive com categorias de base de alto nível. Crescer no futebol, para este pequeno país, anda de mãos dadas com a possibilidade de se tornar uma nação.

É muitas vezes difícil remover a dimensão poética de uma história sobre homens que batalham na linha de frente e dentro das quatro linhas. No entanto, não podemos nos esquecer que é justamente por conta da maleabilidade da ideia de nação que atos simbólicos como o futebol também podem servir a interesses perversos. 

A conexão de clubes com regimes autoritários não é novidade para ninguém. Os casos são incontáveis: Real Madrid e Franco, Colo Colo e Pinochet, a associação dos ultras da Lazio com o fascismo… No entanto, temos de notar também que estes clubes implementaram esforços expressivos para mudar suas identidades. 

É sempre inspirador escutar histórias de populações que enxergam no futebol um pingo esperança em meio à destruição em suas vidas. Através do futebol, é possível sonhar e imaginar comunidades diferentes da situação imposta pelas condições materiais. E, numa possível união entre sonho e matéria, o primeiro passo é sempre sonhar.

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