Janio chora e diz que jornais estão perdidos

Aos 80 anos, colunista Janio de Freitas se emociona ao receber homenagem pelo conjunto da obra; na sua visão, diários estão cometendo suicídio ao tentar copiar a internet; leia reportagem de Cláudio Julio Tognolli

Janio chora e diz que jornais estão perdidos
Janio chora e diz que jornais estão perdidos (Foto: Jorge Araújo/ Folhapress )
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Claudio Julio Tognolli _247 - Janio de Freitas, colunista da Folha de S. Paulo, tido e havido como o maior mito vivo do jornalismo, chorou. Com direito a plateia de 500 pessoas, e a lenço branco de cambraia – que ele, numa delicadeza de príncipe, sacou do bolso e empurrou contra os olhos. "Vou acusá-los de tentativa de homicídio porque vocês tentaram matar de emoção um senhor de idade", declarou Janio.

O jornalista foi homenageado no sétimo congresso internacional de jornalismo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji. Janio, que este ano completa 80 anos, dividiu as honras de homenageado com Tim Lopes, assassinado por traficantes cariocas a 2 de junho de 2002.

Janio de Freitas assinalou que "jornais só cometem o suicídio ou por problemas na redação ou na administração, e o que tenho visto agora é os jornais estarem perdidos porque tentam copiar a internet e acabam perdendo a sua essência. Os jornais devem se voltar a eles mesmos, e deixar que a Internet, que ainda não encontrou um rosto, encontre o seu". Janio lembrou que quando a TV surgiu massivamente, nos anos 60, a mesma postura foi adotada: a de que eles acabariam pelo surgimento de uma nova mídia. "A funcionalidade do jornal continua imbatível. Mas ele precisa parar de copiar a internet."

Janio começou a carreira como desenhista na Revista do Diário Carioca, em 1953, aos 21 anos. Em pouco tempo, assumiu o cargo de diagramador e acumulou a função de repórter. Também foi fotógrafo e redator-chefe na Manchete. Fez parte da equipe que renovou a revista, experiência que repetiria a partir de 1957 no Jornal do Brasil. No JB foi responsável pela introdução de inovações na forma e no conteúdo que moldaram o jornalismo feito no Brasil a partir dos anos 60.

Desde 1980 trabalha na Folha de S.Paulo onde passou a publicar sua coluna política em 1983. Nesse espaço, publicou um de seus maiores furos: a comprovação da fraude na concorrência da ferrovia Norte-Sul, que percorreria 1.600 quilômetros de Goiás ao Maranhão. Orçada em 2,4 bilhões de dólares, era um dos principais projetos do governo José Sarney. A denúncia provocou a anulação da concorrência e o adiamento das obras da ferrovia. A reportagem rendeu-lhe cinco prêmios de jornalismo, entre os quais o Esso e o Prêmio Internacional Rei de Espanha.

Janio teve como mestres de cerimônias na homenagem os jornalistas Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, Marcelo Moreira, da TV Globo e presidente da Abraji, e Matinas Suzuki Jr – hoje editor da Companhia das Letras. Como ex-diretor executivo da Folha de S. Paulo, Matinas Suzuki contou por 20 minutos detalhes inéditos da vida de Janio: como ele ter abandonado as carreiras de pianista e piloto de aviões para se tornar um mito do jornalismo.

Voz embargada, falando em pausas, Janio despediu-se da plateia mandando um beijo. E, por três vezes, repetiu que se os jornais estão em crise de circulação é porque lhes falta se voltarem às suas raízes e tradições – e não continuarem a copiar a internet.

 

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