O secularismo europeu e seu objetivo civilizatório

Após os atentados na Europa, líderes mundiais vêm alimentando uma ideologia perigosa, que além de poder gerar mais ataques, servirá principalmente para solidificar a divisão entre “civilizado” e “bárbaro”

Em protesto contra presidente francês, Emmanuel Macron, manifestantes queimam bandeira fa França em Peshawar, Paquistão. 28/10/2020
Em protesto contra presidente francês, Emmanuel Macron, manifestantes queimam bandeira fa França em Peshawar, Paquistão. 28/10/2020 (Foto: REUTERS/Fayaz Aziz)
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Leonardo Sobreira, 247 - Diante dos recentes ataques terroristas na França e na Áustria, as lideranças políticas destas nações vêm se portando de maneira extremamente intransigente. Emmanuel Macron, após o atentado em Nice, disse que “mais uma vez são os católicos que são agredidos em nosso país”, e que a França se encontra “sob ataque terrorista”. Sebastian Kurz foi além, dizendo que o atentado em Viena evidencia “uma luta entre a civilização e a barbárie”.

A divisão defendida por estes líderes entre um mundo católico e civilizado, e um outro, islâmico, agressivo e bárbaro, ingavelmente, é uma ótima estratégia para se mobilizar apoio popular sobre políticas contra a imigração. No entanto, quando analisamos as declarações mais a fundo, percebemos que elas evidenciam justamente o que há de errado na maneira como o princípio do secularismo é enxergado.

No secularismo, quando visto como um princípio que enfatiza a neutralidade das instituições públicas em relação a qualquer tipo de interferência religiosa, as religiões acabam sendo rebaixadas para uma espécie de submundo onde tudo que lá ocorre é irrelevante para a esfera pública.

Qualquer contribuição sensata que a religião possa oferecer à política é automaticamente descartada. 

Isso ignora instâncias importantes onde avanços sociais foram mobilizados por religiões. A teologia da libertação na América Latina, o ‘xiismo vermelho’ no Irã que levou à Revolução de 1979, a tradição de assistencialismo aos mais pobres no siquismo... Nada disso possui relevância alguma quando se diz que religião e política não devem se misturar.

As declarações de Macron e Kurz, mesmo que tenham sido dadas no calor do momento, ilustram perfeitamente esse menosprezo. 

O mais importante, no entanto, é notar a maneira na qual, ao relegar a religião, princípios como “civilização ocidental” e “racionalidade” vêm à tona. Em outras palavras, o secularismo, ao invés de expressar neutralidade, é um conceito extremamente normativo. 

Ao declarar guerra contra a barbaridade que são os ataques terroristas, o que temos que ter em mente é justamente o projeto implícito nesta empreitada de defesa de valores que não representam em ponto algum a tão dita neutralidade. 

O que na realidade está sendo defendido por estes líderes é o rebaixamento para ainda mais baixo das religiões, e a consequente exclusão de maneiras alternativas de se enxergar o âmbito social que não sejam tecnocráticas.  

O terrorismo islâmico, é claro, está longe de ser uma maneira de se exibir uma visão de mundo verdadeiramente religiosa, e deve ser condenado nos termos mais fortes. O problema é quando, nesta condenação, nos cegamos ao ódio e aceitamos em troca da segurança a repressão religiosa. 

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