Volta do Manchester City ilustra a decadência do Fair Play Financeiro da UEFA

A decisão de manter o Manchester City em competições europeias solidifica a situação de desigualdade entre os clubes de maior poderio financeiro e os mais pobres

Manchester City e Sheikh Mansour
Manchester City e Sheikh Mansour (Foto: Reuters)
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247, por Leonardo Sobreira - Na última segunda-feira (13), a decisão do Tribunal Arbitral do Esporte de reverter a banição do Manchester City de participar em competições Europeias, como a Liga dos Campeões, foi muito criticada no meio esportivo. A decisão também decidiu reduzir a multa ao clube de 30 milhões de euros para 10 milhões. 

O embate surgiu após o jornal alemão Der Spiegel conseguir acesso a emails vazados da diretoria do clube que revelam que o dono do City, Sheikh Mansour, membro da família real emiradense  e integrante de diversos postos governamentais, financiou acordos de publicidade através de empresas além da linha aérea Etihad, maior patrocinadora do clube. Apenas 8 milhões de libras dos 67,5 milhões previstos foram providenciados pela Etihad, com o restante vindo de uma outra empresa de Mansour, a Abu Dhabi United Group.

O grande problema evidenciado por esta ocorrência remete ao fato de que, para cobrir possíveis incapacidades financeiras da Etihad, Mansour se utilizou de meios extraordinários que têm o potencial de estabelecer um precedente para que outros donos de clubes façam o mesmo. Desta forma, caso tais práticas não sejam banidas, donos bilionários poderiam se sentir livres para injetar milhões não declarados em clubes sem que haja qualquer punição para tal prática.

Além disso, sob um cenário de grande disparidade entre os clubes da Premier League, onde os “Top 6” clubes na temporada 2018-2019 geraram em média uma receita no mínimo 4 vezes maior que os últimos na lista, tais práticas colocam em risco a competitividade no esporte. Ao permitir ações como a de Mansour, clubes menos abastados terão o caminho bloqueado para manter qualquer competitividade financeira. 

A lei do Fair Play Financeiro (FPF), que entrou em vigor na temporada 2011-2012, visa justamente o abuso de poder por parte de donos multibilionários. Em seu site, a UEFA lista como os principais objetivos da lei: 

“Promover a capacidade econômica e financeira dos clubes, aumentando sua transparência e credibilidade;

Enfatizar a importância de proteger os credores e ter certeza de que os clubes resolvam suas pendências com empregados, autoridades sociais e tributárias e outros clubes de maneira pontual;

Introduzir mais disciplina e racionalidade nas finanças dos clubes; 

Encorajar clubes a operar somente com base nas suas próprias receitas; 

Encorajar gastos responsáveis para o benefício a longo prazo do futebol;

Proteger a viabilidade e sustentabilidade a longo prazo no futebol de clubes europeu”

Basicamente, a lei obriga os clubes a equilibrar suas contas e não falhar em cumprir suas obrigações salariais. No entanto, são os clubes de menor expressão os prejudicados pelas normas. 

Ao mesmo tempo que o City é perdoado, é impensável que o mesmo resultado seria aplicado a um time de menor expressão. Isso se torna evidente ao analisarmos casos semelhantes, como o do Paris Saint Germain. Ao adquirir Neymar e Mbappé na janela de transferências em 2017 por mais de 400 milhões de euros, assim violando a lei de que clubes não devem gastar mais que sua receita, sua punição também foi anulada.

No entanto, quando a lei é aplicada a times menores, as punições são severas. O Bournemouth, por exemplo, foi multado em 7.6 milhões de libras em 2016 e o Leicester City em 3.1 milhões em 2018. 

Sobre este ponto, Arsène Wenger, ex-técnico do Arsenal e atualmente Chefe de Desenvolvimento do Futebol, declarou: “sou favorável à abertura de mais oportunidades para o investimento. Os clubes que dominam a Europa hoje são aqueles que foram construídos e investiram durante uma era onde o FPF não existia. O FPF previne clubes emergentes que querem investir também.”

Assim, uma eventual reforma da lei do FPF precisa levar em conta duas considerações principais: a primeira é realmente evitar injeções de caixa além das receitas; a segunda é abrir exceções pontuais no caso de clubes que geram menos receitas.

Sendo um dos campeonatos nacionais mais competitivos na Europa, é necessário que todos os clubes da Premier League se posicionem fortemente contra a reversão do City. No entanto, também é necessário repensar a FPF para que ela contribua para a criação de uma competitividade maior nas ligas europeias. 

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