Tom Engelhardt: viveremos no inferno se não revertermos o aquecimento global

Jornalista alerta para a crise geral da sociedade e do mundo e aponta que a situação climática do Planeta é alarmante

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(Foto: Secretaria de Energia e Mineração)


Artigo de Tom Engelhardt* publicado originalmente em seu site em. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247.

Vida Extrema

Ou a 3ª Guerra Mundial (4ª e 5ª), Estilo-Clima

Nas últimas semanas, a Corte Suprema (dos EUA) recentemente lotada de direita derrubou uma lei de mais de cem anos de New York que restringia o porte de armas guardadas e um precedente jurídico de mais de 50 anos sobre o aborto. Neste ínterim, a CPI que investiga o episódio da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 está apresentando na televisão, com detalhes gráficos, como o nosso [dos EUA] último presidente tentou subverter a eleição de 2020. Obviamente, a inflação continua a causar tumultos; os preços da gasolina aumentaram a níveis recordes; a brutal guerra na Ucrânia segue adiante infindavelmente; o governo Biden parece estar cada vez mais desgraçado; e o próprio presidente [Biden], está cada vez mais velho e mais fora do alvo. Em resumo, o nosso mundo parece estar numa desordem de fazer manchetes, enquanto o nosso destino aqui neste país – muito obrigado, ministros da Corte Suprema, (des)juízes [(in)justices, no original em inglês] Alito e Thomas, sem falar do The Donald [Trump] e equipe! - permanece remarcavelmente disponível para ser tomado pelos piores dentre nós.

Em outras palavras, há tanta exaltação que parecemos estar infindavelmente nas fogueiras deste momento político. Não surpreende, portanto, que quando se fala sobre calor, a mais significativa estória da nossa época, sem dúvida de todos os tempos, quase escapa das nossas telas de radar. Quero dizer, vamos deixar claro uma coisa, caso você não tenha notado: você e eu já estamos num planeta diferente. E, não, não estou pensando sobre estar numa nova guerra fria, ou em Donald Trump e a última eleição presidencial, ou em Ron De Santis [o atual governador da Florida] e o próximo, nem mesmo do último surto da infindável pandemia do COVID-19.

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Estou falando sobre estarmos num planeta que já está se superaquecendo não só politicamente ou militarmente, mas no sentido mais literal possível. Estou falando sobre a mudança climática, obviamente. E não pense que estou focalizando apenas no superaquecimento futuro deste planeta. O que eu tenho em mente é este próprio presente palpável mesmo. Estou falando sobre um país, os Estados Unidos, que – com as cúpulas de calor que recentemente estão sobre partes significativas deles – está batendo recordes sazonais de calor como louco. Phoenix (45,5ºC), Tucson (43,8ºC), El Paso (41,7ºC) e Las Vegas (40ºC) todos bateram os recordes de calor de junho, bem como Birmingham, Chicago, Little Rock, Jackson, Memphis, Shreveport e Nashville. Isto só para começar uma crescente e cada vez mais efervescente lista – mesmo quando a Corte Suprema acaba de agir para assegurar que cada vez mais emissões de gás-estufa continuem a serem despejadas na nossa atmosfera.

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Apenas recentemente – também, sem dúvida, pela primeira vez – o Centro de Previsões do Serviço Nacional do Clima [nos EUA]  advertiu a 100 milhões de estadunidenses – e este não é um erro de imprensa – desde a costa do Golfo [do México] até os Grandes Lagos, e ao leste até as Carolinas, que eles devem permanecer dentro de casa devido a uma perigosa onda de calor. Para que você não pense que estou ignorando o sudoeste e o oeste, deixe-me adicionar que estas regiões estão agora no terceiro ano de uma mega-seca pior do que qualquer uma nos últimos 1.200 anos pelo menos. Por exemplo, considere os dois mega-incêndios recordes no Novo México – os quais simplesmente não param de queimar dois meses depois do seu início (sendo que a principal temporada anual de incêndios no oeste ainda nem começou). E não se esqueça aquelas enchentes recordes nos últimos 500 anos no Parque Nacional de Yellowstone, ligadas similarmente com esta estação de superaquecimento, e os dilúvios de chuvas e o derretimento da neve nas montanhas.

