Florestan Fernandes ao 247: na mão dos bancos, mídia apoiou o golpe

Em entrevista à TV 247 o jornalista Florestan Fernandes Jr. é enfático quanto ao que aconteceu no Brasil há um ano: “Eu acho que o que aconteceu no Brasil foi um golpe mesmo. E um golpe que começou a ser armado talvez antes ainda da primeira eleição da Dilma”. “Havia um interesse violento dos bancos de tirar a Dilma e colocar alguém atrelado aos interesses deles”, explica. “O que surpreendeu muito foi a utilização da Justiça para se fazer esse trabalho que no passado foi feito pelos militares”, diz ele; Florestan também denuncia o nítido interesse internacional na tomada do pré-sal; confira a íntegra

Em entrevista à TV 247 o jornalista Florestan Fernandes Jr. é enfático quanto ao que aconteceu no Brasil há um ano: “Eu acho que o que aconteceu no Brasil foi um golpe mesmo. E um golpe que começou a ser armado talvez antes ainda da primeira eleição da Dilma”. “Havia um interesse violento dos bancos de tirar a Dilma e colocar alguém atrelado aos interesses deles”, explica. “O que surpreendeu muito foi a utilização da Justiça para se fazer esse trabalho que no passado foi feito pelos militares”, diz ele; Florestan também denuncia o nítido interesse internacional na tomada do pré-sal; confira a íntegra
Em entrevista à TV 247 o jornalista Florestan Fernandes Jr. é enfático quanto ao que aconteceu no Brasil há um ano: “Eu acho que o que aconteceu no Brasil foi um golpe mesmo. E um golpe que começou a ser armado talvez antes ainda da primeira eleição da Dilma”. “Havia um interesse violento dos bancos de tirar a Dilma e colocar alguém atrelado aos interesses deles”, explica. “O que surpreendeu muito foi a utilização da Justiça para se fazer esse trabalho que no passado foi feito pelos militares”, diz ele; Florestan também denuncia o nítido interesse internacional na tomada do pré-sal; confira a íntegra (Foto: Leonardo Attuch)
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Por Alex Solnik e Leonardo Attuch

Nessa entrevista à TV 247 o jornalista Florestan Fernandes Jr. é enfático quanto ao que aconteceu no Brasil há um ano: “Eu acho que o que aconteceu no Brasil foi um golpe mesmo. E um golpe que começou a ser armado talvez antes ainda da primeira eleição da Dilma”. “Havia um interesse violento dos bancos de tirar a Dilma e colocar alguém atrelado aos interesses deles”, explica. “O que surpreendeu muito foi a utilização da Justiça para se fazer esse trabalho que no passado foi feito pelos militares”, diz ele. Florestan questiona o fato de os bancos, apesar de terem sido historicamente os maiores doadores em campanhas eleitorais não serem denunciados na mídia: “Eu tenho a impressão, quase uma convicção que a maioria da imprensa brasileira está na mão dos bancos”. Repórter da Globo durante a campanha das Diretas Já conta como o governo ditatorial pressionou as emissoras de televisão a ignorarem o primeiro comício do movimento: “No dia do comício chegou um fax da Presidência da República dizendo para os donos das emissoras que quem colocasse no ar as imagens e falasse que estava havendo uma manifestação contra a ditadura e pela democracia iria perder a concessão”. A Bandeirantes não obedeceu. “João Saad, dono da emissora foi chamado a Brasília. O general Figueiredo teria dito a ele: “lembra aquela concessão que o senhor me pediu de uma emissora aqui em Brasília?” “Lembro, presidente”. “Pois é, tá aqui a concessão... olha o que eu faço com ela”... e rasgou o papel na frente dele”.  Ele não tem dúvida de que o golpe teve apoio externo: “O Brasil começa a ser vigiado e começa a haver uma ação da CIA quando o Brasil anuncia a descoberta do pré-sal. Quatro laptops com informações importantes sobre a descoberta foram roubados”. Leia abaixo trechos da entrevista e assista na íntegra.

LEONARDO ATTUCH: No seu facebook que atinge mais de 40 mil pessoas você tem colocado posições muito claras acerca do momento político brasileiro. Na verdade, sobre o golpe. Porque é que você tem sido tão transparente e chama o que aconteceu no Brasil de golpe de forma tão explícita?

