Brasileiros buscam em Lula “normalidade”, após anos de “desgastante” governo Bolsonaro, diz revista francesa

Revista francesa l’Obs destaca a volta do ex-presidente Lula à cena política e afirma que ele continua sendo uma pessoa de “alianças” e de “compromissos”

RFI - Com a reportagem “Lula, o eterno retorno”, a revista francesa l’Obs desta semana destaca a volta do ex-presidente à cena política e analisa o que motivou sua candidatura para a presidência. Para a publicação, além de uma nostalgia dos anos do governo do PT, o eleitor brasileiro que vota no candidato de esquerda busca “normalidade” após anos do governo “desgastante” de Jair Bolsonaro.

Lula não promete uma revolução, na opinião da revista, apenas que os brasileiros possam “fazer um churrasco e beber uma cerveja”. Suas três palavras de ordem durante a campanha são até enfadonhas, afirma a reportagem: “previsibilidade, credibilidade e estabilidade”, o que poderia levar a acreditar que Lula será um presidente “normal”. “Ou não! Não há nada de normal na vida deste homem”, alerta a publicação.

L’Obs lembra que há pouco mais de quatro anos, Lula estava “morto” politicamente, “abatido” pelo gigantesco escândalo de corrupção e de lavagem de dinheiro revelado pela Operação Lava-Jato. Ironia do destino, o trabalho da Justiça foi possibilitado por reformas realizadas por ele e por sua sucessora Dilma Rousseff. “A grande novidade foi que a corrupção endêmica que gangrena a classe política brasileira foi finalmente revelada”, relata a revista, lembrando que Lula pagou caro e ficou preso por 580 dias por suposto enriquecimento pessoal.

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Entre os casos de corrupção e a crise econômica, o Partido dos Trabalhadores e o próprio Lula sofreram uma rejeição de “inacreditável violência”.

Motivos para a volta

“Mas o que fez Lázaro sair do túmulo?”, pergunta o semanário, fazendo referência ao personagem bíblico ressuscitado por Jesus. Primeiro, a decisão do Supremo de anular a prisão de Lula, em 2019 e, no ano seguinte, a retirada das acusações contra o ex-presidente, depois de evidências de irregularidades envolvendo o ex-juiz Sérgio Moro. Em 2021, Lula retoma seus direitos civis e pode finalmente concorrer a uma eleição presidencial.

O filósofo e cientista social Marcos Nobre, entrevistado pela l’Obs, acredita que a prisão tornou Lula mais “introspectivo” e até o “reaproximou da religião”. “Eu tenho a impressão de que ele está mais isolado. Que ele consulta menos os outros”, diz Nobre.

Mas, de acordo com a revista semanal, o DNA político de Lula não mudou realmente. Ele continua sendo um homem de “alianças”, de “compromissos”. O ex-presidente é sobretudo um negociador, de acordo com Cláudio Couto, cientista político da Fundação Getúlio Vargas, que não hesita em aceitar todos os apoios, de Geraldo Alckmin, Joaquim Barbosa, ruralistas e defensores do porte de armas que votam tradicionalmente em Jair Bolsonaro.

Nostalgia e Bolsonaro

Para a publicação, a nostalgia de muitos brasileiros dos anos de seu governo colocou Lula à frente das pesquisas. Durante seu mandato, a taxa de pobreza no Brasil caiu de 40% para 25%, a mortalidade infantil recuou e o salário mínimo aumentou, tudo isso levado pelo boom das commodities.

Dez anos depois, com as crises financeira e política, eleitores divididos e um recuo médio de 20% da renda per capta, o Brasil é um país no chão. “É possível compreender que alguns falem da volta do ‘salvador’”, explica a revista.

Outra razão para a volta de Lula é o próprio Jair Bolsonaro. Seus quatro anos de governo “instável”, “desgastante” e “incopetente” foram marcados pela inflação galopante, a negação da pandemia de Covid-19, o aumento do desmatamento e o isolamento internacional.

De acordo com a l’Obs, o trabalho de Lula será semelhante ao do presidente americano, Joe Biden: ele terá que governar bolsonaristas cujo líder recusa a derrota.

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