A transição

Como se deu a mudança editorial da Globo em relação aos protestos. Com os manifestantes batendo em sua porta, o que se viu a partir de então foi uma completa adesão do grupo Globo aos manifestos

No último dia 17 de junho, uma segunda-feira, quando as manifestações já haviam ganhado dimensão nacional, em São Paulo ela se concentrava-se no Largo do Batata e se iniciava uma caminhada pela Avenida Brigadeiro Faria Lima. Em Brasília, os manifestantes se reuniam em frente ao Congresso Nacional e, no Rio de Janeiro, na Avenida Rio Branco, no centro da cidade.

A cobertura televisiva daquela noite tinha como foco as três cidades, com imagens e atualizações ao vivo sendo transmitidas pelos canais noticiosos, com exceção da Globo News, que concentrava majoritariamente no Rio de Janeiro e em Brasília, apesar de uma de suas centrais de jornalismo se localizar na capital paulista, onde são apresentados alguns dos principais telejornais nacionais do Grupo.

Na Globo News, a apresentadora Leilani Neubarth, em tom de alarde, reportava o crescente número de pessoas que se reuniam no centro carioca como "impressionante", e os repórteres davam updates sobre congestionamentos e a situação do trânsito, já que as principais vias de acesso no centro da capital fluminense haviam sido ocupados.

Mais tarde, quando em Brasília manifestantes já ocupavam o teto do Congresso Nacional, Leilani comentava o corte de cabelo dos manifestantes, a quem categorizava como "punks" e "anarquistas". Sobre São Paulo, no entanto, nenhuma informação sobre a multidão que se separava subindo em direção à Avenida Paulista e outros rumo à Avenida Luiz Carlos Berrini, endereço da sede da emissora na cidade.

O tom de alarde da cobertura continuou, mas não por muito tempo. Oriundos da Ponte Estaiada e da Av. Berrini, os manifestantes ocupavam a porta da sede da emissora em São Paulo.

A multidão que batia à sua porta confirmou a suspeita de que a Globo era também um dos alvos dos protestos. Dias antes, um grupo menor manifestava na porta da emissora em São Paulo bem como em várias cidades do país, onde repórteres da emissora eram hostilizados quando tentavam cobrir os protestos. Naquela mesma tarde no Largo do Batata, Caco Barcelos foi recebido com agressividade por manifestantes que gritavam palavras de ordem para que o repórter e a equipe se retirassem.

Em Brasília, a Polícia Militar era incapaz de conter os manifestantes do telhado do Congresso Nacional e no Rio a situação em frente à Assembléia Legislativa se tornava violenta com a tentativa de invasão do prédio. Enquanto isso, na sede da emissora em São Paulo, o clima também era tenso. Os funcionários estavam sitiados. Ninguém entrava. Ninguém saía. Do lado de fora, manifestantes ocupavam todas os acessos ao edifício gritando palavras de ordem e ofensas contra a emissora.

Diante da situação na porta de sua sede em São Paulo, o que se viu a partir de então foi uma visível mudança de atitute da Globo em relação aos protestos.

Na Globo News a mudança na cobertura foi brusca. Em questão de minutos, o tom de voz da apresentadora Leilani Neubarth mudou. De uma inflexão tensa, sua voz se tornou suave e calma. O mesmo se repetiu com os outros repórteres e comentaristas. O cuidado na descrição das motivações e dos manifestantes também foi evidente. A massa de gente nas ruas passou a ser descrita apenas com termos elogiosos.

Mais foi apenas quando entrou no ar o Jornal Nacional, com uma assustada Patrícia Poeta, é que ficou clara a seriedade com que a emissora tratava a situação. Com uma entrada ao vivo a partir do helicóptero da emissora em São Paulo, foi mencionado pela primeira vez que manifestantes gritavam palavras de ordem contra a Globo, seguido da leitura de um editorial por Patricia Poeta, onde eles se defendiam, dizendo ter feito até ali uma cobertura isenta dos protestos.

Com os manifestantes batendo em sua porta, o que se viu a partir de então foi uma completa adesão do grupo Globo aos manifestos, mesmo tendo dias antes tratado os manifestantes como "ignorantes políticos" e "carente de causas", como mencionado no comentário de Arnaldo Jabor. Dos impressos aos programas de auditório, o coro passou a ser unânime. A Globo se unia aos manifestantes demandando por mudanças, no que só pode ser descrito como uma tentativa dissimulada de parecer que eles não são também objeto de descontentamento.

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