Profissionalização: o segredo por trás das surpresas na Liga dos Campeões

O sucesso de equipes como RB Leipzig e Atalanta na Liga dos Campeões e Leicester City na Premier League sugere um caminho rentável e efetivo para times menores, fórmula esta que pena para ser adotada no Brasil

(Foto: Reuters | Alexandre Vidal / CRF)
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Leonardo Sobreira, 247 - Times menores vêm surpreendendo nas grandes competições europeias dos últimos anos. Adotando uma filosofia alternativa, - que enxerga a situação de clubes menores como principalmente uma de luta pela sobrevivência -, estes vêm desafiando expectativas, desbancando muitas vezes elencos bilionários. 

Nesta temporada, o RB Leipzig apresentou-se na Liga dos Campeões com performances baseadas em princípios ofensivos, o que, por sua vez, condiz com sua preferência por jogadores mais jovens. A filosofia é simples: comprar jogadores mais jovens ajuda em implementar um estilo de jogo mais rápido e, ao mesmo tempo, torna o clube vendedor de joias já “lapidadas”. 

Conforme o tempo passa, e as vendas são feitas por valores cada vez mais altos, o lucro se transforma em investimento, o que gradualmente aumenta o nível médio da equipe. Isso é nítido no caso do Leipzig, que graças a essa estratégia foi da terceira divisão à semifinal da Liga dos Campeões em apenas nove anos.

Por exemplo, ao vender o meio-campista Naby Keita ao Liverpool e o atacante Timo Werner ao Chelsea, o time alemão lucrou em torno de 100 milhões de euros, que já foram investidos em promessas, como o sul-coreano Hee Chan Hwang, o espanhol Dani Olmo e o francês Cristopher Nkunku. Todos estes jogadores possuem potencial altíssimo, e foram capturados por menos de 50 milhões de euros.

Um outro aspecto interessante do momento atual do Leipzig é o fato de seu técnico, Julian Nagelsmann, ter apenas 33 anos de idade. Seu estilo ofensivo e de pressão intensa, bem-sucedido no Hoffenheim, é a marca principal do time. Para ele, “ser verdadeiro aos seus princípios significa ter princípios primordiais que não são os princípios através dos quais jogamos, mas que ainda assim eu quero ver dentro de campo, ser corajoso na posse de bola e sem firula, sempre tentando implementar o que treinamos.”

Talvez o exemplo mais bem-sucedido desta estratégia seja o Leicester City, que se consagrou campeão da Premier League em 2015-16. A equipe fez contratações de times menores da Europa continental e, após a valorização destes jogadores, investiu inteligentemente no mercado de transferências e acrescentou profundidade ao seu grupo, que hoje compete com os maiores do futebol inglês por uma vaga nas competições europeias. 

Quando os estrelados N’Golo Kanté e Riyad Mahrez saíram do Leicester, juntos levantaram mais de 105 milhões de euros, o que foi responsável por trazer jogadores de alto nível ao clube, como Youri Tielemans e Caglar Soyuncu. Por pouco, a astúcia do Leicester não os levou à Champions League, e a única barreira que resta para o time se tornar realmente competitivo na Premier League é a continuação deste projeto de aprofundar o grupo de jogadores. 

Nestes dois casos, é notável a sintonia que existe entre todos os departamentos do clube. Desde os jogadores, passando pela comissão técnica, e indo até os dirigentes de futebol, o alinhamento de expectativas gera um ambiente onde todas as peças trabalham no mesmo sentido. Tudo isso, claro, é fruto do profissionalismo, que em clubes como o RB Leipzig e Leicester City constitui a própria identidade destes clubes. 

Muito além de apenas jogarem um futebol fluido, a estabilidade financeira destes clubes também é muito elogiada. Sendo clubes de menor estatura no cenário europeu, estes têm de arranjar maneiras de sobreviver em um ambiente onde os gigantes dos campeonatos nacionais possuem recursos astronômicos. 

A princípio, a disparidade de receita entre os clubes deveria criar uma barreira intransponível em relação aos times menores. No entanto, a estratégia de equipes como Leipzig e Leicester aponta para possibilidades alternativas, que são tão rentáveis quanto efetivas dentro de campo. 

É claro, existem outros caminhos. Por exemplo, o Atalanta, da pequena cidade de Bérgamo no norte da Itália, se tornou uma força consistente no campeonato italiano e, por pouco, não chegou à semifinal da atual Liga dos Campeões. Neste caso, jogadores mais velhos, muitos rejeitados por clubes de maior expressão, prosperam no sistema de Gian Piero Gasperini. A equipe italiana fez 98 gols nesta temporada, quebrando o recorde da Serie A, e vem se consolidando como uma das mais fortes do país, tendo terminado em terceiro nas últimas duas temporadas. O seu passado de rebaixamentos e mediocridade na liga são, claramente, coisas do passado para o time de Gasperini.

Mesmo que não seja um projeto baseado na venda de jogadores jovens aos maiores clubes europeus, o modelo do Atalanta ainda assim consegue ser viável financeiramente. O “quarteto mágico” composto por Josip Ilicic, Papu Gómez, Duvan Zapáta e Luis Muriel, todos na faixa dos 30 anos de idade, foi trazido ao clube por menos de 40 milhões de euros. 

Mais uma vez, o retorno positivo do Atalanta é resultado do alinhamento entre os departamentos do clube. Antonio Percassi, o magnata italiano por trás do sucesso do clube, sempre apostou na estratégia do equilíbrio financeiro, que ao mesmo tempo mantém um time minimamente competitivo. 

Em um ambiente onde a competitividade do futebol europeu se restringe cada vez mais a um grupo muito pequeno de clubes, o sucesso de equipes como o RB Leipzig, Leicester City e Atalanta dá esperanças aos clubes de menor expressão. O caminho adotado por estes times assegura-lhes uma certa competitividade e estabilidade financeira, mas a pedra no caminho é, como sempre, a da profissionalização. 

É somente quando todas as partes trabalham juntas que os resultados começam a vir. Nem mesmo os maiores clubes do mundo são capazes de quebrar essa regra. A derrota humilhante do Barcelona pelo Bayern de Munique é um caso emblemático disso. Um grupo de jogadores nitidamente envelhecidos, quase enferrujados, que aglutinaram na equipe pois não possuem quase nenhum valor de venda. As centenas de milhões de euros gastos em Dembelé, Coutinho e Griezmann, podem ser descritas como o pior investimento da história do clube catalão. Tudo isso fez com que, conforme as temporadas passavam, o Barcelona caísse de nível progressivamente. 

No Brasil, a falta de profissionalização da gerência do futebol evidencia uma situação ainda mais dramática. Como reportado no Financial Times, os maiores times do país, com algumas exceções, “são geridos como organizações sem fins lucrativos, com executivos poderosos escolhidos pelos membros dos clubes. Críticos dizem que o resultado é a má-conduta financeira e corrupção.” “Por conta do fato dos executivos não serem responsáveis a qualquer dono, eles não investem, eles prejudicam a marca. No final do mandato de três anos, eles vão embora.”
Alguns clubes vêm desafiando essa situação. O bom desempenho do Red Bull Bragantino e Athletico Paranaense, além da profissionalização observada no Flamengo, são sinais dos tempos que estão por vir. Os que se mostrarem contra esse desenvolvimento, mantendo-se presos na insistência de trabalhar somente com certos agentes “de confiança” e se recusando a implementar medidas de profissionalização, ao que tudo indica, ficarão para trás.

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