Folha e Globo dão sindicalismo por vencido

Em editorial, jornal de Otavio Frias diz que "manifestações espontâneas de junho deixaram ainda mais anacrônicas essas organizações que arrogam a função de representar setores da sociedade, mas atuam como apêndices de governos e partidos." Para publicação carioca, "resta provado que é árduo não criticar um governo quando a economia vai mal, com inflação renitente, crescimento anêmico e perspectivas da volta do desemprego. O que leva à falta de palavras de ordem convincentes para encher as ruas"

Folha e Globo dão sindicalismo por vencido
Folha e Globo dão sindicalismo por vencido

247 - A Folha de S. Paulo e o Globo deste sábado ressaltaram o fracasso da mobilização sindical face às manifestações de rua do mês de junho. Leia:

Sindicalismo vencido - EDITORIAL FOLHA DE SP

Se pretende recuperar prestígio e terreno perdido, movimento sindical deveria deixar de agir como apêndice de partidos e governos

As manifestações organizadas no país para o chamado Dia Nacional de Lutas foram uma tentativa das diversas centrais sindicais de recuperar terreno perdido. Não apenas em relação aos protestos de junho, mas também aos anos de atuação domesticada pela simbiose com o governo petista.

Os atos bloquearam rodovias e reuniram cerca de 90 mil pessoas em 18 capitais. No auge, estima-se que os protestos do mês passado, à margem de sindicatos e partidos, tenham mobilizado mais de 1 milhão de pessoas.

As diferenças, além de numéricas, se evidenciaram na morfologia mais tradicional --de cima para baixo-- da expressão sindicalista e no intuito de poupar, o quanto possível, a imagem da presidente Dilma Rousseff.

Desde que voltou à cena no ABC paulista, na década de 1970, o sindicalismo brasileiro percorreu um ciclo que o levou do ímpeto renovador ao conformismo oficialista, a que se tem, não sem razão, chamado de neopeleguismo.

Já ficaram para trás as reivindicações em prol do "sindicalismo autêntico", defendido pelo então líder operário Luiz Inácio Lula da Silva, que postulava organizações trabalhistas autônomas. Com a ascensão dos sindicatos ao poder, a reboque do PT, consolidou-se a versão repaginada do modelo varguista. O sistema continua a ser tutelado pelo Estado e mantido por tributos compulsórios.

Ao todo, cerca de R$ 1,9 bilhão foi repassado, em 2012, aos cofres de sindicatos, federações, confederações e centrais --não só de trabalhadores, mas também patronais.

À sombra desse regime floresceram organizações artificiais, que beneficiam antes suas diretorias do que as categorias que deveriam representar. A burocratização e a instrumentalização por interesses partidários e governamentais é um claro sinal de descompasso entre as associações sindicais e as aspirações emergentes da sociedade.

É certo que as organizações trabalhistas continuam a ter um papel a desempenhar na defesa de seus associados, como ora se observa na Europa. Também lá as centrais foram às ruas na esteira dos protestos "horizontais" --mas encontraram na crise econômica e no alto desemprego um terreno propício para atuar.

Se pretende de fato recuperar o tempo perdido e reconquistar prestígio, o sindicalismo brasileiro precisa rever suas bandeiras, suas formas de atuação e, sobretudo, a maneira como se inscreve nas relações sociais e econômicas.

As manifestações espontâneas e descentralizadas de junho deixaram ainda mais anacrônicas essas organizações que arrogam a função de representar setores da sociedade, mas atuam como apêndices de governos e partidos.

Limitações do sindicalismo oficialista - EDITORIAL O GLOBO

É árdua a tarefa de ir à rua para não criticar o governo, no momento em que a inflação se mantém elevada, o crescimento é anêmico e há riscos da volta do desemprego


Depois do abalo sísmico causado na política nacional pela erupção de manifestações de rua articuladas em junho por meio de redes sociais, à margem de partidos e outras organizações políticas estabelecidas, o agendamento para quinta-feira do “Dia Nacional de Luta”, por sindicatos e partidos como PT, ganhou um caráter de confronto.

Quem mais mobilizaria: sindicatos com ligações governamentais — uns mais próximos do Planalto como a CUT, outros, como a Força, em fase de ensaio de voo solo partidário — ou grupos interconectados na internet? Frustrou-se quem esperava uma resposta à altura do esquema incrustado no poder há mais de dez anos. Até o PT, o outrora rei das ruas, se manteve recolhido, depois de escorraçado de algumas passeatas no mês passado. Justificou que preferiu deixar os espaços para os sindicatos. Pode haver quem acredite.

Foram visíveis as diferenças. Primeiro, de tamanho: 1 milhão de pessoas, estimadas para as capitais no dia 20 de junho, contra algo em torno de 100 mil na quinta-feira. Mais importante que isso, porém, foi a diferença das pautas de reivindicação. Enquanto as manifestações de junho, com muito mais jovens, trataram de questões amplas, capazes de sensibilizar todos — combate à corrupção, ética na política, baixos investimentos em transporte, educação e saúde —, os sindicatos oficialistas colocaram a tropa nas ruas com a velha agenda trabalhista, corporativista: redução da jornada de trabalho com manutenção dos salários, fim do fator previdenciário, aumentos salariais etc. Alguns dos pedidos são inexequíveis, sob o risco de explodir de vez as contas públicas. É o caso do fator previdenciário, um “jeitinho” de compensar o efeito negativo no caixa da Previdência da possibilidade de aposentadoria independentemente da idade até que se faça a necessária reforma a fim de instituir o limite etário mínimo para a obtenção do benefício. Houve um ensaio de críticas ao governo. A Força, cujo, líder, Paulo Pereira da Silva, trabalha para lançar um partido, pediu o afastamento do ministro Guido Mantega, algo que imagina ser popular. Mas nada de mirar na corrupção, pois o oficialismo de cada um os impede disto. Até porque há sempre a possibilidade de alguma pedra atingir o próprio telhado de vidro de quem se já se refestelou no condomínio criado no orçamento do Ministério do Trabalho. Restou ao movimento a abusiva e criminosa paralisação de rodovias, algo que começa perigosamente a se transformar em rotina.

O artificialismo das manifestações organizadas por máquinas profissionais de protesto ficou visível na confecção industrial de faixas — em contraposição às cartolinas escritas à mão, de junho —, carros de som e na comprovação do pagamento a “manifestantes”. Resta provado que é árduo não criticar um governo quando a economia vai mal, com inflação renitente, crescimento anêmico e perspectivas da volta do desemprego. O que leva à falta de palavras de ordem convincentes para encher as ruas.

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