Trump, o populismo de direita e a ameaça global da “democracia iliberal”

Ao redor do mundo, governos de extrema direita trabalham para fortalecer milícias e aparelhar o estado, o que põe em xeque a noção de que vivemos em uma democracia verdadeiramente liberal

Donald Trump
Donald Trump (Foto: Reuters)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Leonardo Sobreira, 247 - De acordo com o acadêmico e autor Van Gosse, estudioso de temas como cidadania, Nova Esquerda e democracia, “o mundo está se aproximando de um momento decisivo” no que diz respeito à estabilidade democrática. 

Ele elabora sua tese de que estamos entrando em um estado de “democracia iliberal” tendo como base a situação atual nos Estados Unidos. Ele lista como um dos fatores de ameaça: “[A] mobilização coordenada de milícias que ameaça oficiais eleitos em estados do Partido Democrático, com apoio aberto da Casa Branca.”

No que diz respeito às milícias, Van Gosse aponta para a possibilidade de atos de violência política. “Os nazistas marchando por Charlottesville, manifestações pró-armamento antes da pandemia, com homens vestindo armaduras e portando armas automáticas”, tudo isso está contribuindo para uma possível escalada, na qual ameaças se concretizam na forma de ataques físicos contra políticos da oposição, jornalistas e sociedade civil organizada. 

Além disso, ele aponta para uma possível criação de uma força paramilitar informal nos EUA. “Brutalmente violenta, a repressão policial, apontada diretamente contra minorias e dissidentes políticos é um problema estrutural da sociedade americana. Uma força paramilitar nacional controlada pela Casa Branca seria algo genuinamente novo, e extraordinariamente perigoso.”

Este processo violento se torna ainda mais palpável quando se leva em consideração o aparelhamento do Estado que Trump vem conduzindo. De acordo com Van Gosse, os EUA estão passando por um processo de “contra-revolução judiciária.” Ele cita como exemplo casos nos quais as divisões de zonas eleitorais de forma a conceder vantagem ao partido Republicano não foram tratadas como inconstitucionais e restrições no direito ao voto que foram mantidas pelas cortes. Estes casos exemplificam como Trump, e o partido Republicano como um todo, atacam constantemente a independência do poder judiciário.  

Assim, ele conclui que “[Devemos esperar por um cenário não haverá possibilidade de revisões jurídicas e restrições, e onde os remanescentes juízes independentes estarão sujeitos a intimidação pública e privada.” Atos de violência política, em tal cenário, não receberiam nenhuma condenação.

Ele também relaciona o contexto americano ao brasileiro, onde processos similares estão ocorrendo. “No Brasil”, diz ele, “Jair Bolsonaro preside sobre uma democracia ‘esquadrão da morte’, autorizando grupos que assassinam comunidades indígenas e afro-descendentes nas regiões rurais, enquanto a polícia urbana e milícias matam abertamente nas favelas.” 

Dadas as recentes revelações de tentativas de aparelhamento da Polícia Federal e acusações contra o poder judiciário, as duas conjunturas são análogas. 

Assim, ele conclui: “[A] maioria precisa se agrupar para derrotar Trump [e seus protótipos espalhados pelo mundo]. Não podemos permanecer onde estamos, ou vamos para frente ou para trás. A democracia, tudo pelo que batalhamos e ainda não conquistamos, está na linha.”

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247