O fundo do poço do pan-arabismo? Bahrein e Israel anunciam normalização de relações diplomáticas

A decisão, que faz parte de uma crescente tendência pró-ocidente na região do Oriente Médio, revoltou os palestinos e seus aliados

Benjamin Netanyahu e Donald Trump
Benjamin Netanyahu e Donald Trump (Foto: Reuters)
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Leonardo Sobreira, 247 - Após o anúncio por Donald Trump na última sexta-feira (11/09) de que o Bahrein e Israel estabeleceram relações diplomáticas formais, os palestinos reagiram com protestos expressivos. A medida vem em torno de um mês após os Emirados Árabes Unidos anunciarem um acordo semelhante. Assim, as duas nações se juntam ao Egito e à Jordânia como os únicos países árabes que reconhecem Israel.
Durante o final de semana passado, os palestinos em Gaza, em um protesto organizado pelo Hamas, queimaram imagens de oficiais israelitas, americanos, barenitas e emiradenses. Alguns inclusive falam em uma “terceira intifada”, nome dado às insurreições dos palestinos contra Israel. 

A Autoridade Nacional Palestina (ANP), o Hamas e a Organização para a Libertação da Palestina (PLO) se uniram temporariamente para condenar os acontecimentos, o que raramente acontece. Manifestações vieram também da Turquia, Irã, e partidos de oposição do Bahrein.

Segundo Saeb Erekat, o Secretário-Geral da OLP, “o acordo bareinita, israelita e americano pela normalização das relações agora faz parte de um pacote maior na região. Não é sobre paz, não é sobre a relação entre os países. Estamos testemunhando uma aliança, uma aliança militar sendo criada na região.”

Os dois acordos recentes são bastante parecidos. O think-tank estadunidense Council on Foreign Relations relata que o pacto entre Israel e Emirados Árabes inclui relações de negócios, turismo, voos, ciências, e diplomacia. No entanto, eles apontam, a área principal de cooperação entre os países será a segurança. Os dois países veem o Irã como uma grande ameaça, principalmente no que diz respeito ao seu apoio a grupos que ameaçam a segurança nacional destes países, como o Hezbollah e os Houthi. 

O acordo com o Bahrein segue na mesma linha. 

Em um artigo publicado em junho, o embaixador emiradense em Washington buscou apaziguar os ânimos dos palestinos, declarando que qualquer anexação de território palestino por parte de Israel prejudicaria o balanço de segurança da região. Já nessa época, era perceptível a aproximação entre os dois países.
Israel, por sua vez, utilizou uma linguagem estranha para conquistar o favor dos emiradenses. Eles prometeram apenas “suspender” a apreensão de terras palestinas. Assim, nunca garantiram que no futuro não continuem com seu programa, condenado internacionalmente, de expansão territorial.

Desta forma, as lideranças palestinas se mostram justificadas em julgar o novo posicionamento de seus vizinhos como uma verdadeira “traição ao pan-arabismo.”

A ANP adere a um conceito chamado “consenso árabe”, que diz que os países árabes só devem normalizar relações com Israel caso este adira a certas condições. Entre estas estão a retirada de sua presenca dos territórios ocupados após a Guerra dos Seis Dias de 1967, uma solução para a situação dos milhões de refugiados palestinos espalhados pelo mundo e a criação de um Estado palestino tendo Jerusalém Oriental como sua capital.

A aproximação do mundo árabe com Israel ilustra não somente a falta de solidariedade com os palestinos, mas talvez também a derrota da ideologia pan-árabe. Tendo durante seu ápice histórico previsto a formação de um bloco de nações unidas sob o objetivo de se afirmar como independente, a dinâmica atual regride a um passado triste, onde prevalece a dominação da região pelos polos econômicos mundiais. 

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