Sanções como mecanismo do colonialismo: a herança sombria de Woodrow Wilson

A política popularizada pelos Estados Unidos após a Primeira Guerra Mundial para manter o colonialismo é utilizada da mesma forma atualmente

Woodrow Wilson, segregação racial nos EUA e reunião da Liga das Nações
Woodrow Wilson, segregação racial nos EUA e reunião da Liga das Nações (Foto: Reprodução)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

247, por Leonardo Sobreira - Apesar de sua glorificação no imaginário popular, o ex-presidente americano Woodrow Wilson (1856-1924) foi o arquiteto de políticas internacionais derivadas diretamente do período colonial. O detentor do Prémio Nobel da Paz de 1919 por seu papel na criação da Liga das Nações e presidente entre 1913 e 1921 esteve envolvido em diversos escândalos racistas, até mesmo para o padrão da época. 

Após a Guerra Civil Americana (1861-1865), instalou-se o período da Reconstrução, no qual foram introduzidas emendas à Constituição que garantiram cidadania aos negros americanos. Dezesseis negros americanos se tornaram membros do congresso durante este período e  mais outras centenas ocuparam postos de menor escalão. 

No entanto, Wilson desmantelou estes avanços sistematicamente. Como descrito no portal americano Vox, o ex-presidente autorizou políticas de retorno à segregação em diversos departamentos governamentais. “Em um reunião de gabinete em 11 de abril de 1913 o general Albert Burleson propôs a segregação do Serviço Ferroviário Postal. Ele se opunha ao fato de que trabalhadores compartilhavam copos, toalhas e banheiros. Wilson aprovou o plano segregatório de Burleson, desejando que 'o assunto fosse resolvido gerando o mínimo de fricção'.”

É impossível separar o racismo de Wilson de sua defesa das sanções internacionais. Sob o pretexto de prevenção do conflito armado, Wilson, em discurso em Indianápolis em 1919, defende tais medidas “como um meio econômico, pacífico, silencioso, mortal [e] terrível remédio. Ele não custa uma vida fora da nação boicotada mas pressiona esta nação de uma forma que, ao meu ver, ninguém consegue resistir.”

No entanto, como apontado por Eva Nanopoulos, da Universidade Queen Mary, em Londres, sanções eram uma prática comum utilizada pelas potências colonialistas do século XIX. “Estas sanções não eram apenas limitadas à execução de obrigações internacionais ou à busca de objetivos geopolíticos, mas também foram adotadas para coletar dívidas, forçar o cumprimento de contratos e assegurar compensações.”

Para ela, é impossível só se enxergar um lado da moeda. Em outras palavras, o racismo de Wilson serviu de base para a criação do sistema de sanções internacionais. Através delas, as normas mantidas pelas organizações internacionais são forçadas, e os que as desafiam, como Coreia do Norte, Irã e China, são punidos. 

Assim, sanções, ao contrário da comum sugestão de que funcionam como mecanismo preventivo contra guerras, são na verdade, os próprios mecanismos de guerra utilizados pela hegemonia global.

O legado de Wilson, no entanto, deve ser subversivo. Este nos ensina sobre o atrelamento entre racismo, neocolonialismo, e o sistema internacional atual. Qualquer movimentação contra sanções internacionais deve ter em mente sua origem racista e colonialista. 

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247