E, sim, estou pensando sobre o Ártico, que está se aquecendo (e derretendo) sete vezes mais rápido do que o resto do planeta. Estou pensando sobre a China – que está lutando com ondas recordes de calor e enchentes devastadoras. Estou pensando sobre um Japão, que está vivenciando a sua maior onda de calor de todos os tempos. Estou pensando sobre a onda de calor da primavera na Índia – que produziu o seu mês de março mais quente desde que se registram as temperaturas por lá; que passou boa parte do sul da Ásia; e, segundo os cientistas, agora é 30 vezes mais provável de ocorrer novamente do que teria sido verdade anteriormente. E não se esqueça tampouco da chuva extremada e dos recordes de enchentes naquela região.

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Também estou pensando sobre a ressequida África oriental que está vivendo (ou morrendo) com uma seca devastadora. Estou pensando sobre a capital provincial do sudeste do Irã, onde a temperatura recentemente bateu o recorde de 52ºC. Estou pensando sobre ondas de calor no sul da Europa que chegaram cedo, historicamente, com novos recordes – como no caso da Espanha.

E isto é só para começar uma longa lista. E, pense você, que o que eu estou descrevendo aqui é um pesadelo de ondas de calor e outras formas extremas de clima que estão apenas começando e, salvo surpresas, ficarão cada vez mais severas nas décadas futuras. Estamos sobre partes deste planeta que estão se tornando potencialmente inabitáveis e, sem dúvida, transformando centenas de milhões de pessoas e, possivelmente, um bilhão ou mais de nós, em refugiados do clima a caminho do... bem, do inferno.

E se a democracia dos EUA já for história passada?

Também estou falando de um país [os EUA] onde, nas eleições de novembro próximo [para o Congresso, na metade do mandato presidencial] e em novembro, dentro de dois anos [presidenciais], os eleitores estadunidenses não só selarão o seu próprio destino, mas também o de boa parte do mundo. Poderíamos garantir pelo menos mais seis anos de combustíveis totalmente fósseis, nos quais o segundo maior emissor de gases-estufa do planeta (e, historicamente, o maior de todos os tempos) imobilizado num abraço Trumpiano, parecido com o que está envolvendo agora a Suprema Corte e também muitas outras cortes mais baixas, graças ao ex-presidente e Mitch McConnell [líder republicano de Trump no Congresso dos EUA]. Em outras palavras, nós poderíamos garantir que nada – coisa alguma – seria feito nacionalmente para compensar o superaquecimento deste nosso cada vez mais atormentado planeta.

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Além disso, dado o controle do Congresso pela presente versão do Partido Republicano e a presidência [de Biden], haverá outros problemas à frente. Considere possível, para começar, que a sua liderança [dos EUA] – em modo distintamente Trumpiano – se arriscaria a transformar (provavelmente, com tiros de fuzil AR-15) as teorias loucas do nosso ex-presidente sobre o sistema eleitoral estadunidense em uma realidade potencialmente autocrática. Naquele ponto, a democracia dos EUA seria história passada e, então, que venha o calor! 

Ou senão, seja bem-vindo aos EUA, Vladimir Trump (ou Vladimir DeSantis! Ou outro qualquer, preencha o espaço em branco você mesmo!)

É o Inferno na Terra? Esta era nada mais do que uma frase usada para situações extremas, uma metáfora de primeira-classe. No entanto, cada vez mais, está se tornando uma descrição cada vez mais acurada das nossas vidas neste planeta e algo ao que teríamos que nos acostumar. A não ser que, para muitos de nós em tal futuro, não haja outra maneira de fazê-lo.

