Uma convergência inusitada, e potencialmente revolucionária: skinheads e reggae

A aproximação entre a subcultura da classe trabalhadora britânica e os imigrantes jamaicanos na Inglaterra na década de 1960 gerou o “2 tone”, cuja mescla de estilos musicais e de mensagem carrega um significado político expressivo

(Foto: Reprodução)
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Leonardo Sobreira, 247 - Um dos grandes mitos do imaginário popular a respeito da classe trabalhadora britânica, e, até certo ponto, mundial, se refere à noção de que suas subculturas estão intrinsecamente ligadas ao racismo. Desde o filme American History X, estrelando Edward Norton como neonazista skinhead, até as incontáveis associações por parte da imprensa entre estas e a discriminação racial, a reputação de grupos como os skinheads sofreu um golpe implacável.

No entanto, o racismo nunca foi parte constitutiva da classe trabalhadora, e muito menos de grupos como os skinheads. Uma breve história deste movimento em especial e de suas predileções musicais nos mostra que, na realidade, ele está em um polo oposto ao racismo. 

Cansados do lero-lero hippie na década de 1960, que representava somente a classe média da época, a classe trabalhadora buscava formas de se afirmar culturalmente. Diversas subculturas se formaram como resultado, entre elas os mods, os suedeheads e os skinheads.

Cada grupo se afirmava de um modo. Os mods eram conhecidos pelo seu apreço à alta costura italiana, e o grupo ficou conhecido pelos hábitos autodestrutivos de seus membros, como o consumo de anfetaminas. Os suedeheads surgiram como uma ala dos skinheads na década de 1970, e sua filiação era mais expansiva, incluindo membros dos setores de colarinho-branco. Os skinheads, por sua vez, eram compostos exclusivamente por integrantes da classe trabalhadora, e sua origem se deve ao fato da exclusividade classista associada aos mods. 

Na mesma época da formação dos skinheads, milhares de imigrantes caribenhos, vindos principalmente da Jamaica, desembarcaram no Reino Unido. Eles se concentravam nos centros urbanos da classe trabalhadora, em bairros como Notting Hill. O choque cultural foi intenso, mas a receptividade da classe trabalhadora britânica nunca levou, pelo menos no momento inicial, a nenhum tipo de hostilidade. 

Muito pelo contrário, houve uma troca cultural intensa entre as comunidades. É no âmbito da música que a confluência entre os grupos é mais perceptível. A subcultura como um todo era associada a gêneros como R&B, ska, reggae e dub. 

O impacto do gênero jamaicano na cultura musical britânica é nítido. Bandas como The Beat, The Selecter e The Special foram responsáveis pela renascença ska, mesclando elementos pop, punk e new wave com o ritmo clássico da Jamaica. O resultado é um som sem precedentes, orquestrado tanto por brancos como por pretos, homens e mulheres. O bordão de que “a música não conhece fronteiras” nunca foi tão verdadeiro como nas comunidades operárias da Inglaterra na década de 1960. 

Talvez a epítome deste encontro inusitado tenha tomado forma no quarto álbum de estúdio da banda inglesa The Clash, a obra-prima “Sandinista”. A influência reggae é clara em músicas como Junco Beat, The Crooked Beat, One More Time e One More Dub. Estas últimas duas realizaram algo inusitado na história da música: o isolamento do “drum and bass” tradicional do dub só que com os elementos mais agressivos e ásperos do punk. Até mesmo no álbum como um todo a influência jamaicana pode ser observada. O som do álbum é mais ecoado e denso comparado aos lançamentos anteriores da banda. 

Por trás do disco está o superprodutor Lee “Scratch” Perry, que havia colaborado com a banda já em 1977 no single Complete Control. A lenda do dub deixou sua marca na história musical britânica ao adicionar os elementos cortados e espessos tradicionais do dub, que podem ser observados como uma tendência crescente na música da época. 

Muitos se questionam como exatamente essa dinâmica de intensa troca cultural se transformou em tão pouco tempo em uma cultura hostil, racista e violenta. A guinada radical dos skinheads para a extrema direita, no entanto, não é nada mais, nada menos do que o resultado natural de um projeto político voltado a criar divisões que desviam a atenção da classe trabalhadora dos problemas que realmente a afetam. 

Barry “Bmore” George, ex-skinhead entrevistado pelo portal All That Is Interesting, clarifica: “Muitos me perguntavam se todos os skinheads eram racistas. Mas a resposta para essa pergunta depende de onde começamos a contar a história. Contando a história do começo, e tendo o conhecimento sobre a cultura skinhead e de onde ela veio, você saberá sobre o que ela realmente é. Você saberá exatamente onde ela foi distorcida. Ela começou como uma coisa, agora ela se ramificou e se tornou prejudicial.”

O grupo de extrema-direita National Front é o culpado direto pela mudança na subcultura skinhead. Eles viram no grupo uma suscetibilidade ao racismo, devido às suas dificuldades econômicas que facilmente poderiam ser vistas como “culpa” dos imigrantes, que supostamente “roubam empregos.” Infelizmente, essa concepção persiste até os dias de hoje, e ela deve servir de exemplo sobre o quão facilmente o racismo se torna parte da política da classe trabalhadora. 

No entanto, mesmo em situações de hostilidade, devemos nos lembrar de que esta não é natural, mas sim, como a história nos ensina, ensinada. A música, como meio de expressão emocional é, naturalmente, o meio onde o espírito de união universal é refletido, e devemos nos tornar a ela sempre para nos lembrarmos deste espírito. 

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