FLORESTAN FERNANDES JR.: Porque eu acho que o que aconteceu no Brasil foi um golpe mesmo. E um golpe que começou a ser armado talvez antes ainda da primeira eleição da Dilma. Durante todo o governo Lula a mídia o trata de maneira dura, depois, no governo Dilma também foi uma coisa quase que sistemática. O que surpreendeu muito foi a utilização da Justiça pra se fazer esse trabalho que no passado foi feito pelos militares. Isso ocorreu nos anos 50 com Getúlio Vargas que teve que dar um tiro no coração, porque o processo era igualzinho, com denúncias de corrupção, de enriquecimento ilícito...

ALEX SOLNIK: E nem tinha a Globo na época...

FLORESTAN: Tinha. Tinha o jornal “O Globo”...

ALEX: Que não tinha a força da TV.

FLORESTAN: Mas a mídia já era uma só voz... o discurso era único...

ALEX: Fora a “Última Hora”, é claro...

LEONARDO: O importante é o seguinte: a mídia já atua politicamente no Brasil há muito tempo, você mesmo citou o caso do Getúlio que teve contra ele o jornal do Carlos Lacerda...

FLORESTAN: “O Globo”, a “Folha”, o “Estadão”...

LEONARDO: Mas um engajamento da imprensa que houve contra Dilma você já viu igual?

FLORESTAN: Não.   

LEONARDO: De você ter convocações pra manifestações?

FLORESTAN: Não. Eu estava na Globo quando começou o movimento pelas Diretas Já. Havia a posição de se fazer a cobertura da primeira grande manifestação pelas Diretas Já a 25 de janeiro de 1985. De repente houve uma ordem para a gente voltar para a redação. E no lugar dos repórteres entrou uma narração em off com as imagens do comício dizendo que estava sendo comemorado o aniversário da cidade.

LEONARDO: Foi um dos grandes vexames da história da Globo.

FLORESTAN: Foi.

LEONARDO: Você pode contar os bastidores disso?

FLORESTAN: No dia do comício chegou um fax da Presidência da República dizendo para os donos das emissoras que quem colocasse no ar as imagens e falasse que estava havendo uma manifestação contra a ditadura e pela democracia iria perder a concessão.

LEONARDO: Ou seja, jogo pesado.

FLORESTAN: Jogo pesado.

LEONARDO: Era o Figueiredo?

FLORESTAN: Era o Figueiredo. Aí, a Globo que era a primeira entrar no ar com o Jornal Nacional recuou. Mas, pelo que eu soube, o dr. João Saad, dono da Bandeirantes reuniu Joelmir Beting, a diretora de Jornalismo levou na sala dele e falou: “olha, eu recebi esse fax, é uma ameaça, mas não tem sentido eu ter uma emissora de televisão e não dar uma notícia como essa. Então, eu quero dar a notícia, mas quero que façam de uma maneira muito delicada, sem provocações, só registrando que está ocorrendo isso”. A Band entrou com as imagens dizendo que estava havendo um comício pelas Diretas Já bem na hora em que estavam cantando o Hino Nacional. O Jornal da Manchete, que vinha na sequência da Band falou: vou dar também. Só a Globo não deu. Dias depois, o dr. João Saad foi chamado a Brasília por Figueiredo. Figueiredo teria dito a ele: “lembra aquela concessão que o senhor me pediu de uma emissora aqui em Brasília?” “Lembro, presidente”. “Pois é, tá aqui a concessão... olha o que eu faço com ela”... e rasgou o papel na frente dele.  

LEONARDO: Bem, as emissoras de TV apoiaram o golpe e a crise não acabou. Quem apostou nesse golpe saiu perdendo?

FLORESTAN: Eu tenho a impressão, quase uma convicção que a maioria da imprensa brasileira está na mão dos bancos.

LEONARDO: Toda pendurada?

FLORESTAN: Toda pendurada...havia um interesse violento dos bancos de tirar a Dilma e colocar alguém atrelado aos interesses deles. Um assunto que devemos tratar aqui é o da dívida pública brasileira que em grande parte é invenção dos bancos...

LEONARDO: O jogo, então foi muito mais pesado que uma disputa por verbas publicitárias?

FLORESTAN: Eu acho que sim. Você vê que o Moro faz uma investigação e nenhum nome de banco aparece. Os grandes financiadores das campanhas eleitorais são os bancos.

ALEX: O Moro acabou com aquela CPI do Banestado...quando envolve banco, engaveta.