Não há necessidade de focalizar em valores atípicos como aquelas temperaturas de 49ªC da primavera na Índia e no Paquistão, ou os 52ºC no Irã, já que climas mais extremos de todos os tipos simplesmente serão a vida na Terra. Na verdade, mais cedo ou mais tarde, teremos que chamar isto de clima extremo, não é verdade? Cada vez mais, isto será simplesmente o clima. Ponto.

E talvez aqui esteja a coisa mais enervante de todas: de algum modo, neste país [nos EUA], a mudança climática ainda deverá tornar-se uma parte significativa do debate nacional, ou da política convencional. Isso não é um tema que os Democratas sejam capazes de operar com sucesso ainda. E isso não poderia ser mais estranho, porque – à exceção de uma guerra nuclear – este é o nosso próprio futuro apocalíptico que está bem à frente dos nossos olhos; não está escrito nas estrelas, mas no próprio mundo no qual estamos vivendo agora. O que poderia ser mais convincente? Com exceção de, pelo fato de, explique-o como quiser, não o é

Sim, isto foi, por um breve momento, parte do projeto falido do 'Build Back Better' (Reconstruir Melhor) de Joe Biden (muito obrigado, barão do carvão Joe Manchin, mas agora simplesmente se foi. Pior ainda, desde que Biden chegou na Casa Branca, a sua equipe de política exterior tem se focado em promover uma nova guerra fria com a China. A meta desta é:  reunir aliados e outros contra uma China emergente e militarizar ainda mais a relação entre as duas superpotências do mundo. Quero dizer, você poderia pensar que os dois maiores emissores de gases-estufa do presente momento, a China e os EUA, sentiriam um impulso natural de trabalharem juntos para mudar a estrutura energética deste planeta. Mas não temos essa sorte. (Na verdade, quando foi a última vez que você ouviu qualquer coisa sobre John Kerry, o enviado especial da presidência Biden para a mudança climática?)E aí, obviamente, adicione a guerra na Ucrânia (grato de monte, Vlad!), que está apenas fossilizando ainda mais este planeta e protelando um movimento significativo na direção da energia verde e limpa para um futuro incerto. Na verdade, na ausência de gás natural e petróleo da Rússia, alguns países europeus desesperados estão até considerando voltar a usar carvão – que é a pior de todas as fontes de energia emissoras de carbono! Parece ser auto-evidente que deveria se negociar imediatamente um fim para aquela guerra, não só pelo sofrimento dos ucranianos numa terra cada vez mais coberta de destroços, ou pelos miseráveis soldados russos que estão lutando a guerra de Vlad, mas pelo resto de nós, pelo próprio planeta.

Será este o maior desastre da história humana?

Me desculpem por um momento, mas eu gostaria de gritar!

Honestamente, não esperem que a mudança climática seja tanto uma questão, se for o caso, nas eleições de novembro [nos EUA]. E os seis juízes conservadores da Suprema Corte, que não irão a lugar algum tão cedo, já estão trabalhando duro para assegurar que nenhum governo futuro dos EUA será capaz de fazer qualquer ação significativa para mitigar os efeitos do aquecimento global.

Em resumo, estou falando sobre um planeta no qual eu sequer esperava estar vivendo e um que eu certamente não quero legar aos meus filhos e netos. O que eles fizeram para merecer isso?

E não poderia ser mais estranho que nós simplesmente não o entendamos. Sim, há muitos cientistas e um certo número de pessoas jovens que entenderam plenamente o problema e estão tentando fazer o melhor que podem para enfrentar isto. Porém, este país como um todo (não menos que o mundo), não tem uma chance no... sim, posso até dizê-lo mais uma vez... no inferno.Caso contrário, agora nós estaríamos nos mobilizando para lidar com o aquecimento global da mesma maneira que o presidente Franklin Roosevelt nos mobilizou para a Segunda Guerra Mundial. Porque a verdade é que, se não nos mexermos muito mais rapidamente do que agora, o clima, efetivamente, poderá se tornar a nossa 3ª Guerra Mundial (e a 4ª e a 5ª). Se assim for, isto vai envergonhar o presidente russo. Para usar a velha frase de Kurt Vonnegut sobre a Segunda Guerra Mundial, isto será um tipo novo de “matadouro”. E, no entanto, por mais que seja lógico, tal mobilização ainda não parece estar minimamente em pauta e, pior ainda, se a política estadunidense seguir no seu rumo atual, isto não estará em pauta em qualquer futuro imaginável.

