Marcelo Gomes: ‘população informada é central no combate à pandemia’

Pesquisador da Fiocruz reforçou a importância das vacinas, mas que medidas complementares são necessárias para diminuir efeito da pandemia. Assista

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(Foto: Reprodução)


Opera Mundi - No programa 20 MINUTOS ENTREVISTA desta sexta-feira (04/02), o jornalista Breno Altman conversou o pesquisador em saúde pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Marcelo Gomes sobre as novas batalhas contra a covid-19. 

Gomes, que também é especializado em modelos de vigilância epidemiológica e membro do Grupo de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica da Fiocruz, discorreu sobre a importância de ter dados estatísticos atualizados sobre a pandemia, “que são aliados inclusive para a tomada de decisões para contenção de transmissão e vacinação”.

“Mas servem também para a população, porque não é só o poder público definir as políticas de combate à doença. A população também pode avaliar se as autoridades estão tomando decisões que fazem sentido e se engajar no combate. É central que a população tenha acesso à informação e esteja informada porque ela muda sua atitude, mesmo que não seja toda a população”, argumentou. 

Ele ressaltou que atitudes individuais, quando colocadas em conjunto, contribuem para um efeito coletivo de proteção e diminuição da taxa de transmissão. Por isso, o pesquisador lamentou o apagão de dados que ocorreu no final de 2021 no sistema do Ministério da Saúde. 

“Não dava para cobrar das pessoas que não celebrassem o Ano Novo, por exemplo, se os dados que elas tinham não refletiam a situação verdadeira. Essa crise vertiginosa que estamos enfrentando desde fins de novembro teria tido outro ritmo, com menos casos, internações e mortes, se a gente soubesse o que estava acontecendo. A população informada tem uma atitude diferenciada”, destacou.

Além do apagão, Gomes lamentou que o banco de dados brasileiro ainda deixa muito a desejar, principalmente no que diz respeito aos casos leves, já que não houve busca ativa, nem testagem ampla, “que nem era possível devido ao altíssimo número de casos”. 

Nesse sentido, ele ressaltou o bom trabalho de países como a Suíça, a China, a Austrália e a Nova Zelândia. Na América Latina, Cuba e Uruguai foram referência.

Vacinação

Ainda que as medidas de prevenção sejam essenciais, como o uso de máscara e distância social, a grande arma de combate à pandemia é a vacina, de acordo com o pesquisador. “Só não podemos achar que a vacina resolve tudo”, ponderou. 

Ele relembrou que a vacina não bloqueia a transmissão, apesar de reduzi-la, por diminuir a carga viral em quem se contamina com a doença, “mas reduz drasticamente o número de internações e óbitos”.

“A sorte é que o brasileiro adora uma vacina e entende sua importância, porque a nossa realidade poderia ter sido ainda pior do que foi, já que a comunicação institucional falhou completamente”, afirmou.

Devido à desigualdade no ritmo de vacinação mundial e o surgimento de novas transmissões, além do conhecimento de que a proteção contra o vírus é temporária, Gomes disse que a imunidade de rebanho está descartada e refletiu sobre a dinâmica futura de vacinação.

Para ele, é provável que uma campanha de imunização contra a covid tenha que ser realizada anualmente ou até semestralmente, “dependendo de como a gente for aprendendo com as novas variantes e construindo novas vacinas”.

Fim da covid e futuras pandemias

O pesquisador ainda destacou a necessidade de aplicar a terceira dose ou mesmo a quarta em pessoas imunodeprimidas e de idade avançada, “porque ainda estamos subindo a montanha” e porque é difícil prever a tendência da covid.

“Existem uma série de fatores que mudam ao longo do tempo que a gente não tem como prever, então mesmo que a gente conseguisse tirar um número de como o vírus vai se comportar, ele vai estar errado. Tem a questão do comportamento humano, se a população vai seguir engajada ou não, tem o ponto das variantes, tudo isso”, listou.

Por causa disso, Gomes não acredita que a covid será erradicada em algum ponto, nem que 2022 será o último ano da pandemia: “Precisa haver primeiro uma redução no total de casos e que o período de crescimento entre num padrão que se repita ao longo dos anos, comportamento típico de uma endemia. Ainda não chegamos nesse ponto”.

Ele também advertiu que, como já afirmam outros especialistas, haverá novas pandemias no futuro ou epidemias mais frequentes, “principalmente por causa da degradação dos habitats silvestres, o que impacta a saúde dos animais e facilita que se infectem com novas doenças. Além disso, o crescimento urbano diminui a fronteira entre humanos e animais, facilitando que doenças pulem de um para o outro. Estamos facilitando o processo de criação de pandemias”.

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