LEONARDO: Já que você falou da Operação Lava Jato você tem feito posts sobre o tema, e fez um recente, que repercutiu muito, a gente até publicou no 247, que dizia respeito à participação internacional no golpe, especialmente o apoio dos Estados Unidos para destruírem setores estratégicos da economia brasileira. Aí estamos falando de engenharia...o próprio setor de proteína animal...você acha que houve mesmo uma ação de fora pra dentro?

FLORESTAN: Eu acho que houve. Eu tenho certeza que aconteceu isso. Eles não fizeram sozinhos. Contaram com a colaboração, como sempre, dos bancos e da grande mídia brasileira. Todos unidos num objetivo que é vender o país e ganhar dinheiro nesses leilões que vão ocorrer aqui com as grandes empresas. O Brasil começa a ser vigiado e começa a haver uma ação da CIA quando o Brasil anuncia a descoberta do pré-sal. Quatro laptops com informações importantes sobre a descoberta e dois HDs foram roubados na casa de engenheiros da Petrobrás em 2008. Em 2007 o Brasil descobre o pré-sal. Na época, um dos engenheiros disse ao G1: as informações que foram roubadas valem ao menos 2 bilhões de dólares. Ele falou: “eu não tenho dúvida nenhuma que o governo vai sofrer pressão para entregar essas reservas para as grandes empresas petrolíferas que atuam principalmente nos Estados Unidos”. Está lá no G1. Uma matéria enorme!

LEONARDO: Ou seja, a grande motivação do golpe foi a entrega do pré-sal. Lembrando que, no mês de outubro, se o Temer ainda estiver no poder pretende realizar os leilões de áreas de exploração nas quais a Petrobrás teria a preferência para atuar nos campos do pré-sal, mas como diz o Pedro Parente “talvez não seja o caso... os campos não são tão bons”, a Petrobrás vai abrir mão da preferência para a Shell, a Exxon, etc. Quer dizer, o objetivo vai se consumar se nada for feito.

FLORESTAN: Isso aí já está na agenda do governo. Além da entrega do petróleo eles acabaram com a indústria de plataformas. O Brasil estava produzindo aqui as plataformas de exploração de petróleo. Com a Lava Jato essas companhias faliram, fecharam, as fábricas de aparelhos de perfuração também fecharam e o Brasil hoje está importando plataformas da China. Os estaleiros fecharam. As empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa estavam fazendo obras na África, na China, Irã, Síria...as obras pararam. Em São Paulo o monotrilho está parado até hoje porque era de uma dessas empreiteiras.

LEONARDO: Da OAS, se não me engano. Mas, Florestan, ontem vazou mais um trecho da delação do Lúcio Funaro em que ele diz que Temer e Cunha conspiraram dia e noite pelo golpe e que ele mesmo comprou deputados para votarem a favor. A operação na Câmara foi paga. Você acha que isso abre perspectiva a anulação do impeachment?

FLORESTAN: Eu não acredito nisso mais. Eu acho que seria melhor para o Brasil se isso acontecesse, mas não acredito       que isso vá acontecer. E para aqueles que dizem não foi golpe basta dizer o seguinte: houve dois candidatos que usaram as mesmas armas, usaram dinheiro de caixa 2 em suas campanhas através de recursos de empreiteiras, bancos, enfim e todo mundo sabe muito bem como funcionava a eleição no Brasil. Uma pessoa ganhou a eleição. E ganhou com 5 milhões a mais de votos. A eleição tinha que ser respeitada. Teria que esperar o fim do mandato dela. Eles não queriam só antecipar a eleição, eles queriam tirar a possibilidade de a centro-esquerda com uma proposta social permanecer no poder. Eu trabalhei numa rádio no ano 200. A rádio ficava na Paulista. Um dia, o dono da rádio entrou no intervalo, dentro do estúdio falou assim: “no próximo bloco eu quero que você acabe com essa mulher”! “Essa vagabunda”! Começou a xingar. “Porque ela ficou de colocar um dinheiro aqui e não colocou”. O produtor pegou o telefone, ligou pro repórter: “Fulano, você está aonde”? “Tô aqui na Paulista”. “Como é que tá o ponto de ônibus aí”? “Tá meio cheio”. “Então, faz o seguinte, você vai entrar, vai entrevistar as pessoas para elas falarem mal do ônibus... que o ônibus não passa... que o serviço é ruim... que essa prefeitura não está fazendo nada em relação ao transporte”. E aí o sujeito fez as entrevistas. “Você fica muito tempo esperando o ônibus”? “Fico”. E por aí afora.

ALEX: Era a Marta?

FLORESTAN: Era a Marta Suplicy.

Assista à entrevista na íntegra.

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