E no entanto, ao final de contas, isto simplesmente não pode ser, será? Em algum nível, isto é tão óbvio e também não é muito complicado. Nós – e isto significa uma boa parte do planeta, não apenas aqueles de nós aqui nos EUA – precisamos nos mobilizar não uns contra os outros, por uma vez, mas contra aquilo que está claramente se tornando o maior desastre da história humana.

Parem e pensem sobre isto por um momento. Dada a nossa história, isso nos diz algo, não é verdade?

E, no entanto, os homens – e eles só eram homens – que eu chamei de “terraristas” há muitos anos, porque eles e as gigantes companhias de petróleo que eles dirigem, parecem estar tão completamente dedicados em devastar o planeta (algo que eu chamei de “terracídio”) para gerar os lucros mais imediatos e uma vida luxuosa para eles mesmos, ainda parecem estar no comando. Sim, neste século, Washington executou uma desastrosa guerra de 20 anos contra o terrorismo, porém jamais contra os verdadeiros terraristas deste planeta – tanto se Republicanos ou Democratas estivessem no poder.

Como eu escrevi sobre eles há quase uma década:

“Aqueles que comandam as gigantes corporações de energia sabiam muito bem o que estava ocorrendo e, obviamente, poderiam ter lido a respeito nos jornais, como o resto de nós. E o que eles fizeram? Ele puseram o seu dinheiro para financiar 'think tanks', políticos, fundações e ativistas empenhados a enfatizar 'dúvidas' sobre a ciência da mudança climática (já que esta efetivamente não podia ser refutada); eles e os seus aliados promoveram energeticamente aquilo que ficou conhecido como a negação climática. E então, eles mandaram os seus agentes e lobistas e o seu dinheiro para o sistema político, para assegurar que ninguém interferiria na sua pilhagem. E, neste ínterim, eles redobraram os seus esforços para arrancar cada vez mais e às vezes 'mais suja' energia do solo de maneiras cada vez mais dura e mais suja.”

E, na verdade, muito pouco mudou até hoje – à medida que as companhias gigantes de energia na Ucrânia prosperam no momento, enquanto o preço do petróleo e do gás natural sobe às alturas e o resto de nós continuamos a sufocar.

Não é porque não haja nada a fazer. O preço da energia renovável tem baixado continuamente há anos. Se os governos focalizassem o tipo de atenção necessária para mudar o nosso ambiente energético que agora é direcionado às guerras, quentes e frias, e o tipo de dinheiro que agora vai para o Pentágono e os seus equivalentes globais, não duvidem nem por um segundo que nós poderíamos ir na direção de um mundo genuinamente renovável.Nós fomos advertidos inúmeras vezes pelos principais cientistas deste planeta que as coisas não só estão ficando pior mas, a não ser que a humanidade se refocalize de maneira abrangente, as coisas ficarão ainda piores. A questão é: quando será que a dor da mudança climática se tornará grande demais para continuar a ser ignorada; e será que, então, será tarde demais? Eu espero (pelos infernos) que não!

(*) Tom Engelhardt criou e opera o website www.tomdispatch.com. Ele também é o cofundador do 'American Empire Project' e o autor da altamente elogiada história do triunfalismo dos EUA na Guerra Fria – 'The End of Victory Culture'. Ele é membro do 'Type Media Center' e o seu sexto e mais recente livro é 'A Nation Unmade by War'.

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