Boulos, em entrevista a Haddad: Bolsonaro é o retorno de um passado autoritário

Guilherme Boulos, em entrevista concedida a Fernando Haddad, afirma que Bolsonaro é o retorno de um passado autoritário e também que “em qualquer lugar do mundo, Moro teria caído, e o ex-presidente Lula já teria sido libertado”

Fernando Haddad e Guilherme Boulos
Fernando Haddad e Guilherme Boulos (Foto: Reprodução)

Rede Brasil Atual  - A impunidade quanto ao conluio entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol representa a escalada do arbítrio no país, afirmou na noite desta segunda-feira (22) o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, ex-candidato à Presidência pelo Psol . “Em qualquer parte do mundo, o ex-juiz e agora ministro da Justiça e Segurança Pública teria caído, enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso, já teria sido libertado”, disse. “O grau de anomia no país é impressionante, é sinal da crise democrática”, completou.

Boulos foi entrevistado pelo ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato à presidência pelo PT, Fernando Haddad, que estreou programa de entrevistas pelas redes sociais, veiculada pela produtora All TV.

Durante a entrevista, o líder do MTST foi crítico com setores da esquerda. “Uma coisa que me incomoda um pouco é uma tendência enorme de parte da esquerda de falar da realidade do povo, mas muitas vezes não estar lá e viver e conferir essa realidade.” Mas enfatizou que a “índole” do governo Bolsonaro estimula um processo de criminalização dos movimentos sociais, citando o caso das prisões, há quase um mês, de integrantes do Movimento dos Sem Teto do Centro, de São Paulo, sem nada que a justifique, e baseadas em um processo que nada tem a ver com a atuação desse movimento.

“A Preta Ferreira e a Cármem Silva são pessoas sérias dentro do movimento e que são acusadas de praticar extorsão. O inquérito foi aberto pela Polícia Civil de São Paulo a partir daquela tragédia (anunciada), do Largo do Paissandu. Houve denúncias depois do desabamento do prédio que havia um processo de extorsão das famílias. E nós sabemos muito bem que oportunista tem em todo canto. Em não conheço nenhum lugar que não tenha”, observa Boulos.

“De todo modo, a gente não pode aceitar o flagelo do movimento de moradia, porque tem muito mais oportunista por metro quadrado no Congresso Nacional do que em qualquer movimento social do Brasil. Tem muito mais oportunistas no Judiciário, como o Intercept está mostrando, do que no movimento social de moradia. Mas não é por isso que vamos ser contra a instituição. Tem que saber separar o joio do trigo”, define, explicando que o processo que persegue lideranças como Preta Ferreira é uma carona em uma caso muito específico, o do prédio do Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, para criar uma imagem de que todas as lideranças de movimento de moradia são oportunistas.

“O processo de criminalização desvirtua um problema real que precisa ser combatido, acaba não separando o joio do trigo e pegando pessoas respeitadas que não deveriam estar presas.”

Ao ser perguntado por Haddad sobre o que explica esse processo de escalada do arbítrio no país, Boulos diz que um dia antes do primeiro turno das eleições de 2018, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, onde ele mora, foi abordado por um jovem que elogiou sua atuação na campanha, mas disse que votaria em Bolsonaro. “Você é legal, você foi ao ponto, e se eu não fosse votar no Bolsonaro, eu votava em você”, disse Boulos, citando a frase que ouviu do jovem.

Segundo Boulos, há vários fatores por trás desse fato, que podem ajudar a compreender a conjuntura pela qual o país passa. Ele cita como primeiro fator a crise econômica desde 2008, “quando o Castelo caiu”, como disse. “O recado dessa crise é que agora não tem lugar para todos no capitalismo”.

Ele lembra também a crise política manifestada em junho de 2013, e a crise na Espanha, na Itália, enfim, a crise nas democracias liberais por conta da apropriação do Estado pelas corporações.

Boulos disse ainda que a Operação Lava Jato, no caso do Brasil, potencializou o sentimento de antipolítica para que aparecesse uma figura como Bolsonaro.

Além disso, lembrou da crise da violência no país, concorrendo também entre todos os fatores para criar um caldo de cultura favorável a um cidadão como o presidente que hoje dirige o país.

Segundo a análise de Boulos, Bolsonaro é resultado de múltiplos fatores e não adianta gritar que os 57 milhões de pessoas que votaram nele são fascistas. “Isso é não compreender a questão que está se colocando”. Para Boulos, Bolsonaro representa também o retorno a um passado nunca superado, já que ele carrega o legado do autoritarismo tão presente na história do país.

O coordenador do MTST destacou também como fator do caldo de cultura os 65 mil homicídios registrados em 2017, segundo o Atlas da Violência, e a cantilena cotidiana dos meios de comunicação, que pregam que para acabar a violência é preciso mais polícia e mais prisões.

Sentido da mobilização na educação

“No caso da educação eu acredito que tem duas dimensões para a gente tratar. Uma é a questão dos cortes, que é séria. Tem universidade em que se os cortes não forem revertidos totalmente, não vai ter dinheiro para a conta de luz, para papel higiênico, para funcionar minimamente”, disse Boulos.

“E não só as universidades, porque eles construíram uma versão mentirosa para falar que estavam tirando do ensino superior para dar para o básico. Mentira, os cortes foram no ensino básico, nos institutos federais, aliás, se tivessem preocupação com o ensino básico estariam debatendo o Fundeb, o principal fundo de financiamento do ensino básico, com maior participação da União, que é a proposta de consenso, feita pelo parlamento, pelos movimentos, com a sociedade civil, governadores, prefeitos”.

“O que levou àquele verdadeiro levante no mês de maio na educação foi uma disputa sobre o sentido da educação brasileira. Que projeto de educação a gente quer? É uma educação que forme uma engrenagem para o mercado de trabalho, ou uma educação que forme para a vida, para a cidadania, com espírito crítico. Nós queremos Weintraub ou Paulo Freire? E foi eles que colocaram, porque esse debate não estava colocado”.

Acordo Mercosul-UE

Boulos se mostrou bastante contundente ao criticar o acordo do Mercosul com a União Europeia, assinado durante reunião do G20 e celebrado como vitória pelo presidente Jair Bolsonaro. “O acordo troca cotas agrícolas com abertura total para a indústria de ponta dos europeus. Ele vai matar a indústria automobilística no Brasil. Fortalece o agronegócio, a mineração e o setor primário, e transforma o Brasil numa fazenda da Europa”, afirmou.

Boulos disse que o acordo foi destravado depois de 20 anos, porque os governos sul-americanos aceitaram todas as condições europeias com menos contrapartidas.

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