Fernando Brito: sangue é o fruto da diplomacia do confronto

"Não se trata de ser condescendente com os erros do regime venezuelano, mas de não os usar para produzir novos, tão graves quanto os anteriores e mais ainda, o de justificar outros", diz o jornalista Fernando Brito, do Tijolaço; "Com personagens do tipo que temos no comando do país, nos ameaça lançar no meio de um banho de sangue", diz ele, ao criticar Jair Bolsonaro

Fernando Brito: sangue é o fruto da diplomacia do confronto
Fernando Brito: sangue é o fruto da diplomacia do confronto (Foto: Carlos Garcia - Reuters)

Por Fernando Brito, do Tijolaço - Não se trata de ser condescendente com os erros do regime venezuelano, mas de não os usar para produzir novos, tão graves quanto os anteriores e mais ainda, o de justificar outros.

A situação econômica da Venezuela  é certamente grave e a diplomacia do confronto multiplicou a gravidade por diversas vezes, criando embargos para a venda do petróleo – a quase única fonte de receitas do país – , impedindo-os de comprar remédios, alimentos e outros artigos essenciais ao abastecimento.

A situação política da Venezuela é, também, certamente grave, com o país polarizado, tomado pelo ódio – algo que agora estamos começando a compreender como é danoso – e a diplomacia do confronto também só fez multiplicar isso, quando se escolheu exclusivamente um lado que que sequer tem o controle físico do país e proclamou-o um “governo de mentirinha”.

Fomos atropelando, um a um, os marcos de pressões políticas civilizadas, como têm sido a tradição dos últimos 40 anos. Fizemos letra morta dos princípios de autodeterminação dos povos e juntamos governos – o nosso, inclusive – a defender uma intervenção militar sobre a Venezuela, sem sequer o pudor de ocultar o desejo que ela viesse dos Estados Unidos, aluno repetente de experiências golpistas, pelas mãos da mesma diplomacia do confronto, aquela que nos tira qualquer possibilidade, pois nos obriga ao alinhamento automático com um lado e a oposição total a outro.

O resultado disso foi o que se viu, ontem, em Caracas.

Aos olhos da direita, o melhor seria uma quartelada bem-sucedida, o que não ocorreu. Para outros, o resultado melhor a ser alcançado é a total militarização do regime de Caracas, o que não parece estar longe de acontecer.

Nosso país, com seu peso na América Latina capaz de dar-lhe a condição natural de coordenador da comunidade de nações, é reduzido a um coadjuvante de – vá lá, por boa-vontade, de segunda linha.

Nosso vizinho, com o qual já tivemos uma importante relação comercial, já não existe em matéria de destino dos nossos produtos e serviços.

E o pior, está lançado a uma situação de instabilidade, de violência e de impasse político aparentemente insolúvel.

No meio de tudo isso, o sr. Bolsonaro vem falar em “declaração de guerra”, embora improvável. De forma, aliás, além da insanidade,  absolutamente ignorante em matéria legal. Era algo que há 80 anos não se ouvia e  – mesmo na declaração de guerra ao Eixo, onde houve uma reação ao torpedeamento de navios brasileiros – sem que tenhamos sofrido nenhuma agressão militar.

Não se trata, como se disse ao início, de julgar o governo Maduro. Trata-se de julgar o governo brasileiro e sua enxurrada de erros e irresponsabilidades.

A diplomacia do confronto já nos chamaria ao desastre. Com personagens do tipo que temos no comando do país, nos ameaça lançar no meio de um banho de sangue.

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