Ali Kamel diz que Globo não faz política. Então, tá

"A Globo faz jornalismo, não faz campanha, nem contra nem a favor. Em respeito ao público", diz Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, em artigo publicado neste sábado; era uma responsa a uma análise que apontava a derrota da Globo na tentativa – correta, diga-se de passagem – de derrubar Michel Temer; Kamel não menciona o papel da emissora no golpe contra a presidente legítima Dilma Rousseff, que acabou colocando Temer e companhia no poder

Protesters, social movements and activists of the Workers Party, do protest against the impeachment of the President of Brazil Dilma Rousseff in the city center of São Paulo. April 17, 2016.
Protesters, social movements and activists of the Workers Party, do protest against the impeachment of the President of Brazil Dilma Rousseff in the city center of São Paulo. April 17, 2016. (Foto: Leonardo Attuch)
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247 – "A Globo faz jornalismo, não faz campanha, nem contra nem a favor. Em respeito ao público", diz Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, em artigo publicado neste sábado.

Era uma responsa a uma análise que apontava a derrota da Globo na tentativa – correta, diga-se de passagem – de derrubar Michel Temer, em razão das denúncias da JBS.

Kamel não menciona o papel da emissora no golpe contra a presidente legítima Dilma Rousseff, que acabou colocando Temer e companhia no poder.

Leia, abaixo, seu artigo:

Globo faz jornalismo, não campanha contra ou a favor

Após a leitura de "Globo derruba JN, mas perde queda de braço com Temer" (Poder, 4/8), chego à conclusão de que o colunista Nelson de Sá não respeita o jornalismo que o próprio jornal em que trabalha pratica: a Folha de S.Paulo.

Desde que a crise provocada pela delação da JBS eclodiu em 17 de maio, a Folha tem publicado tudo sobre as acusações contra Temer, num tom bastante crítico.

Publicou três editoriais, um pedindo a renúncia, outro aconselhando deputados a votar a favor da autorização para que o Supremo julgue a denúncia contra o presidente e um terceiro lamentando a decisão da Câmara.

No dia seguinte à votação, a manchete do jornal era: "Temer usa máquina, demonstra força e barra denúncia na Câmara". Em página interna, o título era ainda mais forte: "Balcão de negócios com recurso público garante vitória governista".

Os colunistas políticos também não mediram palavras. Um deles batizou sua coluna assim: "A vitória da mala". A Globo jamais usou em seus telejornais manchetes tão duras, mas também cobriu a crise política iniciada com as acusações contra o presidente Temer, sem nada esconder, com isenção, como fez com as denúncias que envolveram os ex-presidentes Lula e Dilma. Uma prova de que não protege ninguém.

Nelson de Sá preferiu ignorar tudo isso e dizer que desde o dia 17 de maio a Globo e a Globo News "atiram sem intervalo contra Temer", esquecendo-se do que a própria Folha faz.

Na versão on-line do artigo, diz que a GloboNews entrevistou Fernando Henrique Cardoso quando este pediu a saída de Temer, mas omite que a Folha publicou artigo dele antes, em 26 de junho, pedindo o mesmo (a entrevista na GloboNews foi no dia 11 de julho).

O colunista cita um almoço rotineiro do diretor institucional do Grupo Globo com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, insinuando uma conspiração inexistente, mas novamente omite que Maia sempre jurou lealdade a Temer e provou isso na votação e nos dias que a antecederam. Que conspiração?

Destaca, vergonhosamente, que o deputado Sérgio Zveiter, o relator da CCJ na Câmara, cujo parecer foi contrário a Temer, advogou, anos atrás, para a Globo, como se isso, de algum modo, pudesse ser prova de que a Globo influenciou em sua nomeação.

E por fim pergunta se, vitorioso, Temer reduzirá investimentos publicitários do governo na Globo, como se isso pudesse ter algum algum impacto no compromisso da emissora com a notícia.

A Globo tem orgulho de seus incontáveis anunciantes, porque são eles que garantem a sua independência: dependendo de muitos não depende de nenhum. Muito menos de governos, a quem nada deve, em nenhuma circunstância.

E quando o interesse público impõe, a Globo não hesita em cancelar a sua grade de programação, e os seus espaços comerciais, para bem informar os seus espectadores: foi assim no impeachment de Collor e de Dilma, foi assim na votação da denúncia de Temer, com excelente resposta da audiência, interessada no futuro do Brasil.

Se a Globo foi a única a ter essa atitude, trata-se de um mérito, não de um defeito: o interesse do país em primeiro lugar. A Globo faz jornalismo, não faz campanha, nem contra nem a favor. Em respeito ao público. Por tudo isso, essa coluna de Nelson de Sá, sem base na realidade, destoa do bom jornalismo praticado pela Folha.

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