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Carbono azul fortalece papel dos oceanos no combate climático

Ecossistemas costeiros como manguezais e marismas capturam CO₂, protegem comunidades e ganham relevância nas estratégias climáticas globais

Carbono azul fortalece papel dos oceanos no combate climático (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil )
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247 - No contexto das ações globais para conter o avanço das mudanças climáticas, um aliado estratégico dos oceanos tem ganhado destaque entre especialistas e organizações ambientais: o chamado carbono azul. A capacidade de ecossistemas marinhos e costeiros de capturar e armazenar dióxido de carbono (CO₂) vem sendo apontada como uma ferramenta importante para reduzir os efeitos do aquecimento global e fortalecer soluções baseadas na natureza.

As informações foram divulgadas pela Agência Brasil em reportagem publicada nesta segunda-feira (8), data em que é celebrado o Dia Mundial dos Oceanos. Especialistas ouvidos pela reportagem destacaram a relevância dos ambientes costeiros para a regulação climática e para a preservação da biodiversidade.

O conceito de carbono azul está relacionado ao carbono absorvido e armazenado por ecossistemas marinhos como manguezais, marismas — áreas alagadas de água salgada — e pradarias marinhas. Esses ambientes funcionam como grandes reservatórios naturais de carbono, retirando parte do CO₂ da atmosfera e contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.

Oceanos desempenham papel essencial na regulação climática

Além de armazenarem carbono, os oceanos exercem funções indispensáveis para o equilíbrio ambiental do planeta. Segundo Natali Piccolo, diretora do Programa Costeiro Marinho da Conservação Internacional (CI-Brasil), a contribuição dos mares para a manutenção da vida é frequentemente subestimada.

“O oceano absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂ e produz mais da metade do oxigênio que respiramos, de acordo com dados da SOS Oceano”, afirma.

A especialista também chama atenção para a importância dos oceanos na dinâmica climática global. “A Amazônia é comumente chamada de ‘pulmão do mundo’, mas o oceano cumpre o equivalente a esse papel. O que não descarta, claro, a importância da floresta tropical na regulação do clima”, completa.

Além da captura de carbono, manguezais, marismas e pradarias marinhas oferecem abrigo para inúmeras espécies, sustentam atividades pesqueiras e funcionam como barreiras naturais contra erosão costeira, ressacas e eventos climáticos extremos.

Brasil reúne condições estratégicas para liderar iniciativas

O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário por abrigar o maior sistema contínuo de manguezais do planeta, localizado na costa amazônica. Essa característica confere ao país potencial para assumir protagonismo em iniciativas voltadas à proteção dos ecossistemas costeiros e ao desenvolvimento de projetos ligados ao carbono azul.

Apesar dessa relevância, a analista de conservação do WWF-Brasil, Marina Corrêa, avalia que o oceano ainda recebe menos atenção do que outros biomas brasileiros.

“O mar ainda é, em muitos aspectos, o sistema invisível da conservação brasileira. Historicamente, o oceano foi tratado como uma imensidão azul vazia, quando na verdade é um território vivo, cheio de biodiversidade, cultura, trabalho e modos de vida”, afirma.

A especialista lembra que o Sistema Marinho-Costeiro brasileiro ocupa aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a cerca de 40% do território nacional. Além disso, mais da metade da população brasileira vive em áreas ligadas a esse ecossistema. Mesmo assim, biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica continuam concentrando a maior parte da atenção política, pública e financeira destinada à conservação ambiental.

Comunidades tradicionais estão no centro do debate

O avanço dos projetos de carbono azul também tem provocado discussões sobre direitos territoriais e participação das populações que vivem e dependem desses ambientes naturais.

Para Marina Corrêa, iniciativas de longo prazo precisam garantir que comunidades tradicionais sejam efetivamente incluídas nos processos de decisão e na distribuição dos benefícios econômicos gerados pelos projetos.

“O sucesso dessas iniciativas não deve ser medido apenas pela quantidade de carbono armazenado, mas também pela capacidade de fortalecer territórios, conservar a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas que historicamente cuidam desses ecossistemas”, destaca.

A preocupação ganha relevância diante dos impactos provocados pela degradação desses ambientes. Quando manguezais e outras áreas costeiras são destruídos, deixam de fornecer serviços ambientais essenciais, como a manutenção dos estoques pesqueiros, a proteção natural das regiões litorâneas e a conservação da biodiversidade.

Além disso, a degradação desses ecossistemas pode liberar para a atmosfera grandes quantidades de carbono acumuladas ao longo de décadas ou até séculos, ampliando os efeitos do aquecimento global.

Proteção dos oceanos envolve economia e segurança alimentar

Organizações ambientais ressaltam que a conservação dos oceanos vai muito além da questão climática. A saúde dos ecossistemas marinhos está diretamente ligada à geração de renda, à segurança alimentar e à manutenção de culturas tradicionais em diversas regiões do mundo.

Natali Piccolo destaca que a pesca continua sendo uma das principais atividades econômicas associadas aos oceanos.

“Globalmente, a maior renda do oceano é gerada pela pesca, que sustenta 100 milhões de empregos e produz 80 milhões de toneladas de pescado marinho, além de 30 milhões de toneladas da aquicultura marinha, o que sustenta a segurança alimentar de milhares de pessoas, por fornecer proteína de alta qualidade”, afirma.

No Brasil, cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais dependem diretamente da preservação dos ecossistemas marinhos, segundo dados do Registro Geral da Atividade Pesqueira, vinculado ao Ministério da Pesca e Aquicultura.

Estratégias para ampliar a conservação marinha

Diante desse cenário, organizações da sociedade civil e instituições públicas têm buscado ampliar ações voltadas à proteção dos ambientes costeiros e oceânicos.

Segundo Natali Piccolo, a atuação da Conservação Internacional busca integrar proteção ambiental, restauração ecológica e desenvolvimento social.

“Nossa atuação é sistêmica, para preencher as lacunas da proteção, manejo e restauração dos ecossistemas marinhos (manguezais, recifes de corais, restingas), enquanto ajudamos os povos do mar a prosperarem, bem como a sociedade brasileira a desenvolver o conhecimento e a experiência do oceano”, afirma.

Já o WWF-Brasil estruturou sua estratégia para os próximos anos em quatro grandes eixos: fortalecimento das áreas marinhas protegidas, conservação e recuperação de recifes de coral, promoção de uma transição energética justa e ampliação das ações de governança dos oceanos no Brasil e em fóruns internacionais.

Com a crescente valorização do carbono azul nas agendas climáticas globais, especialistas avaliam que a proteção dos ecossistemas costeiros tende a assumir papel cada vez mais relevante nas estratégias de enfrentamento da crise climática e de preservação dos recursos naturais.