Arnaldo Bloch critica palestra de Bolsonaro em carta à Hebraica

O jornalista Arnaldo Bloch publicou nesta sábado uma carta aberta ao Clube Hebraica do Rio, que acolheu na semana passada uma pestra do deputado Jair Bolsonaro, que fez uma série de declarações de cunho racista; "Um judeu que presta honrarias (não foi uma entrevista, ou uma sabatina crítica) a um indivíduo que persegue seus semelhantes está, no mínimo, fora de foco. Citar o fato de que Bolsonaro 'gosta de judeus', como se fez em redes sociais, é aviltante: sugere que gostar de judeus é habeas corpus moral para molestar outros grupos"

O jornalista Arnaldo Bloch publicou nesta sábado uma carta aberta ao Clube Hebraica do Rio, que acolheu na semana passada uma pestra do deputado Jair Bolsonaro, que fez uma série de declarações de cunho racista; "Um judeu que presta honrarias (não foi uma entrevista, ou uma sabatina crítica) a um indivíduo que persegue seus semelhantes está, no mínimo, fora de foco. Citar o fato de que Bolsonaro 'gosta de judeus', como se fez em redes sociais, é aviltante: sugere que gostar de judeus é habeas corpus moral para molestar outros grupos"
O jornalista Arnaldo Bloch publicou nesta sábado uma carta aberta ao Clube Hebraica do Rio, que acolheu na semana passada uma pestra do deputado Jair Bolsonaro, que fez uma série de declarações de cunho racista; "Um judeu que presta honrarias (não foi uma entrevista, ou uma sabatina crítica) a um indivíduo que persegue seus semelhantes está, no mínimo, fora de foco. Citar o fato de que Bolsonaro 'gosta de judeus', como se fez em redes sociais, é aviltante: sugere que gostar de judeus é habeas corpus moral para molestar outros grupos" (Foto: Giuliana Miranda)

247 - O jornalista Arnaldo Bloch publicou nesta sábado uma carta aberta ao Clube Hebraica do Rio, que acolheu na semana passada uma pestra do deputado Jair Bolsonaro, que fez uma série de declarações de cunho racista.

"Foi uma provocação disfarçada em espírito democrático e defesa da liberdade de expressão. Bolsonaro se expressa livremente no Congresso e em declarações à imprensa e o convite para falar num clube é uma escolha curatorial. Ter recebido palestrantes “de esquerda”, em outras ocasiões, como se alegou, não é desculpa para uma agremiação que se pretende humanista acolher em seus salões Jair Bolsonaro, esse apologista da tortura e do abuso (autor do lema “não te estupro porque você não merece”), cujas posições, públicas, como as elegias ao coronel Ustra, consumado torturador no Doi-Codi paulista, são conhecidas e repudiadas em vários espectros.

Um judeu que presta honrarias (não foi uma entrevista, ou uma sabatina crítica) a um indivíduo que persegue seus semelhantes está, no mínimo, fora de foco. Citar o fato de que Bolsonaro “gosta de judeus”, como se fez em redes sociais, é aviltante: sugere que gostar de judeus é habeas corpus moral para molestar outros grupos. O mesmo espírito que hoje estimula o diálogo inter-religioso (atos ecumênicos contra intolerância unindo rabinos, pastores, mulás, babalorixás etc) deve pautar a solidariedade a mulheres, homossexuais, trans, negros, candomblecistas, umbandistas, indígenas, ateus; ou a ex-ativistas torturados ou mortos nos porões da ditadura, muitos dos quais judeus, cujos filhos e netos herdaram a memória de seu martírio.

A justiça é um dos pilares do judaísmo. E o judaísmo está muito além de pertencimento religioso, identidade nacional e ideologia: é um povo multiétnico e multicultural, que, desde a expulsão pelos romanos no ano 70 da Era Comum, vai da ascendência ibérica à eslava e passa pelos negros falashas da Etiópia. Viveu as Cruzadas, a Inquisição, os pogroms dos czares, a paranoia stalinista, e briga até hoje contra o antissemitismo.

Receber um político que se vale da ignorância para pregar o ódio a seus pares é esquecer-se de que o povo judeu é o Povo do Livro e que em suas fileiras militaram sábios. É ignorar a bandeira simbólica de igualdade perante “um”; do elo de Abraão; a de liberdade coletiva da saga de Moisés, celebrada a partir de segunda que vem, no Pessach; é esquecer o tikún olám (reparação do mundo) com que Walter Benjamin transpôs um conceito holístico para a política; ou o sionismo político de Theodor Herzl e o socialismo idealista e pioneiro de Ben Gurion, o founding father de Israel.

Prezada Hebraica, é preciso reparar esse erro. Sem ódio. Judaísmo é humanismo. Não se deve contribuir para a propaganda de desvirtuação desse caráter num período em que a verdade, já frágil por natureza, é vítima da manipulação e da maquinação de guerra."

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