Brasil: 'Lava Jato Gate' vem comprometer ainda mais a imagem do ex-juiz Sergio Moro

Hoje ministro da Justiça, o ex-juiz é suspeito de ter orientado as investigações relativas ao ex-presidente Lula para impedir seu retorno ao poder

Brasil: 'Lava Jato Gate' vem comprometer ainda mais a imagem do ex-juiz Sergio Moro

Por Le Monde, com tradução de Sylvie Giraud - O Brasil fez dele um ídolo, vendo no homem um xerife capaz de limpar um país gangrenado por negócios escusos e imoralidade. Mas nesta segunda-feira 10 de junho, a principal vítima do que o país chamou de "Lava-Jato Gate" ou "Lava-Jato Leaks" parece ser o ex-juiz Sergio Moro, figura de proa da operação anticorrupção "Lava-Jato" e "aniquilador" do ex-presidente da esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula. Um escândalo que veio desprestigiar ainda mais a imagem do ex-juiz, já manchada pela sua entrada no governo de extrema direita de Jair Bolsonaro em janeiro.

Na origem, está o vazamento pelo site The Intercept na noite de 9 de junho, de uma série de trocas de mensagens trocadas entre 2015 e 2018 entre o Sr. Moro e o procurador Deltan Dallagnol. Seu conteúdo sugere que as investigações sobre Lula que está preso desde abril de 2018 por corrupção, foram direcionadas para impedir o retorno do herói da esquerda ao poder. Uma tese já apoiada pelos militantes do Partido dos Trabalhadores (PT, à esquerda).

No detalhe, as mensagens revelam a influência de Sergio Moro, na condução das investigações. O magistrado pressiona e chama a atenção das equipes - "já não faz muito tempo que não temos nenhuma operação? -, sugere reverter a ordem das intervenções ou aconselha que entrem em contato com uma pessoa que teria coisas a dizer sobre a investigação.
Ora, como relembra The Intercept, a Constituição Brasileira distingue claramente o papel do acusador e do juiz. As duas partes não podem ser confundidas e, no passado, Sergio Moro defendeu-se várias vezes de ser um "juiz de investigação".

"Eles dirão que estamos acusando com base em artigos"

Além desses intercâmbios, as mensagens descobertas pelo site cofundado pelo jornalista norte-americano Glenn Greenwald atestam das dúvidas de Deltan Dallagnol sobre a consistência do dossiê de acusação. Depois de ter feito de Lula o "líder supremo" de um vasto esquema de corrupção, o promotor evangélico se preocupa: "Eles dirão que estamos acusando com base em artigos de jornais e provas frágeis ..."

Em seguida, o vemos em pânico quando, alguns meses antes da eleição presidencial, o Supremo Tribunal pretende autorizar uma entrevista de Lula ao jornal Folha de S. Paulo. "Estou preocupada com um possível retorno do PT [ao poder], mas rezo muito a Deus para que um milagre nos salve", escreveu Carol, uma de suas colegas de promotoria, à qual Deltan Dallagnol responde "Sim, reze."

Outra promotora, Laura Tessler, é mais direta "Que piada !!! Revoltante !!! Ele vai dar palestra da prisão. Verdadeiro circo ... ", ela escreve.

"Mafioso !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!" lhe responde sua colega Isabel Groba antes que a Sra. Tessler acrescente "... uma conferência de imprensa antes do segundo turno pode eleger Haddad", referindo-se a Fernando Haddad, candidato do PT e substituto de Lula na corrida presidencial de outubro de 2018 .

Bolha midiática ou bomba-relógio?

Se não há por enquanto nenhuma evidência que permita inocentar Lula, a defesa do ex-presidente considera que o processo foi corrompido e exige que se dê fim à "perseguição política" do condenado.

O Conselho Nacional do Ministério Público, por sua vez, decidiu investigar Deltan Dallagnol enquanto deputados e senadores da oposição devem exigir a convocação de Sergio Moro no Congresso e a realização Comissão de Inquérito.

"Fui um dos primeiros a defender Lava-Jato, mas a luta contra a corrupção não justifica o uso de práticas ilegais. Temos aqui um juiz que interferiu em uma investigação e, ainda pior, que agiu politicamente para favorecer um candidato. É seríssimo", disse o senador Randolfe Rodrigues, do partido ecológico Rede, pedindo a renúncia de Moro.

Segundo o antigo magistrado, essas conversas "não são nada demais". "Não há nenhuma orientação em minhas mensagens. O que é grave é a invasão criminosa dos celulares dos promotores", reagiu, segunda-feira, o Ministro da Justiça, à margem de uma viagem a Manaus, no Amazonas.

Vindo apoiá-lo, o Ministério Público, bem como os partidários do governo, enfatizaram o posicionamento "tendencioso" (pró-Lula) do site The Intercept. Eduardo Bolsonaro, filho do chefe de Estado também lembrou que Glenn Greenwald era casado com o membro do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL esquerda), David Miranda, substituto de Jean Wyllys, porta-voz da causa LGBT inimigo número 1 dos pró-Bolsonaro, exilado após receber ameaças de morte.

"Estamos casados há catorze anos, temos dois filhos e vinte e cinco cachorros. Glenn é uma pessoa íntegra e estou orgulhoso dele", comentou David Miranda, em resposta aos seus críticos, acrescentando: "Sergio Moro e os promotores não podem se sair dessa com uma simples nota, eles devem explicações."

Bolha midiática ou bomba-relógio para a justiça e o governo? No Brasil, ninguém é capaz de avaliar os desdobramentos do caso. Mas, antes mesmo das próximas revelações prometidas por Glenn Greenwald, raros são aqueles que duvidam dos danos à carreira de Sergio Moro, que ambiciona um cargo no Tribunal Superior.

"Suas intervenções colocam em dúvida sua imparcialidade e neutralidade política. É triste", diz Gustavo Justino de Oliveira, advogado e professor de Direito da Universidade de São Paulo. Na noite de segunda-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) exigiu que Sergio Moro e Deltan Dallagnol fossem afastados de suas funções. Jair Bolsonaro irá reunir-se, no dia seguinte com seu ministro da Justiça.

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