O racismo subliminar no mundo do futebol: inteligência versus força

Um novo estudo aponta a forma sutil de como o viés racial é expressado nos comentários sobre futebol

(Foto: LUSA/FELIPE TRUEBA)
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Leonardo Sobreira, 247 - Na retomada do futebol ao redor do mundo, uma cena se tornou comum: jogadores, comissão técnica e árbitros, antes do início de cada partida, se ajoelham e erguem o punho, em demonstração de solidariedade ao movimento Black Lives Matter. 

No entanto, as formas tomadas pelo racismo dentro do próprio futebol - e do esporte como um todo - são raramente discutidas. Ou, quando discutidas, a ideia de que a meritocracia prevalece no esporte faz com que o racismo seja, na maior parte dos casos, descartado. 

Declarações como a  de Vanderlei Luxemburgo, em entrevista ao Estado de S. Paulo, revelam a prevalência do racismo no meio: “Essa questão aflorou muito nos Estados Unidos. É uma discussão bem doida para se chegar ao consenso. O que houve lá (o assassinato de George Floyd) foi brutal, foi uma covardia. Eu discuto muito no futebol, que é a minha área. Acho que os atos de racismo no futebol são provocados e eu achava que deveriam ser deixados de lado. Dão muito prestígio, muita moral à maneira como se trata o racismo no futebol. Aquilo sim, que o cara fez (nos Estados Unidos) é racismo puro. Mas no futebol o cara brincar com o outro, gozar o outro para desestabilizar o camarada, e dizer que aquilo ali é ato de racismo, não sei. Mas é uma discussão longa.”

De acordo com os autores Jose Parry e Noel Parry, “[D]evido ao fato de que esportistas americanos negros começaram a trilhar seus caminhos antes da grande mobilização do Movimento por Direitos Civis nos anos 60, é comumente dito que o esporte é o ‘grande equalizador’ - um meio meritocrático que promove a mobilidade social dos negros, assimilação racial e integração. De fato, mais amplamente, o esporte é visto como o próprio modelo da meritocracia moderna - promovendo os valores da competição aberta, testagem regular e medição da habilidade de acordo com regras imparciais e padrões objetivos.”

No entanto, os autores continuam, “a entrada do esportista negro, por si só, não produz a igualdade de tratamento tanto no processo de seleção como dentro do time. Por exemplo, táticas como o empilhamento e centralidade são meios através dos quais membros de grupos étnicos são rebaixados à funções periféricas específicas ao invés de funções centrais nos times.”

A ideia de que negros e outras etnias não brancas são constantemente apequenados no meio esportivo foi reforçada por um estudo recente da Professional Footballers’ Association, que analisa o viés racista no meio dos comentaristas de futebol. O estudo analisou 2,073 declarações de comentaristas ingleses em 80 partidas de futebol da temporada 2019/2020 do futebol europeu (Serie A - Italia, La Liga - Espanha, Ligue 1 - França e Premier League - Inglaterra). Os comentários discutiram 643 jogadores diferentes de diversas raças e tons de pele. 

As principais conclusões do estudo foram: 

  • “Quando os comentaristas mencionam inteligência
    • 62.60% dos elogios foram direcionados aos jogadores com tom de pele mais claro. 
    • 63.33% das críticas foram direcionadas aos jogadores com tom de pele mais escuro. 
  • Quando comentaristas se referem à força, eles são 6.59 vezes mais suscetíveis a estar se referindo à um jogador comum tom de pele mais escuro. 
  • Quando comentaristas se referem à velocidade, eles são 3.38 vezes mais suscetíveis a estar se referindo à um jogador com um tom de pele mais escuro. 
  • Quando comentaristas se referem a estar se referindo à ética de trabalho, 60.40% dos elogios são direcionados à jogadores com um tom de pele mais claro.”

Assim, contrariamente ao que Luxemburgo disse em sua entrevista, o estudo conclui: “[P]ara realmente combater o impacto do racismo estrutural, temos que reconhecer e combater o viés racial. Esse estudo demonstra um viés evidente na maneira na qual discutimos os atributos dos jogadores de futebol baseado no tom de pele.

Comentaristas moldam nossa percepção de cada jogador, aprofundando qualquer viés racial do espectador. É importante considerarmos o longo alcance destas percepções, e como elas impactam os jogadores até mesmo depois de terminadas suas carreiras.”

No entanto, o esporte também é o meio através do qual o racismo pode ser combatido. Ele constitui um espaço de possível subversão. Instâncias como Jesse Owens, que fez história nas Olimpíadas de Berlim em 1936 ao conquistar diversas medalhas de ouro diante dos olhos de Hitler, assim pulverizando a ideologia de supremacia ariana, ou Tommie Smith e  John Carlos, que nas Olimpíadas de 1986 subiram ao pódio e ergueram os punhos em ato de solidariedade aos Panteras Negras, ilustram esse potencial. Basta resgatar a conexão entre “jogar”, no sentido amplo que inclui o senso de comunitarismo, e subversão.

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