Lava Jato favoreceu jornalistas aliados para garantir divulgação de suas versões

A Operação Lava Jato usou jornalistas aliados com atuação nos grandes veículos de mídia para obter simpatia na opinião pública e refutar críticas aos comportamentos irregulares de juízes e procuradores da força-tarefa

Deltan Dallagnol e Segio Moro
Deltan Dallagnol e Segio Moro (Foto: ABr)
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247 - Procuradores da Operação Lava Lato colocaram em xeque o compromisso assumido com a transparência de suas ações ao usar seus contatos na imprensa para garantir que a visão do Ministério Público prevalecesse na cobertura do caso e assim ganhasse influência dentro e fora dos tribunais.

Em pelo menos duas ocasiões, após levantar o sigilo dos autos de um processo, Sergio Moro segurou a divulgação da chave numérica para permitir que os procuradores a fornecessem primeiro a repórteres de sua escolha, que assim teriam acesso à informação antes de outros veículos.

As informações e comentários constam de ampla reportagem do jornalista Ricardo Balthazar da Folha de S.Paulo, que preservou os nomes dos repórteres e editores envolvidos no relacionamento com a força-tarefa da Lava Jato

O jornalista narra que em dias em que novas fases da operação foram deflagradas, com prisões e buscas realizadas pela Polícia Federal pela manhã, Deltan informou alguns jornalistas com antecedência sobre as ações, encaminhando cedo a eles pelo Telegram as notas oficiais que só foram distribuídas aos outros jornalistas mais tarde.

Deltan Dallagnol e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima eram os que mais se relacionavam com a imprensa. Ninguém devia falar sem que ambos soubessem. Eles tinham entre as suas atribuições a coordenação da assessoria de comunicação e a orientaram a lhes submeter todas as demandas recebidas.

“Deixem-me saber de tudo que acontece de imprensa”, disse Deltan à equipe de comunicação em fevereiro de 2016. “É importante estar situado e pensar juntos na mensagem global a ser passada”.

Por outro lado, diz a reportagem, até jornalistas que eram julgados confiáveis foram tratados com frieza quando sugeriram pautas que a força-tarefa achava negativas, arriscadas ou embaraçosas. Vários procuraram Deltan no Telegram para obter informações sobre acordos de delação premiada quando as negociações com os colaboradores estavam em curso e ficaram sem resposta.

Os diálogos examinados pela Folha de S.Paulo mostram também que, em busca de aproximação com a força-tarefa, alguns jornalistas que mantiveram contato com Deltan pelo Telegram ignoraram balizas de natureza ética e usaram a discrição oferecida pelo aplicativo para passar informações aos investigadores em caráter sigiloso.

Os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça do governo Bolsonaro atuaram junto à imprensa com a concepção de que estavam em guerra, com inimigos em todo lugar. 

A finalidade da ação junto à mídia era pressionar os investigados em potencial a fazer confissões e delações, sob o fantasma da massa de informações que poderiam ser publicizadas. 

A relação de Moro, Deltan e outros membros da Lava Jato era também garantir o apoio da opinião pública às ações judiciais, e a refutação das críticas às suas práticas. 

“Nessa guerra de mídia em que vivemos, eles tentam também, com seus meios, gerar pressão sobre os tribunais”, argumentou Deltan. “É uma avalanche... Uma guerra na imprensa em que precisaríamos ter um corpo de colegas do nosso lado escrevendo e divulgando coisas para balancear e manter a força de imprensa da atuação”.

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