Uma Santa Sofia pluralista?

Decisão do presidente turco Recep Tayyip Erdogan de reconverter o monumento histórico em mesquita vai contra um dos pilares fundacionais da nação mediterrânea e põe em xeque legado de tolerância dos Otomanos

Antiga basílica de Santa Sofia, agora reconvertida em mesquita
Antiga basílica de Santa Sofia, agora reconvertida em mesquita (Foto: reuters)
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Leonardo Sobreira, 247 - Multidões em Istanbul se reuniram nesta sexta-feira (24/07) para a primeira congregação muçulmana em mais de 80 anos na Basílica de Santa Sofia. A decisão das cortes turcas de reverter o status de museu do monumento, tornando-o mesquita, foi celebrada pelo presidente Erdogan, assim como por grande parcela da população. 

Construída no ano 537, originalmente Santa Sofia foi uma catedral Cristã Ortodoxa do Império Bizantino, sendo convertida em mesquita como consequência da conquista Otomana de Constantinopla em 1453, e, finalmente, em museu em 1935. Essa história conturbada ilustra não somente o significado religioso do monumento, mas, principalmente, seu papel central no jogo político da região. 

Por exemplo, a política de Mustafa Kemal Ataturk de converter Santa Sofia em museu - comumente relatada como o triunfo da secularidade na Turquia - foi na realidade, como descrito pelo jornalista turco Yildiray Ogur, uma tentativa por parte da elite política turca de se mostrar moderna em face à onda liberal que se alastrava pelo mundo na época. 

Para alguns, a decisão teve por objetivo mandar uma mensagem para os Estados Unidos de que uma “nova Turquia” estaria emergindo, enquanto outros interpretam o movimento como um gesto para o Pacto dos Balcãs, que protegia a integridade territorial dos países da região. 

O liberalismo de Ataturk não era somente vazio, mas servia de pretexto para esconder intenções mais sombrias do regime. É extensivamente relatado o envolvimento do regime na repressão da liberdade religiosa, na ostracização dos Curdos e no genocídio armênio. 

Santa Sofia como museu, como herança da era Ataturk, nunca serviu como bastião do suposto secularismo e liberalismo turco. Isso também não torna a decisão de Erdogan automaticamente legítima. Dado seu histórico nacionalista, evidenciado por seus discursos acusando forças externas de tentar derrubar a economia turca, até a glorificação de seu passado através da duvidosa história de que era jogador de futebol, o projeto de Erdogan de conversão de Santa Sofia deve ser visto em toda a sua complexidade local. 

Santa Sofia, talvez o monumento mais majestoso do mundo, por mais ingênuo que possa parecer, não deve servir como instrumento político. Tanto um retorno à concepção de Ataturk como a manutenção do projeto de Erdogan instrumentalizam o monumento, de maneira que sua verdadeira essência é assim perdida.  

Para resgatá-la, como notado pelo autor e jornalista turco Mustafa Akyol, é necessário olharmos para a verdadeira herança otomana e muçulmana. Ele diz: “a grandiosidade dos otomanos está em seu pluralismo, ancorado no coração do Islã, e isso inspiraria diferentes movimentos hoje em dia - talvez até mesmo abrir Santa Sofia tanto para a adoração muçulmana como a cristã”.

Tratando-se de um sítio com peso histórico imenso, sem dúvidas comunidades cristãs se mostrarão opostas à decisão das cortes turcas, e uma reversão ao status de museu somente solidifica a herança imperialista no país. O único caminho que evita estes dois problemas é, por mais ingênuo que isso possa parecer sob um cenário de nacionalismo intenso, a transformação do monumento em um verdadeiramente pluralista. 

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